Leite

 

Proteja-os da MASTITE AMBIENTAL

Luciano Menezes Ferreira*

A mastite é a doença mais comum em vacas leiteiras e responsável por causar grandes prejuízos econômicos, devido a perdas de produção, desvalorização do animal, gastos com medicamentos, veterinários e mão de obra, além de descarte do leite, perda de tetos e, até mesmo, a morte do animal. Ela pode ser causada por um grande número distinto de micro-organismos, como fungos, leveduras, vírus e algas, porém, são as bactérias as grandes responsáveis por essa enfermidade.

Em suas principais formas de apresentação a mastite pode ser considerada como clínica ou subclínica.

- Mastite clínica: apresenta fácil identificação, pois geralmente há presença de inchaço do úbere, o animal sente dor ao toque, algumas vezes apresenta aumento de temperatura local e, principalmente, é possível identificar grumos no leite em testes como, por exemplo, da caneca telada ou de fundo preto.

- Mastite subclínica: por não apresentar alterações visíveis a olho nu, é a maior responsável pelos prejuízos ao produtor em virtude da sua difícil identificação, sendo necessário realizar quinzenalmente o teste de CMT (California Mastitis Test), também conhecido como teste da raquete, para auxiliar a identificação. Atualmente, é possível, ainda, enviar uma amostra de leite para um laboratório credenciado ao MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) para a contagem de células somáticas (CCS), que, a partir de 200.000 cel./mL, já pode ser considerada como mastite.

Em relação à origem dos microorganismos causadores da mastite, essa enfermidade é classificada como contagiosa ou ambiental.

- Mastite contagiosa: relacionada aos micro-organismos presentes no úbere das vacas infectadas, com os respectivos quartos mamários infectados, tendo disseminação principalmente durante a ordenha, de animal para animal, pelas mãos dos ordenhadores, pelos panos ou esponjas usadas em mais de uma vaca e, ainda, pelos copos da ordenhadeira mecânica ou outros utensílios, muitas vezes mal higienizados.

- Mastite ambiental: relacionada ao ambiente em que a vaca se encontra. É comumente diagnosticada nos momentos de pré e pós-parto imediato, porém a infecção ocorre com maior frequência no período entre as ordenhas, ou seja, fora da sala de ordenha, mas pode ocorrer também durante o momento em que as vacas são ordenhadas. O animal geralmente apresenta inchaço, vermelhidão e dor na glândula mamária. Devido à dor, o ordenhador pode observar mudança de comportamento da vaca durante a ordenha, principalmente ao movimentar a perna e até mesmo escoiceá-lo no momento da higienização e do preparo dos tetos para a ordenha. Neste período, é fácil a detecção de grumos no leite durante a realização do teste da caneca de fundo preto ou telada antes da ordenha.

De forma geral, independentemente da forma como se apresenta ou se dissemina, para que o produtor rural tenha sucesso na produção de leite é necessária a implantação de um bom programa de controle de mastite. No entanto, o período chuvoso é o momento em que o produtor rural deve ficar mais atento ao controle e à prevenção da mastite ambiental.

Tendo o ambiente em que a vaca vive como o principal reservatório, podemos destacar o acúmulo de matéria orgânica, esterco, urina e barro nos locais de descanso dos animais como o principal ponto crítico que contribui para a disseminação dessa forma de mastite

Visto que são casos clínicos geralmente na forma aguda, o animal doente deve ser imediatamente tratado, levando-se em consideração os sintomas apresentados, como febre, desidratação, choque, dentre outros. Para isso, recomenda-se o uso de antibiótico injetável (sob consulta de um médico-veterinário), geralmente cefalosporinas e quinolonas, e de anti-inflamatório não esteroidal em associação à fluidoterapia. Essa combinação faz-se necessária para eliminar o micro-organismo causador da doença e, também, evitar o risco de morte do animal por choque toxêmico e desidratação.

Para o controle da mastite ambiental, deve haver, no programa de controle, medidas que se preocupem com a diminuição da exposição dos tetos aos agentes causadores da doença, assim como o aumento da resistência da vaca.

Devem ser observadas as condições higiênicas do ambiente onde os animais estejam e também haver preocupação com o bem-estar animal, que pode interferir, inclusive, na predisposição a outras enfermidades, caso interfira nas condições imunológicas do animal.

Em relação à exposição dos tetos aos agentes causadores deve-se ter cuidado com a limpeza das instalações das bezerras, novilhas e vacas secas que estão próximas do parto. A maternidade e as instalações (confinamentos ou piquetes) onde as vacas são alojadas durante o período de lactação são importantes, visto que os casos de mastite ambiental pré e pósparto são comuns. Além de as vacas deverem ser alocadas em instalações limpas, livres de acúmulo de fezes, urina, barro e cama orgânica, deve-se evitar a ordenha dos animais doentes no mesmo local que as vacas sadias. Com isso, a sala de ordenha precisa de higienização constante e, até mesmo, dos equipamentos.

Na rotina de ordenha, recomenda-se a realização de pré-dipping (prédesinfecção) dos tetos com solução clorada e secagem dos tetos com papel toalha descartável, antes de ordenhar os animais, o que diminui o número de quadros clínicos.

Deslocar as vacas para se alimentar uma ou duas horas após a ordenha ajuda na prevenção da doença

Manter as vacas em pé por 1 a 2 horas após a ordenha para que dê tempo de fechar o esfíncter do teto, fornecendo alimentação (cocho ou soltando- as nos piquetes), é outra medida que auxilia na diminuição dos casos de mastite ambiental.

No período chuvoso, um dos grandes problemas que os produtores rurais enfrentam é a manutenção em volta dos cochos, tanto de água como de alimentação das vacas, sempre secos. Para isso, eles devem ter o piso revestido de material impermeável ou, em caso de terra, sempre drenado para evitar o acúmulo de água que favorece a formação de barro.

Outra fase importante é o período de secagem da vaca, na qual ela vai se preparar para uma nova fase de produção. Como há o acúmulo de leite na glândula mamária pela parada brusca de ordenha, esse leite residual pode favorecer a multiplicação de bactérias, tanto contagiosas como ambientais, nesse úbere. Com isso, recomenda- se a utilização de um antibiótico intramamário de liberação lenta, especialmente desenvolvido para esta fase, que deve ser utilizado conforme indicações de um veterinário.

Já em relação ao aumento da resistência da vaca, uma das alternativas que vêm crescendo nos últimos anos é a utilização de vacinas, que tem mostrado, em alguns casos, eficácia de 80%. Além disso, o conforto e o bem-estar do animal também podem interferir na imunidade, evitando-se principalmente os estresses:

Luciano Menezes destaca observação das condições do ambiente onde estejam as vacas e preocupação com o bem-estar delas

- nutricional: dietas desbalanceadas e mudança brusca de alimentação;

- térmico: embora seja difícil controlar a temperatura do ambiente, quando possível utilizar ventiladores, aspersores, sombrites, etc.;

- manejo: evitar gritos e não agredir fisicamente os animais com mangueiras, borrachas, paus ou qualquer outro material.

Levando em consideração que toda condição ambiental favorece o contato e a penetração de micro-organismos no interior da glândula mamária, predispondo a vaca à mastite ambiental, e que esses micro-organismos estão amplamente distribuídos no ambiente, é praticamente impossível pensar em erradicação dessa doença do rebanho. No entanto, o produtor rural deve estar atento às medidas de controle e prevenção, basicamente ligadas à higiene das instalações e dos locais onde as fêmeas leiteiras de todas as categorias estão locadas.

Concluindo, os riscos de mastite ambiental são diminuídos assim que o produtor rural controla as condições que favorecem o contato dos tetos dos animais com o ambiente contaminado, ou seja, a higiene do ambiente é primordial para o controle da mastite ambiental.

*Luciano é docente do Curso de Zootecnia UNIFEB (Barretos/SP) e doutor em Medicina Veterinária Preventiva pela FCAV/Unesp (Jaboticabal/SP) - [email protected]