Caprinovinocultura

 

Métodos racionais de acasalamento

Amaury Apolonio de Oliveira e Hymerson Costa Azevedo*

A ovinocultura vem apresentando plena expansão no Brasil. Em algumas regiões, a exemplo do Centro-Oeste, a atividade vem surgindo como uma nova alternativa de geração de renda para o campo, enquanto que naquelas regiões tradicionalmente criadoras, como no Nordeste, a criação de ovinos vem sofrendo um processo gradativo de aperfeiçoamento.

A melhoria da eficiência dos sistemas de produção, especialmente daqueles de base familiar, muitas vezes pode ser obtida pela adoção de tecnologias simples, mas que geram grande impacto sobre o desempenho dos animais e, consequentemente, dos rebanhos. O emprego de tecnologias ligadas à reprodução animal pode promover a ampliação, assim como a melhoria do potencial produtivo dos rebanhos, na medida em que apenas animais férteis, testados e portadores de valores zootécnicos e genéticos são mantidos e utilizados de forma racional e potencializada.

Dentre as boas práticas de manejo reprodutivo, diversos sistemas de acasalamento podem ser empregados e sua escolha deve reunir vantagens como simplicidade e concentração das atividades, manejo em um curto espaço de tempo, bons resultados produtivos e econômicos e aproveitamento racional e máximo do potencial dos animais, especialmente reprodutores e matrizes.

A estação de monta ou de acasalamento é uma prática que visa concentrar a reprodução dos animais em um determinado tempo ou em períodos preestabelecidos à conveniência do produtor e considerando- se aspectos climáticos, de mercado, sanitários, nutricionais, reprodutivos e de bem-estar animal. Essa prática de manejo de baixo custo não visa somente a obtenção de índices máximos de fertilidade, mas sim o equilíbrio entre a fertilidade e a manutenção de reprodutores, matrizes e, especialmente, das crias, em boas condições nutricionais e sanitárias, garantindo, desta forma, sua sobrevivência. A fixação de um período para reprodução tem como consequência a determinação prévia da estação de parição, desmame e de todos os outros eventos relacionados ao ciclo de produção dos animais. A possibilidade de se ter lotes de animais concomitantemente na mesma fase de produção (ex: cobertura, terço final de gestação, parição, lactação, desmame, abate ou venda) e faixa etária (ex: cria, recria) permite que o produtor racionalize o manejo nutricional, sanitário e reprodutivo, aproveite melhor as condições de mercado e faça uma maior pressão de seleção sobre o rebanho na medida em que compara, com maior facilidade, indivíduos contemporâneos submetidos às mesmas condições.

realizado na forma livre ou controlada. A maior parte da população mundial de ovinos é manejada sob condições de pastejo extensivo em grandes áreas nas quais a cobertura natural livre é amplamente praticada. O reprodutor não é utilizado racionalmente na monta livre, sendo as fêmeas mantidas constantemente com os machos durante todo o ano. Este tipo de manejo tem como consequência a ocorrência de acasalamentos indesejáveis, levando a perdas incalculáveis provocadas pelo elevado nível de consanguinidade dos rebanhos e pelo subdesenvolvimento das fêmeas jovens precocemente acasaladas. Em condições de monta livre, recomenda-se uma quantidade maior de carneiros para servir o rebanho de ovelhas (relação macho:fêmea de 1:25 ou 1:30), a depender de raça, estação do ano dentre outros fatores. A monta livre a campo aumenta as chances de os reprodutores sofrerem algum tipo de acidente, além de desgastá-los fisicamente, já que têm que realizar o trabalho de identificação das fêmeas em estro em todo o rebanho, muitas vezes espalhado em áreas extensas e sob condições climáticas desfavoráveis.

Em média, uma ou duas coberturas ou ejaculados são suficientes por fêmea para se obter uma gestação a cada ciclo estral. Na monta livre, entretanto, um reprodutor pode realizar seguidas coberturas na mesma fêmea, dentro do mesmo ciclo estral, e, ao mesmo tempo, deixar de atender ou atender de forma insuficiente, ou em momentos menos propícios, outras ovelhas que concomitantemente entraram em cio.

Na monta natural controlada, lotes de fêmeas são mantidos ou têm contato com um determinado macho por um tempo predefinido durante a estação de acasalamento. Dessa maneira, é possível identificar e registrar a genealogia dos descendentes, ou seja, o produtor passa a ter conhecimento de quem é o pai daquele cordeiro que está nascendo.

Hymerson adverte que na monta livre um reprodutor pode realizar seguidas coberturas na mesma fêmea, deixando de atender outras

A monta natural controlada pode ser feita de forma ainda mais racional, poupando- se o reprodutor de riscos e desgastes desnecessários. Uma das maneiras de racionalizar a monta controlada é utilizando- se a chamada monta controlada noturna. Durante a estação de acasalamento, as ovelhas pernoitam com determinado reprodutor, por aproximadamente 12 horas. Durante a noite, período inclusive em que ocorre grande parte das manifestações de cio, as ovelhas são cobertas e esta ocorrência pode ser ou não registrada individualmente pelo uso de buçal marcador fixado ao carneiro. Essa técnica é comum em sistemas semiextensivos, sendo recomendada nesses casos, uma proporção carneiro:ovelha entre 1:50 e 1:80.

A monta controlada dirigida é um método ainda mais racional, frequentemente utilizado em criações mais tecnificadas e em sistemas intensivos ou semiextensivos. Consiste basicamente em levar as fêmeas detectadas em cio por meio de rufiões até a presença do reprodutor para que seja realizada a cobertura. Nesse sistema é recomendada uma proporção de um carneiro para cada 100 ovelhas ou até mais. A grande vantagem desse sistema é que, além de se poupar bastante o carneiro, tem-se total controle sobre a data de cobertura e, consequentemente, do parto, o desempenho reprodutivo do reprodutor e da matriz e os riscos que ameaçam a higidez dos animais, como exposição a doenças das fêmeas, traumas provocados por cabeçadas, etc.

Independentemente do nível de racionalização e da técnica utilizada, devese considerar que as ovelhas jovens que nunca pariram contêm características peculiares que as diferenciam das matrizes adultas. As marrãns ou fêmeas jovens apresentam com frequência ciclos estrais irregulares e cios curtos com ovulações silenciosas, ou seja, elas ovulam sem manifestação evidente de cio. Além disso, geralmente elas são menos atrativas aos machos e são cobertas em menor frequência quando comparadas às ovelhas adultas e experientes. Por esses motivos, recomenda-se dar-se pelo menos duas chances a estas fêmeas para que fiquem gestantes antes de serem descartadas. Ou seja, aquelas fêmeas jovens ou nulíparas que não gestarem quando submetidas à primeira estação de acasalamento, devem ter uma nova chance na próxima estação.

Existem diversas tecnologias disponíveis para aumentar a eficiência dos sistemas de produção de ovinos, desde as mais simples até as mais sofisticadas. As empresas e instituições de extensão e pesquisa, como a Embrapa, possuem um grande acervo de resultados e de experiência em diferentes níveis de complexidade que deve ser explorado pelo criador. A eficiência dos diversos métodos naturais de acasalamento é dependente da realidade de cada sistema de produção. Não existe um método melhor do que outro e sim aquele mais adequado a cada situação. Na medida do possível, deve-se adotar a racionalização do uso dos reprodutores e a organização do manejo do rebanho, mas o nível mais adequado deve ser decidido pelo próprio produtor de ovinos.

*Pesquisadores da Embrapa Tabuleiros (Aracaju/SE)