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GRAMAS QUE VALEM ARROBAS

Rogério Marchiori Coan*

Historicamente, a função produção, que é entendida como o conjunto de atividades ou ações que levam à transformação de um bem em outro com maior utilidade, acompanha o homem desde seus primórdios. Quando polia uma pedra a fim de transformá-la em um utensílio mais eficaz, o homem pré-histórico executava uma atividade de produção.

Nos milhares de anos que se seguiram, o homem evoluiu e suas atividades e necessidades tornaram-se cada vez mais vastas e complexas, o que justificou o desenvolvimento de ferramentas e métodos de produzir cada vez mais sofisticados, que possibilitassem ao homem produzir mais em menor tempo ou, em outras palavras, produzir com eficiência.

Segundo Rogério Coan, o pecuarista, mais do que nunca, precisa de alternativas que possam incrementar a produtividade

Na evolução da pecuária de corte brasileira observamos que produtividade e eficiência passaram a ser requisitos básicos de sobrevivência. O aumento substancial dos custos de produção, em detrimento da menor remuneração da arroba nas últimas décadas, impôs ao pecuarista menor lucro líquido por hectare e, consequentemente, menor competitividade da atividade pecuária, seja ela de cria, recria, engorda ou ciclo completo (Tabela 1).

Ao analisar os números acima, pode-se observar a necessidade de aumentarmos a produtividade na pecuária de corte (@/ha/ano) em praticamente seis vezes, de forma que o pecuarista possa obter, nos dias de hoje, os mesmos resultados operacionais (lucro líquido – R$/ha) que os observados nas décadas de ouro da pecuária brasileira (anos 70-80), época essa “forjada” pela abertura de áreas de mata, com pastos fartos, e pela baixa aplicação de tecnologias de produção.

A verdade é que os tempos evoluíram, as tecnologias e a pecuária também. E, na atual conjuntura, marcada pela grande competividade com a agricultura, o pecuarista, mais do que nunca, busca alternativas que possam incrementar os níveis de produtividade e de lucratividade da atividade pecuária, afinal, produzir mais e com eficiência não é mais uma questão de necessidade e sim de sobrevivência.

Tecnicamente, sabemos que muitas tecnologias de produção estão disponíveis para o pecuarista, mas nem todas são “democráticas”, a ponto de se tornarem acessíveis a todos, independentemente do tamanho ou sistema de produção. Além disso, cabe ressaltar que muitas tecnologias demandam mudanças ou ajustes na propriedade, o que acaba muitas vezes limitando a aplicação ou utilização.

Dessa forma, fica evidente que a busca do pecuarista passa a ser, então, por uma tecnologia que promova ganhos marginais de produtividade, sem mudanças nas rotinas e nos custos operacionais (manuseio e distribuição) do sistema de produção como um todo. A questão que surge é: qual seria essa tecnologia então?

A resposta é simples. É uma tecnologia que pode e deve ser utilizada por todo o rebanho, independentemente da categoria animal. Dito isso, fica fácil entender que essa tecnologia deverá ser incorporada às estratégias de suplementação da propriedade, de acordo com a época do ano e o objetivo de resposta nutricional da categoria a ser suplementada. Estamos falando dos aditivos promotores de eficiência alimentar, em especial da Virginiamicina (VM). Este aditivo, quando incorporado no suplemento, tem permitido respostas de ganho de peso que variam de 65 a 130 g, quando comparado com a suplementação convencional e dependendo do nível de desempenho já observado (Figura 1), sem a adição do mesmo.

Para exemplificar o impacto dessa tecnologia, vamos considerar uma propriedade de recria de bezerros (12 meses) com 215 kg de peso corporal no início das águas, que consumindo um suplemento mineral com 70 g de P/kg (200 dias) apresentam um ganho de 600 g/dia. Nas secas, com um suplemento proteico de baixo consumo (50% de PB), o desempenho desses animais se posiciona em 200 g/dia. Se considerarmos uma taxa de lotação nas águas de 3 cabeças/ha, nas secas de 1,40 cabeças/ha e um rendimento de carcaça de 50%, veremos, então, que a produtividade nessa propriedade é de 13,54 @/ha/ano.

Já com a adição de VM ao suplemento e, tendo como base de resposta os dados experimentais demonstrados na Figura 1, podemos observar que os animais no período das águas e secas terão um acréscimo de ganho de peso de 105 g/dia e de 81 g/dia, respectivamente. Nesse sentido, com a incorporação dos ganhos marginais de desempenho, promovidos pela VM, e considerando as mesmas variáveis (taxa de lotação e período), a produtividade passa a ser de 16,16 @/ha/ano, ou seja, 2,[email protected] a mais por hectare, no mesmo período. Quanto ao acréscimo de ganho/animal/período, este foi de 34,36 kg ou 1,[email protected]

Bom, você deve estar se perguntando: quanto custa essa tecnologia Figura 2. Lucro líquido/cab./período com a utilização de Virginiamicina a pasto. e qual o lucro líquido esperado? Para responder essa questão, vamos à outra simulação. Se considerarmos que o custo para máximo desempenho da VM é de R$ 0,05/cabeça/dia e o período de suplementação de 365 dias, veremos que o acréscimo de custo da tecnologia será de R$ 18,25/cabeça/ ano. Diante de diferentes preços de remuneração da arroba no mercado e sabendo que o ganho de peso em @/ cabeça/período foi de 1,14, veremos que o lucro líquido (R$/cab./período) variou de R$ 77,97 (arroba cotada a R$ 84,00) a R$ 96,30 (arroba cotada a R$ 100,00). Logicamente, quanto maior a remuneração da arroba, maior o lucro líquido por animal (Figura 2).

Quanto ao ganho de peso de equilíbrio (g/cab./dia) é necessário custo de introdução da Virginiamicina. A Figura 3 demonstra que esta variável foi de 17,86 g/cab./dia para uma remuneração da arroba de R$ 84,00 e de 15 g/cab./dia para uma remuneração da arroba de R$ 100,00. Ou seja, para que a tecnologia se pague, o ganho adicional de peso é muito baixo visto os incrementos de desempenho observados.

Por fim, se aquela “busca” por uma tecnologia de produção fizer parte dos seus ideais para a pecuária, acredito que melhor alternativa que esta dificilmente haverá, afinal de contas, investir gramas e ter como resultado arrobas não é qualquer tecnologia que promete e faz.

Rogério Coan é consultor técnico www.coanconsultoria.com.br

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