Sala de Ordenha

 

Mercado espera melhores margens

Marcelo Carvalho

Com um leve atraso nas chuvas na maioria das regiões produtoras, a produção de leite finalmente chega ao pico, ao mesmo tempo em que, na região Sul do país, começa a dar sinais de queda, normal para a época do ano.

A maior oferta de leite levou o preço a cair na maioria das regiões, ainda que a queda tenha sido pequena, em média. Segundo o Cepea, a média dos preços pagos aos produtores em janeiro apresentou queda de 1,18% frente ao valor de dezembro e, quando comparado ao mesmo período do ano passado, a redução foi de 1,49%.

Ao observarmos os valores pagos em janeiro em comparação com o valor de pico no ano anterior (Gráfico 1), é possível verificar que, neste ano, assim como no ano passado, o preço recebido no campo nessa época, em média, pouco se alterou. Isso pode sinalizar uma mudança no comportamento de safra, quando os preços caíam significativamente. Nos últimos nove anos, em quatro a queda na chamada safra foi modesta, podendo significar que o comportamento histórico de preços pode não ser mais a referência para o comportamento.

Apesar de preços que se mantiveram relativamente estáveis e em um patamar elevado se comparado às médias dos últimos anos, a rentabilidade se deteriorou em 2012, fruto da elevação dos custos.

Em uma simulação feita pelo MilkPoint, é possível visualizar que os aumentos nos custos de produção, durante o ano, fizeram com que o produtor perdesse rentabilidade, trabalhando boa parte do ano no vermelho (Gráfico 2). O gráfico 2 é feito a partir dos dados do ICPLeite e dos preços do leite em Minas Gerais apontados pelo Cepea. No entanto, como o ICPLeite trabalha com os valores relativos apenas, nós, arbitrariamente, colocamos o valor de R$ 0,525/litro como custo em julho de 2007, corrigindo a partir daí pela inflação. O gráfico mostra que preços estáveis e relativamente elevados (ou no mínimo da média) não foram suficientes para garantir lucro para o produtor hipotético.

Essa realidade pode ser comprovada também pela análise da rentabilidade. Observa-se que em 2012 os valores permaneceram muito abaixo dos anos anteriores. Esse é mais um indicativo de que preços não significam muito em um ambiente de custos voláteis, uma vez que a variação nos custos muda toda a relação.

A realidade coloca dúvidas sobre o crescimento da oferta nesse ano, ainda que não tenhamos os problemas climáticos de 2012. Nesse momento, a oferta é mais alta, como de costume, resultando em estoques e em alguma redução nos preços no atacado de UHT e queijos, mas o comportamento para os próximos meses, diante da rentabilidade comprometida, é de ajuste para baixo.

Ainda há um outro ponto relevante para o mercado interno, que é a grande entrada de produtos lácteos importados. Por outro lado, os preços externos recuperaram-se nas últimas semanas, embora não na velocidade esperada, já que a produção da Nova Zelândia superou as expectativas. De qualquer forma, as importações mais caras e o câmbio ao redor de R$ 2,00 colocam menor ímpeto nas importações. Aliado a isso, houve mudança na aplicação da alíquota de ICMS em operações interestaduais para produtos importados desde janeiro, que passa a ser de 4%, tornando-se menos vantajoso internalizar produtos. Ainda, o Brasil renovou o acordo de cota de importação de leite em pó com a Argentina.

Um provável cenário nos leva a prever uma possível recuperação nas cotações nos próximos meses, o que depende dos fatores acima. Mas, mais para o meio do ano é possível ter um certo alívio nos custos de produção, uma vez que as cotações futuras de milho e soja na BM&F sinalizam redução, embora isso vá depender da safra dos EUA.

2013 começa difícil para o produtor de leite, que já vem combalido pela baixa rentabilidade de 2012. Essa situação, por outro lado, pode favorecer uma eventual melhoria nas condições.

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor-executivo da AgriPoint Maria Beatriz Tassinari Ortoloni, analista de mercado do Milkpoint