Do Pasto ao Prato

 

QUAL O FUTURO DA PECUÁRIA DE CORTE NO SUL DO BRASIL?

A pecuária do sul do Brasil é única. Tem muitas oportunidades, em especial num mercado que demanda cada vez mais qualidade. Outros pontos fortes são a tradição, a cultura e a história. Quem faz pecuária no sul do Brasil tem mais do que um negócio, tem uma paixão e um grande orgulho pelo que faz. E eu admiro muito tudo isso.

Precisamos pensar que a pecuária do sulista é diferente. Uma criação única, exclusiva e com grande potencial. O foco dessa pecuária já é e deve ser cada vez mais a qualidade, a diferenciação e a agregação de valor.

No varejo, o preço do boi é mais alto do que o do frango. E vai continuar sendo. E a pecuária vai ganhar quando trabalhar mais e mais para vender bem, mesmo com o preço mais alto. A pecuária do Sul tem a mesma relação com a pecuária do Centro-Oeste do Brasil. O custo e o preço são mais altos, mas se pode ganhar mercado com foco na qualidade e no fazer diferente.

Não vamos ganhar do frango tentando fazer um boi parecido com o frango. Vamos ganhar quando o fizermos cada vez mais diferente. Do mesmo modo que a pecuária do Sul, precisamos trabalhar o diferente, o especial, o único.

Lembro-me de ir num ótimo supermercado em Porto Alegre/RS e ver uma incrível gôndola de carne bovina. Enorme, bonita, com várias opções de preços, raças, selos e países. E também vi que a carne mais barata, em promoção, era de cortes “importados” de outras regiões do Brasil.

Achei curioso e fui olhar de perto. No anúncio, estava claro que era uma carne “de fora” e pelo visual era fácil de ver que era realmente diferente. O corte de costela era muito menos “carnudo”, fiquei com a impressão de que não dava mesmo para vender duas costelas tão diferentes por um preço igual.

Para que uma pecuária como a encontrada no Sul tenha sucesso, vai ser preciso buscar inovação, qualidade, marketing e também a valorização da cultura, da tradição e da emoção.

Por exemplo, conheci em Porto Alegre uma lanchonete de hambúrgueres chamada Pampa Burguer. O posicionamento é produto de qualidade, com preço justo. Hamburguer assado na brasa. E o mais interessante, toda a comunicação, todo o visual remete às tradições gaúchas. Os nomes dos lanches são homenagens à cultura e à história do RS. Achei muito bacana, gostei muito da comida e percebi que esse é um dos caminhos: juntar o que é moderno (lanches) com a tradição (imagine um lanche chamado “Galo Véio”). O slogan da marca é claro: “Tradição no meio do pão”.

A qualidade, os produtos especiais são o ponto-chave do sucesso da pecuária do Sul, hoje e amanhã. O trabalho, por exemplo, que a churrascaria Vermelho Grill vem fazendo, de oferecer carne de alta qualidade num ambiente muito agradável. Cada vez mais vamos vender uma experiência de consumo, vamos comprar as sensações e os momentos agradáveis.

Quando falamos de experiência, precisamos trabalhar de duas frentes. A primeira é a qualidade sensorial do produto. Sabor, maciez, coloração e textura. E também ensinar o consumidor a preparar o produto. Ou você tem alguma dúvida de quem vai ser a culpa (na cabeça do consumidor) se o prato ou o assado não ficarem bons?

A segunda é trabalhar a história. Isso inclui tradição e cultura. Temos de contar mais nossas histórias, celebrar nossos heróis da pecuária do passado. Precisamos comemorar quem faz um bom trabalho hoje. E também pensar no sistema de produção, em ser capaz de contar como e onde foi produzido.

Isso tudo é muito interessante e temos bons exemplos, de sucesso, no agro do Sul do Brasil. O vinho gaúcho vem ganhando cada vez mais espaço, num mercado extremamente concorrido e que já tem inúmeros “players” fortes e atuando há anos. Outro exemplo são as cachaças gaúchas. Na Expointer do ano passado, pude conhecer e provar várias marcas, com qualidade e também apresentação de primeira. A embalagem, o rótulo, o material promocional, tudo era muito bonito. Parecia que o objetivo era concorrer com o uísque e não com a pinga.

E, por último, o exemplo que considero mais inusitado. Os deliciosos e tradicionais doces de Pelotas. Imagine comer um doce de ovos de excelente qualidade, sabor incrível (meu favorito é o ninho) e olhar na embalagem e ter o endereço do site da associação e um número de rastreabilidade. Sim, em cada docinho tem escrito o número da rastreabilidade, onde você pode checar data de produção, remessa, etc.

Quando vi isso, reforcei ainda mais minha certeza de que o agro brasileiro tem muita coisa boa para mostrar, porém, o que mais reparamos ainda são as notícias ruins. Isso reforça o propósito do Beef- Point de promover o melhor da pecuária, de mostrar quem faz hoje a pecuária do futuro.

Outro exemplo interessante é do nosso vizinho Uruguai. Um país pequeno, de tamanho similar ao do RS, que, mesmo com poucos recursos, vem fazendo um trabalho primoroso em qualidade e promoção de carne bovina. Promovem muito bem suas qualidades, seus diferenciais, ou seja, divulgam aquilo que os torna diferentes. E também tem um trabalho exemplar de estratégia, planejamento e visão de longo prazo.

Para pensar longe, para construir o futuro, precisamos pensar em nossas lideranças. Fica aqui o desafio para você pensar quem são as novas lideranças do agro, no Sul e no Brasil como um todo. Quem é a nova geração? Quem são as lideranças com menos de 40 anos?

O sucesso futuro não acontece por acaso. O futuro não é o que fazemos amanhã, mas aquilo que fazemos agora. Vejo um cenário atual e futuro muito promissor para a pecuária do Sul. As oportunidades estão aí, mas, para colher, precisamos plantar. Precisamos trabalhar muito, muito mesmo, para conquistar esse lugar que é nosso, mas não será entregue de graça, sem esforço, suor e até algumas derrotas. Vamos em frente?

Fica a pergunta: o que você está fazendo para aproveitar as oportunidades únicas que a pecuária do Sul do Brasil nos mostra?

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)