Entrevista do Mês

 

PECUARISTA desde o berço

Para um mês tão especial, escolhemos uma entrevistada que retrata muito bem o novo papel da mulher na moderna pecuária brasileira. Falamos da médica-veterinária e titular da GAP Genética, Ângela Linhares, que desde muito cedo enfrentou provações como pecuarista.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Como começou sua história na pecuária?

Ângela Linhares - Já na minha infância, pois morava com meus pais na fazenda. Sempre interessada no manejo da propriedade, inclusive participando ativamente da lida junto aos peões e ao capataz. Sentia-me orgulhosa em relatar o acontecido do dia ao meu pai, quando ele se ausentava. Fui alfabetizada pela minha mãe na estância, o que prolongou minha permanência no campo. Mais tarde, aos 10 anos, fui estudar em Porto Alegre/RS, onde me formei veterinária aos 25 anos, pela UFRGS, em 1984. Neste mesmo ano, casei, e fomos morar em Uruguaiana/RS, junto aos negócios agropecuários da família.

Revista AG - Teve de superar muitas barreiras para seguir em frente?

Ângela Linhares - Para iniciar meu trabalho como veterinária não tive barreiras, pois comecei a prestar serviço no controle sanitário do rebanho, unindo meu Para um mês tão especial, escolhemos uma entrevistada que retrata muito bem o novo papel da mulher na moderna pecuária brasileira. Falamos da médica-veterinária e titular da GAP Genética, Ângela Linhares, que desde muito cedo enfrentou provações como pecuarista. Adilson Rodrigues [email protected] PECUARISTA desde o berço Divulgação Novas tecnologias vieram a contribuir para que o trabalho feminino fosse mais fácil. Um exemplo são os currais e troncos que buscam o bem-estar animal e também diminuem o esforço humano. A pecuária moderna requer planejamento e observação de detalhes. Neste quesito acredito que a mulher seja insuperável. conhecimento acadêmico com a prática adquirida na infância. Em seguida, meu pai ficou responsável por coordenar um novo negócio dentro da empresa, que era o programa de desenvolvimento da raça Brangus, e me convidou para ajudá-lo nos controles e registros, sendo monitorada por excelentes geneticistas argentinos e brasileiros, como o saudoso Luís Alberto Fries.

Revista AG - Qual desafio elege como o maior de sua vida?

Ângela Linhares - O programa Brangus exigia presença constante em praças de todo o Brasil, onde promovíamos este novo cruzamento. Meu grande desafio foi conciliar este trabalho com a educação dos meus filhos, pois inúmeras vezes me ausentei de compromissos por conta das viagens que precisava fazer.

Revista AG - E, com o tempo, como transcorreram a aceitação e a confiança do seu pai nos negócios da família?

Ângela Linhares - Graças ao estilo de administração implementado por meu pai, que prioriza a formação de equipe, dando oportunidade para que pessoas ocupem seu espaço, fui conquistando a confiança e recebendo novas responsabilidades.

Revista AG - Tanto que, hoje, você comanda toda a parte referente à genética e acasalamentos?

Ângela Linhares - De fato, esta é, hoje, minha principal atividade, mas fico feliz por contar com uma excelente equipe de colaboradores comprometidos com a qualidade de informações coletadas no campo. Trabalhamos com seleção objetiva e isto exige inúmeros processos e controles para garantir um produto confiável e melhorador ao mercado. Produzir genética é uma responsabilidade muito grande. Contamos com diversas ferramentas que nos permitem destacar, num grande plantel, aqueles indivíduos que deverão ser multiplicados. Exemplo disso é o PAD (Programa de Acasalamento Dirigido), que visa maximizar a genética de um produto a partir de informações de performance dos seus pais.

Revista AG - Lembra-se de algum caso em que teve de se provar como pecuarista?

Ângela Linhares – Quando fui convidada por colegas a presidir o Conselho Técnico da raça Brangus, em que atuei por vários anos. Isto foi um reconhecimento e um grande aprendizado, já que sempre era a única mulher neste grupo.

Revista AG – Acredita que a mulher desempenha um papel diferente na pecuária moderna?

Ângela Linhares - Novas tecnologias vieram a contribuir para que o trabalho feminino fosse mais fácil na pecuária. Um exemplo são os currais e troncos que buscam o bem-estar animal e também diminuem o esforço humano. A pecuária moderna requer planejamento e observação de detalhes. Neste quesito, acredito que a mulher seja insuperável.

Revista AG - Consequentemente, passou a ser mais respeitada pelos criadores mais conservadores?

Ângela Linhares - Acredito que não haja mais espaços para conservadorismo, pois, hoje, com um mercado tão competitivo e exigente, precisamos usar de todos os recursos disponíveis, inclusive, aproveitando os melhores profissionais, sejam eles homens ou mulheres.

Revista AG - O que você procura agregar à genética selecionada na propriedade?

Ângela Linhares - Nossa genética esta direcionada para a precocidade, mas sem nunca perdermos a qualidade de carne. Sabemos que o aumento da produtividade passa pelo maior giro do rebanho e a antecipação do desfrute nas propriedades.

Revista AG - O grande negócio da GAP é a venda de touros melhoradores ou a produção de carne também tem bastante representação na rentabilidade?

Ângela Linhares - Todos acham que nosso principal negócio é a venda de genética, mas, na verdade, a maior participação nas receitas da GAP vem da venda de novilhos para abate. Para tanto, nos preocupamos em ser eficientes nesta atividade, investindo, principalmente, numa boa gestão de recursos forrageiros e no controle da rastreabilidade.

Revista AG - A GAP possui uma parceria com um grande varejista e um grande frigorífico. Como e quando começaram essas parcerias?

Ângela Linhares - Desde que iniciou o Programa da Carne Angus, fomos parceiros no fornecimento de novilhos deste cruzamento. Apostamos muito neste processo e várias vezes fomos premiados como principal fornecedor. Recebemos bonificações importantes, tanto pela qualidade de carcaça como pela fidelização. A parceria de diversos pecuaristas, como nós, da GAP, propiciou que se formasse uma sólida relação entre a produção, a indústria e o varejo, um belo exemplo de harmonia na cadeia de alimentos.

Revista AG - Quais os padrões exigidos?

Ângela Linhares - O mercado exige produtos pesados, novos, com acabamento de gordura e rastreados. Para atender esta demanda, necessariamente, temos de trabalhar com as raças britânicas (Angus e Hereford) e seus derivados sintéticos.

Revista AG - Entretanto, a remuneração deve compensar. Existe bonificação por qualidade de carcaça?

Ângela Linhares - Na venda de nossos novilhos, recebemos uma bonificação que varia de 3% a 7%, conforme as características de cada lote. Esta receita adicional incentiva o trabalho desenvolvido na direção da qualidade.

Revista AG - Em 2010, a GAP inovou o sistema de comercialização, antecipando a venda de lotes apartados para o leilão anual pela internet, no GAP SHOP. O resultado foi interessante?

Ângela Linhares - O resultado obtido foi muito bom por diversos fatores. Em primeiro lugar, por viabilizar vendas pelo sistema virtual, acompanhando a grande tendência de comercialização. Em segundo, por reduzir custos, repassando naturalmente esta economia ao nosso cliente. E, finalmente, podemos destacar a grande visualização da nossa genética, permanentemente exposta no nosso site.

Revista AG - Ainda neste quesito, o GAP Card foi outra novidade. Seria um programa de fidelidade?

Ângela Linhares - Este programa de fidelidade visa perpetuar nossos clientes, beneficiandoos com descontos progressivos, que variam de acordo com assiduidade de compras. Caso o cliente compre pelo segundo ano consecutivo, ele recebe 5% de desconto, que pode chegar a 10%, se seguir nos prestigiando nos anos seguintes.

Revista AG - Hoje, quais são os objetivos da fazenda?

Ângela Linhares - Poderia citar a missão da nossa empresa como resposta a esta pergunta. Ela foi escrita por diversas mãos, pelos proprietários e colaboradores da empresa, em 1993, e diz: “Desenvolver e comercializar produtos agropecuários com diferencial em tecnologia e qualidade, visando, além da satisfação do nosso cliente, o incremento de produtividade do setor, respeitando sempre o meio ambiente”.

Revista AG - Como é representar uma propriedade centenária?

Ângela Linhares - Considero um grande compromisso e uma enorme responsabilidade manter uma equipe unida, buscando novas tecnologias disponíveis e mantendo uma imagem de credibilidade, procurando melhorar sempre e poder transmitir isso para as futuras gerações.