Escolha do Leitor

 

BEM-ESTAR ANIMAL

Conhecer o comportamento animal ajuda a maximizar o manejo dos bovinos de corte

Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa* e Aline Cristine Sant'Anna**

Há vários recursos e estímulos que são necessários para que os bovinos se encontrem em boas condições de bem-estar, como o espaço em si, permitindo que os animais mantenham suas atividades em um contexto social equilibrado; os abrigos, para que possam se proteger dos rigores do clima; os alimentos, incluindo as forragens, a água e os suplementos. Existem particularidades que definem o grau de necessidade de cada um desses recursos, dependendo das características genéticas e ambientais, como, por exemplo, a necessidade por sombra depende da capacidade de adaptação do animal ao calor.

De maneira geral, podemos dizer que os bovinos são bem modestos nas suas necessidades em qualquer um desses itens e, portanto, elas podem ser atendidas sem muitas dificuldades. Todavia, quando manejamos os bovinos, conduzindo-os geralmente para os currais, produzimos uma desorganização nas atividades sociais, dificultando a manutenção do espaço individual e provocando a quebra do equilíbrio na hierarquia de dominância, sendo difícil minimizar efeitos, dado os equipamentos e as estratégias usadas rotineiramente.

Muitas vezes, lidamos com o gado como verdadeiros predadores, galopamos, gritamos e acuamos. Às vezes até o agredindo fisicamente. Nessas condições, que reação podemos esperar dos animais? Medo!!! Levando-os a fugir ou a atacar.

Currais sem frestas e objetos pontiagudos são preferíveis

O problema vai além, o gado tem boa memória e capacidade de reconhecer pessoas (ou grupo de pessoas) e lugares, tornando-se cada vez mais difícil de ser manejado, devido a ações violentas, que resultam em experiências negativas. Em um dos estudos do ETCO (Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal) foram avaliadas as dificuldades encontradas em se conduzir bovinos por uma instalação já conhecida pelos animais (curral de manejo), utilizando-se diferentes grupos genéticos submetidos ao manejo racional durante quatro dias seguidos (sem estímulos aversivos e fornecimento de pequena quantidade de concentrado após a passagem pelo curral). Os animais, após os quatro dias de manejo, apresentaram uma grande facilidade em transitar pelo local, fazendo com que o tempo de manejo fosse, em média, duas vezes menor; além disso, o vaqueiro utilizou 3 vezes menos estímulos de condução (voz e utilização de uma bandeirola) do que no primeiro dia de trabalho.

Esse tipo de reação se dá através de uma forma de aprendizado, o condicionamento (ou aprendizado associativo), pelo qual os animais estabelecem ligações entre determinadas situações (envolvendo lugares, pessoas, etc.) e sensações. Se as sensações forem negativas, o gado procura evitar as situações associadas a elas, fugindo e lutando. Já nas positivas o manejo pode ser facilitado. Se o gado for levado para o curral, manejado com tranquilidade, sem gritos, chicotadas e correrias e, além disso, fornecermos ração, nós estaremos reforçando o comportamento de ir ao curral, facilitando a realização desse mesmo trabalho em momentos subsequentes. O raciocínio inverso também se aplica, ou seja, maus tratos dificultarão o manejo futuro, inclusive levando a um aumento na distância de fuga dos animais em relação ao homem. Ao considerar esses princípios de aprendizado no manejo de bovinos, poderemos melhorar sua eficiência, além de diminuir os riscos de acidentes.

Assim, uma estratégia interessante para melhorar as “relações” entre os vaqueiros e o gado é aumentar essas interações “positivas” entre eles; ou seja, o peão deve se tornar íntimo dos animais, passando mais tempo com eles, tanto a pé como a cavalo, e fornecendo rações e suplementos. Com isto, o gado se habituará a presença do homem e estabelecerá uma relação positiva com ele.

Sombreamento é uma forma de garantir o bem-estar animal

Com essas medidas, os problemas de gado refugando na entrada do curral ou na seringa provavelmente irão diminuir, mas, se as instalações ou equipamentos não forem adequados, tanto na forma como na dimensão, provavelmente pouco adiantará. Estudos sobre a forma e o dimensionamento de currais de manejo têm sido realizados pela Dra. Temple Grandin, da Universidade do Colorado/ EUA. Tais desenhos levam em conta aspectos do comportamento e da estrutura biológica dos bovinos. Dado o posicionamento dos olhos, os bovinos têm um ângulo de visão muito amplo, mas também têm alguns pontos cegos. O manejo de condução do gado será facilitado se considerarmos esta característica, caso contrário poderemos dificultá-lo.

Um outro exemplo interessante está relacionado com o tipo de cercados que usamos nos currais e nas demais áreas de manejo, com tábuas intercaladas por espaços abertos. Este tipo de desenho permite que o gado se distraia ou se assuste com acontecimentos ou pessoas que estão do lado externo, fazendo com que os animais parem, recuem e tentem saltar, atrasando a conclusão do trabalho. Ao vedar os espaços na seringa, podemos diminuir o tempo de entrada dos animais no tronco, além de ocorrer maior uniformidade nas respostas.

Um outro aspecto importante é a condução dos animais para ambientes que eles desconhecem, como os caminhões. Dependendo do temperamento dos animais e do sistema de manejo que usamos, o gado pode ficar muito relutante em entrar no caminhão (ou em qualquer outro tipo de instalação que é desconhecida para ele); geralmente os animais abaixam a cabeça, cheirando o chão ou piso, e se locomovem muito lentamente, às vezes com relutância (avançando alguns passos e recuando em seguida). Na expectativa de acelerar o processo de embarque (ou de entrada em bretes ou troncos), geralmente estimulamos os animais com cutucões, choques elétricos e, não raro, fortes pancadas. Tal atitude irá estressar ainda mais os animais, que ficarão mais nervosos, aumentando a agressividade e os riscos de acidentes.

Respostas como tentar fugir, agredir outros animais e atacar os vaqueiros podem se tornar comuns sempre que os animais forem submetidos a situações semelhantes de manejo ou quando detectarem a presença daquelas pessoas (ou grupos de pessoas) que os agrediram. Do ponto de vista prático, as consequências do manejo agressivo são dificuldades no trabalho com o gado (retardando-o), lesões nos animais (fraturas, cortes, hematomas), danos nas instalações e riscos de acidentes para os trabalhadores. A intensidade dependerá das circunstâncias.

No manejo pré-abate, as etapas mais críticas são as de embarque e desembarque dos animais. No caso de manejo agressivo nesse momento, os animais ficarão mais estressados, resultando em prejuízos para a carcaça (hematomas) e qualidade da carne (cortes escuros - “darkcutting”), lembrando que tais prejuízos podem ser decorrentes da ação direta do homem, ao bater ou acuar os animais contra cercas e porteiras, ou indireta, com a formação de lotes novos nessa etapa final da produção, desrespeitando os padrões de organização social e aumentando as interações agressivas entre os animais.

Para evitar todos os problemas acima relatados, deve-se adotar as boas práticas de manejo, como rotina, realizando o manejo de forma racional. Este envolve não apenas a execução do trabalho com o gado, mas também o seu planejamento, no qual podemos citar melhores horários para realização de embarque e transporte e número de pessoas necessárias para o manejo. Assim é possível melhorar a eficiência do trabalho, minimizando riscos de situações imprevistas, com reflexo positivo em bem-estar e desempenho dos animais e na qualidade do produto obtido.

Uso de bandeiras substitui os gritos e ferrões no manejo racional

A aplicação do manejo racional envolve três elementos fundamentais: as instalações, as pessoas e os animais.

a) Instalações adequadas - as áreas de manejo precisam ser bem dimensionadas, respeitando as exigências de bem-estar animal e as necessidades de cada fazenda. O desenho da instalação compreende evitar a presença de cantos vivos e ângulos de 90 graus, laterais abertas e fontes de distração. Por outro lado, as instalações em formato circular e com laterais fechadas facilitam o fluxo de animais. Um ponto crítico a ser observado nas áres de manejo é a qualidade do piso do curral. Nos períodos chuvosos é comum a formação de lama. Para evitar que isso ocorra, o curral deve ser construído em local que apresente boa declividade e tenha solo com boa capacidade de drenagem. Formação de lama também pode ocorrer devido à alta densidade de animais e ao uso intensivo da instalação. Neste sentido, é recomendado que se disponibilize áreas no entorno do curral que funcionem como piquetes de espera do gado, com disponibilidade de água e sombra, também conhecidos em algumas regiões do Brasil como “remangas”. Assim, os bovinos entram no curral apenas para serem manejados e os períodos de espera ocorrem fora deste. Essa ação é capaz de preservar as instalações e também favorecer o bem-estar dos animais.

b) Pessoal capacitado - com conhecimento a respeito do comportamento natural dos bovinos e que saiba compreender as necessidades dos animais. O manejo racional deve fazer parte da rotina da fazenda, incluindo os responsáveis pela supervisão das atividades, que irão garantir o treinamento da equipe e a adequação das instalações, realizando medidas corretivas quando necessário. O manejo do gado é realizado de forma mais eficiente e tranquila quando as pessoas conhecem o comportamento dos bovinos, sua organização social gregária, com definição de hierarquia de dominância. O conhecimento sobre o comportamento, somado ao comprometimento e à sensibilização das pessoas com relação ao manejo do gado, caracterizam de forma ampla o que se entende como a capacitação para aplicação do manejo racional.

c) Os animais - sabe-se que o temperamento dos bovinos afeta diretamente a realização de manejos de rotina. Há duas formas de se melhorar o temperamento dos animais: reduzindo a reatividade durante o manejo (aprendizagem) e a seleção por temperamento.

Uma forma de aplicação das boas práticas é a abordagem focada em processos, visando melhorar a qualidade de manejos nas diversas rotinas, como na condução do bezerro recém-nascido, na vacinação, no embarque, na identificação e no transporte de bovinos, como descritos nos manuais produzidos pelo Grupo ETCO e que podem ser encontrados no site www.grupoetco.org.br.

Com esta abordagem, é possível caracterizar, detalhar e desenvolver recomendações para situações específicas. Assim, o manejo racional, juntamente com as boas práticas de bem-estar, caracteriza- se como importante ferramenta para melhorar a qualidade de vida dos animais, com reflexos positivos na produtividade e na qualidade do produto (leite e carne), além de trazerem benefícios para os trabalhadores. Ao promover capacitação, melhora-se também a autoestima e a segurança pessoal.

*Paranhos da Costa integra o Grupo ETCO, Departamento de Zootecnia, FCAV-UNESP - [email protected] **Aline é pós-graduada em Genética e Melhoramento Animal, FCAV-UNESP

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