Do Pasto ao Prato

 

MANIFESTO PECUÁRIA DO FUTURO HOJE

Começando um novo ano, todos fazemos planos e temos as melhores expectativas. Esse também é o meu desejo, para mim e para você, leitor desse texto. Mas, o melhor não se espera, o melhor se faz. O futuro não é construído amanhã. Ele é feito com base no que realizamos hoje. Sua melhor contribuição para o futuro é se entregar totalmente hoje, dar seu máximo, ir atrás do que realmente acredita.

Minha principal conclusão de 2012 é que existe muita gente boa na pecuária do Brasil, fazendo, hoje, a pecuária do futuro. Eu tive essa conclusão com base em muita coisa. Ano passado eu fiz uma série de viagens internacionais: Estados Unidos, Europa e Austrália. Aprendi muito sobre mercado, tendências e, principalmente, organização setorial.

Ao mesmo tempo, o BeefPoint fez uma série de 10 workshops, nos quais reunimos mais de 200 palestras, com o que o Brasil tem de melhor.

Juntando tudo isso, o que vi no exterior e as 200 palestras, percebi que o melhor do mundo está no Brasil.

Quando você visita o melhor confinamento da Austrália, você vê que o melhor confinamento do Brasil é muito similar, ou até melhor. O Brasil tem excelentes exemplos. Tem muita fazenda, muita gente de primeira fazendo um trabalho modelo, que é exemplo e que é invejado por muitos fora do País.

O que o Brasil ainda deixa a desejar é em relação à organização setorial, da pecuária como um todo e dos pecuaristas em específico. Fazemos muita coisa, mas podemos melhorar em planejamento e ações de longo prazo. Por exemplo, um ponto que só será feito pelo setor como um todo é a questão de representatividade e comunicação com a sociedade. Nisso ainda estamos bem atrás dos americanos e australianos. Na parte técnica, na produção dentro das fazendas, não deixamos nada a desejar.

Mas, o que é a pecuária do futuro? Abaixo, um resumo do que aprendi com os principais técnicos e pecuaristas brasileiros.

Tecnologia com inteligência.
Mais do que usar tecnologia, é preciso lidar com eficiência, competência e inteligência. A medida do sucesso não é manusear novas tecnologias. É fazê-lo bem. Quais técnicas você usa? Quais resultados você obtém? A resposta à segunda pergunta é o mais importante. Quem tem sucesso hoje é quem está usando bem o que existe de moderno.

Métricas. Você só pode melhorar o que mede. As melhores fazendas e os melhores pecuaristas estão ficando cada vez mais profissionais em medir o resultado. Mais do que isso, estão medindo, comparando com vizinhos e estudando o que fazem de diferente. O problema que você não consegue resolver hoje pode ser a dificuldade que alguém já resolveu ontem e sabe a resposta. Sistemas de benchmarking, como o “Compare Sua Fazenda”, que estamos lançando junto com a Exagro, vão ajudar a andar mais rápido rumo à eficiência e ao resultado.

Gestão de pessoas. Em média, numa fazenda de produção a pasto, um em cada quatro reais do desembolso vai para mão de obra. Ou seja, cerca de 25% do custo direto é com equipe. Os melhores pecuaristas estão dedicando mais tempo à equipe, até porque isso representa 1/4 da despesa. Se custa muito, é preciso usar bem e pensar em como melhorar. Os melhores estão pensando em como atrair, selecionar, manter e treinar excelentes pessoas. É impossível ter excelentes resultados sem uma excelente equipe.

Sustentabilidade. Uma palavra que quase virou palavrão. Mas, podemos aprender muita coisa. Sustentabilidade na minha visão é pensar de forma ampla (holística) e pensar no longo prazo. Uma fazenda que está na atividade pecuária há mais de 50 anos tem de ser sustentável. Não me lembro de ter visto uma fazenda que fosse motivo de orgulho para o Brasil, que fosse um exemplo em produtividade e eficiência, que não estivesse preocupada em se adequar à legislação e a fazer a coisa certa. A relação pode não ser causal, mas com certeza é muito forte.

Integração lavoura-pecuária. Numa fazenda de gado a pasto, o principal ingrediente da dieta do gado é a pastagem. Logo, para ser eficiente é preciso produzir muito pasto, com um custo competitivo. É exatamente isso que a integração ajuda a fazer: produzir mais pasto, e com alta eficiência. Vi resultados de fazendas de pecuaristas que começaram a fazer ILP e aumentaram muito o resultado operacional. A produção de capim (e de gado) aumentou muito mais do que o custo total. Essa é uma tendência que devemos ficar de olho e que vai crescer muito mais em 2013. Além disso, com ILP fica muito mais fácil ser sustentável pensando no tripé: economia, social e ambiental.

Qualidade, garantia e segurança. Carne bovina é um alimento nobre, mais caro do que a maioria das proteínas, como frango e suíno. Logo, a forma de ganhar mercado não é tentar ser mais barato (vai ser difícil ficar mais barato que um frango criado em 40 dias). A saída é ficar melhor. É garantir qualidade, sabor, experiência. Temos um grande desafio que é resolver o problema da carne com gosto de fígado. E temos uma enorme oportunidade, que é crescer e desenvolver o mercado de carnes especiais, com marca, de produtos premium. O brasileiro está sedento para comer um churrasco especial, mas ainda não estamos oferecendo a contento. Essa é outra tendência que vi muito forte em 2012 e que vai continuar decolando em 2013. Avalie se essa é sua vocação e vá em frente.

Excelente comercialização. Outro ponto essencial para ganhar na pecuária é uma eficiente comercialização do gado para abate. Conheci muita gente, por todo o Brasil, que são muito bons em vender gado, mesmo para grandes frigoríficos. Invariavelmente, são muito bons em três pontos: têm gado de qualidade, são bons negociadores (e gostam disso) e desenvolveram um excelente relacionamento com o comprador. Pode parecer impossível, mas já conheci os exemplos mais diversos e essas três questões sempre estão juntos. Ainda na questão de comercialização, está cada vez mais claro que é preciso dominar o mercado futuro e de opções. É preciso entender, acompanhar e operar. Em confinamento, hoje, esse é o fator mais importante para o resultado financeiro.

A pecuária do futuro está no Brasil. E há muita gente fazendo, hoje, a pecuária do futuro. Nosso trabalho é o de encontrar, reunir, conversar e aprender com essas pessoas. Esse é meu trabalho no Beef- Point e na coluna da Revista AG, e posso afirmar, eu estou vendo o futuro e estou gostando do que temos para o Brasil.

Feliz 2013, e vamos em frente, pois o mais importante é fazer!

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)