Raça - Girolando

GIROLANDO
a salvação do leite a pasto

Adilson Rodrigues
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Na década de 80, o Brasil produziu 11,2 bilhões de litros de leite, número que quase triplicou em 2012, deixando o país em quinto lugar no ranking mundial, com 32 bilhões de litros. No mesmo período, o número de produtores caiu cerca de 15% ao ano, de acordo com levantamento da Universidade Federal de Viçosa. Uma das razões para a melhora da eficiência produtiva é a atuação das raças leiteiras adaptadas aos trópicos. A Embrapa Gado de Leite aponta que, atualmente, 95% da produção ocorre em sistema de pasto. Por sua vez, 80% desse total têm origem nas vacas Girolando, transformando o gado sintético na principal raça produtora de leite do país, apesar de não ser uma estatística oficial, como esclarece Marcos Vinicius Barbosa da Silva, pesquisador da entidade e coordenador do teste de progênie da raça. “A composição sanguínea do Girolando é 5/8 Holandês e 3/8 Gir, mas o mercado, de maneira geral, reconhece que qualquer cruzamento entre o taurino e o zebuíno pode ser chamado de Girolando”, esclarece.

Existem grandes “indústrias” de leite a partir do Girolando, como é o caso do Grupo Cabo Verde, que produz 16 mil litros/dia, mas a maioria das propriedades dedicadas à criação da raça são pequenas e pulverizadas, com cerca de 100 hectares e um rebanho entre 100 e 120 animais. Perfil que torna a raça a grande vedete da produção de leite a baixo custo, afinal não existe maneira mais econômica que produzir a pasto. Isso porque o Girolando alia a reconhecida produtividade do Gado Holandês com a excelente rusticidade do Gir. Como o manejo nutricional é pouco exigente, gasta-se apenas com a suplementação mineral convencional e no uso de algum volumoso como cana com ureia ou silagem de milho, durante a estação mais crítica do ano. É um manejo essencial para que a fêmea produza, pois queima na lactação energia equivalente à necessária para uma caminhada de um quilômetro.3

As vacas holandesas alcançam uma produtividade média de 35 litros de leite/ dia, com uma lactação média de 305 dias entre 8 mil e 9 mil quilos, enquanto a girolanda produz em torno de 18 litros e 4.500 quilos, no mesmo período. Entretanto, a principal diferença entre elas está no custo de manutenção. Segundo Marcus Vinicius, o gasto com uma vaca da raça holandesa é muito maior, mesmo com sua produtividade superior, sendo necessário criá-la no sistema free-stall, fornecendo uma dieta diferenciada, e ainda fazer uso de sombreamentos. Tudo por ser uma raça habituada ao clima temperado. “No caso do Girolando, o animal é adaptado aos trópicos. Fica a pasto, sem a obrigatoriedade de maiores investimentos. Produz leite mais barato e, mesmo que o volume seja menor, o lucro é maior”, garante o pesquisador da Embrapa Gado de Leite. E o grande catalisador desta performance única foi o teste de progênie originado em 1997, assim como a criação do programa nacional de melhoramento genético da raça.

“Já vi vacas meio-sangue Girolando produzindo 100 quilos de leite. Não precisamos mais de Holandês para produzir tanto”, acredita Olavo Gonçalves, produtor de 80 anos que há 30 cria Girolando. Gonçalves é mais um criador que arrendou terras para grandes lavouras. Por este motivo, abdicou da principal qualidade do animal - a produção a pasto -, fornecendo somente ração e silagem. A produção ficou cara, consumindo metade do valor que Gonçalves recebe pelo leite. “Já estou planejando retomar um pouco da área para formar pasto. Mas, mesmo com ração, a despesa do Girolando é menor. É um gado mais rústico, com menos incidência de problemas de manejo. Minha região é muito quente para se criar Holandês”, assinala o veterano pecuarista, que recebe R$ 0,70 por litro. Foi o que Denilson L. Souza também constatou no europeu há nove anos, quando decidiu optar pelo Girolando, em Terenos/MS, 40 km da capital Campo Grande.

“Quando decidi produzir leite, fiz uma pesquisa para saber qual gado seria melhor para minha região, chegando ao Girolando. O Holandês não era viável, por não suportar clima quente ou ataque de carrapatos, entre outros problemas”, ressalta. Hoje, Souza possui um plantel de 100 vacas (a maioria novilhas), mas apenas 20 em lactação, cuja média de produção alcança 15 litros. A Fazenda Gir e Girolando Pantanal, pertencente a ele, produz 300 litros de leite/dia, vendidos a uma fábrica de doces por R$ 0,68 o litro. O consumo de sal pelos animais é mínimo, 100 gramas/dia, totalizando três quilos/ mês para cada um deles, um passivo irrisório. Um saco do produto atende de oito a dez animais da propriedade. Quanto ao manejo de pastagem, realiza adubação anual e rotação, na qual os animais ficam todos os dias em piquetes diferentes. Quando a época da seca se aproxima, recorre à suplementação com cana triturada, plantada na fazenda. Se diposto a investir mais no manejo, saltos produtivos surpreendentes poderão ocorrer com a vaca Girolando, mas é preciso colocar o custo/benefício no papel e avaliar se realmente compensa. Souza, por exemplo, possui uma vaca Girolando ¼ que produziu, na primeira lactação, 43 quilos de leite em torneio leiteiro, tornando-se a recordista nacional da categoria.

Essa é uma vaca de exceção, resultado do trabalho que levou a propriedade a trilhar também o caminho da pecuária seletiva. “Essa novilha possui uma produção espetacular, mas seu manejo nutricional é caro. Com uma ração de qualidade valendo R$ 1,20 por quilo, ela me dá mais prejuízo que as vacas de produção a pasto”, brinca o produtor. É por esta razão que o Girolando é a solução para produção de leite a baixo custo, segundo o pecuarista, que destaca, entre as principais qualidades do gado sintético, a rusticidade aliada à boa produção, além da baixa exigência nutricional. Além da recordista, Souza encontrou outras fontes de renda com o Girolando. Vende touros jovens e possui dois reprodutores em coleta nas centrais de inseminação. Outro diferencial muito importante da raça é que os machos descartados podem ser vendidos como boi gordo e possuem boa aceitação no frigorífico. Dados da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando mostram que o produto de corte do Girolando ganha um quilo de peso/dia no confinamento e apresenta distribuição uniforme de gordura, comparável com qualquer cruzamento industrial específico para produção de carne, quando colocados em situações idênticas de criação. Por outro lado, uma significativa parte dos machos provados é comumente mantida na fazenda para reprodução, devido ao valor genético resultante das avaliações realizadas pelo Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando (PMGG).

José Donato informa que o Girolando está presente em todo o País

Grande escala também é uma realidade no Girolando, tendo no Grupo Cabo Verde o melhor exemplo. A empresa processa, diariamente, uma média de 16.500 litros de leite/dia, com os picos de produção variando entre 15 e 20 mil litros/dia, fruto de 1.000 vacas em lactação – exclusivamente Girolando. A propriedade já está há 50 anos na pecuária leiteira. “O Girolando é uma grande conquista da pecuária leiteira a uma vaca mais rústica, que se adapta muito bem a sistemas de produção mais extensivos, e menos exigentes em instalações”, assinala Maurício Silveira Coelho, integrante do grupo, localizado na região de Passos/MG, e vicepresidente da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, recebe R$ R$ 0,95 pelo litro do produto, já embutidos R$ 0,05 referentes à bonificação por qualidade. A produção da empresa chega a Danone e Vigor via associação de produtores. O reconhecimento da raça tem sido massivo, colaborando para sua expansão nacionalmente. “A presença constante da Girolando em fóruns onde se buscam melhores condições para o agronegócio do leite, ao lado do apoio total ao seu programa de melhoramento genético da raça, conta com importantes parcerias, o que tem nos mantido em posições de preferência e destaque no mercado”, endossa José Donato Dias, presidente da Girolando. Os dirigentes informam que as maiores concentrações da raça estão em Minas, Rondônia, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Na produção intensiva e com alimentação melhorada, produtividade compara-se à do Holandês


Nascido do acaso; selecionado para o sucesso

Reza a lenda que o Girolando surgiu quando um touro Gir invadiu uma pastagem vizinha e cobriu algumas vacas holandesas, as quais predominavam no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, nos idos de 1940. Ao nascimento, os produtos impressionaram, demonstrando qualidades atraentes como rusticidade, precocidade e, principalmente, produção de leite. O sucesso do cruzamento foi vertiginoso e os criadores passaram a realizá-lo em massa nas bacias leiteiras. O gado ganhou a admiração de selecionadores, produtores, Ministério da Agricultura e pesquisadores, que começaram a selecionar os animais com melhor desempenho, culminado com o reconhecimento da raça e o surgimento do teste de progênie.

Em 1989, o Ministério da Agricultura, juntamente com as associações representativas, traçaram as normas para a fixação do Girolando, com a composição 5/8 Holandês + 3/8 Gir. Nos dias atuais, encontra-se em todos os estados da federação e desperta, inclusive, interesse internacional. O brasileiro Girolando já está presente no Peru, na Bolívia e na Tailândia. Entre os principais atributos da raça estão a produtividade (15 litros/dia), precocidade sexual (1ª lactação aos 33 meses a pasto), longevidade (a vaca vive 15 anos ou mais) e fertilidade (eficiência maior que o Holandês para esta característica). Para saber mais, visite o site da associação representativa da raça: www.girolando.com.br