Mercado

Começo inesperado

Embora apresentando preços semelhantes aos do início de 2012, o mercado no setor pecuário neste início de ano tem surpreendido e se comportado diferentemente do que se espera para a época.

Conforme demonstramos em nossa edição anterior, o mercado do boi gordo em 2012 passou por fases de inconstância, muita especulação e situações atípicas, devido, em grande parte, a fatores como baixa demanda e consumo, aumento dos custos de produção e boa disponibilidade de animais terminados quase que ao longo de todo o ano.

Segundo boa parte dos analistas, 2013 promete seguir a tendência de 2012 em diversos aspectos, porém, já se diferencia pela menor oferta de animais em relação ao mesmo período do ano passado, queda em alguns custos de produção, como fertilizantes em geral, e, ainda, pela regularidade de chuvas que já ocorre em algumas regiões. Estes fatores têm travado o mercado, não permitindo que as indústrias exerçam a mesma pressão de baixa do início do ano anterior e permitindo aos pecuaristas que aguardem preços melhores para negociar animais em terminação, os mantendo no pasto, que, no momento, apresenta capacidade de suporte para tanto.

Até o fechamento desta análise, o mês de janeiro, normalmente marcado pela cobrança de impostos, tributos e contas, ainda não apresentava a costumeira redução no consumo após as festividades de fim de ano e, portanto, os preços do atacado, do varejo e da @ paga ao produtor se mantiveram praticamente estáveis. Mesmo com algumas tentativas de negociação a preços menores, as escalas de abate, no estado de São Paulo, por exemplo, atendem, em média, quatro dias. Isto acalma o mercado e, na comparação com o mesmo período do ano passado e dentre as praças pecuárias consideradas, as do Norte do MT são as que apresentam os valores mais baixos para a @, com frigoríficos atendendo escalas de sete dias úteis, em média.

O preço da arroba do boi gordo no mundo, considerando 21 dias úteis no período analisado, teve queda no Brasil e nos Estados Unidos, aumento na Argentina e se manteve estável na Austrália, conforme mostra a tabela.

Segundo estimativas da Scot Consultoria, o desfrute do rebanho brasileiro em 2012 foi de 21,3%, o que representa uma alta de 1,5% em relação a 2011, e os abates, que em 2011 atingiram 42,2 milhões de cabeças, tiveram alta de 7,8 %. O consumo per capita também aumentou e seu valor estimado, ficou em 42,3kg/ano, superior em 6,7 pontos percentuais a 2011.

Com relação às exportações, os números são, também, favoráveis. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), em dezembro, a receita obtida com a exportação de carne bovina in natura foi de US$ 389,10 milhões e, em volume, este montante somou 83,7 mil toneladas. Felizmente, este saldo mostra que, mesmo com as crises sofridas por alguns importantes mercados compradores do produto (EUA e UE), com a confirmação da presença do príon da Encefalopatia Espongiforme Bovina, popularmente conhecida como “mal da vaca louca”, em um animal morto em 2010 no Paraná, e com o embargo aplicado ao Brasil por parte de alguns países, como a Rússia, as previsões são de otimismo, visto que, com exceção desse e outros países que fecharam as portas para nossa carne até o momento (Japão, China, Coreia do Sul, Peru, África do Sul, Arábia Saudita, Taiwan, Irã, Jordânia e Líbano) e representam aproximadamente 5% do total. Além disso, o MAPA está em negociação para expansão destas exportações para novos e potenciais mercados. Somam-se as previsões de um estudo feito pelo Rabobank, apontando um cenário futuro para a carne global de forte demanda por exportações e alta de preços, o que pode beneficiar o Brasil, principalmente devido aos problemas mundiais de oferta de gado.

A última lista de fazendas aptas a exportar carne para a União Europeia, divulgada em janeiro, conta com 1.824 estabelecimentos, estando eles divididos da seguinte forma: 11 no ES, 242 no MS, 441 no MT, 30 no PR, 171 no RS, 132 em SP, 358 em MG e 439 em GO.

Apesar de todos estes números, o período atual é de safra, o que por si só significa uma tendência natural de aumento iminente de oferta de boiadas em quase todas as regiões analisadas e consequente desvalorização da @, ou seja, apesar do comportamento positivo no início de 2013, pode-se esperar que o mercado não consiga manter este aparente “equilíbrio” por um período muito prolongado.

Como pode ser observado no gráfico de “Evolução do preço da @ do boi gordo”, estes índices, no período atual analisado (de 17/12/2012 a 18/01/2013), sofreram, sim, certo recuo frente à nossa última análise, porém, para o momento atual, isto ainda não significou grande alteração no mercado de forma geral.

O valor do deságio pago aos pecuaristas nas negociações à vista em relação ao valor a prazo (30 dias), no período de 17 de dezembro de 2012 a 18 de janeiro de 2013, foi de 2,12%, valor semelhante ao observado no período anterior, que foi de 2,14%. Para todos os estados considerados nesta análise, houve redução dos valores médios pagos pela @ no período, entretanto, muito pouco significativa.

O preço do bezerro teve média de R$ 647,57, o que significa uma redução de quase 1% em relação ao período de 24/10/12 a 23/11/2012, anteriormente analisado e os estados que apresentaram os maiores valores para esta categoria foram, em ordem decrescente, o Paraná, com média de R$ 713,00; o Mato Grosso do Sul, com R$ 681,00, e São Paulo, com R$ 679,50.

Já o valor do boi magro apresentou valorização em todas as praças analisadas, tendo ficado em média: R$ 1.161,00 em SP, R$ 1.108,00 em MG, R$ 1.097,00 em GO, R$ 1.130,00 no MS, R$ 1.068,50 no MT, R$ 1.180,00 no PR e R$ 1.127,00 no RS.

Os índices médios de relação de troca, que representam a equivalência em valores dos preços pagos por cada categoria animal no setor, ficaram, para relação entre desmama e boi gordo, em 2,33 e, para a relação entre boi magro e boi gordo, em 1,34. Estes índices também não representam mudança significativa em relação ao período anterior analisado, tendo se mantido estáveis.

De forma geral, podemos dizer que o momento é de cautela e observação. Em virtude do comportamento inesperado do mercado, ainda há possibilidade de se esperar por melhores negócios, porém, há também que se aproveitar as oportunidades, pois, a partir de agora, estamos no período de safra e, sendo assim, em breve as coisas podem mudar e desfavorecer alguns setores.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil
Boviplan Consultoria