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De volta AO PASTO

Terminação de novilhos precoces com capim volta à tona

Fátima Costa

Uma antiga canção interpretada por Sérgio Reis dizia: “Panela velha é que faz comida boa”. Mas, a qualidade enaltecida na música não cabe à pecuária nos dias atuais. Carne boa é a de boi jovem. Com a evolução tecnológica que aos poucos abraça a atividade, a idade média de abate no Brasil vem caindo substancialmente. Se no passado o boi tornava-se carne apenas aos cinco anos de idade, hoje muitas propriedades já o enviam para os frigoríficos aos 24 meses. A dúvida que ainda persiste é quanto ao acabamento de carcaça dos novilhos precoces criados exclusivamente a pasto. Por este motivo, nos últimos anos, tem crescido a prática do semiconfinamento, que ajuda a garantir a cobertura de gordura necessária. Entretanto, a alta valorização dos principais grãos começa a inviabilizar a terminação dos jovens animais no cocho, obrigando os pecuaristas a retomarem a produção 100% a pasto, de forma mais profissional.

“No ano passado, o farelo de soja e o milho, principais ingredientes do confinamento, bateram cotações exorbitantes, encarecendo a terminação. O custo da engorda no confinamento chegou a R$ 100/@. Sabemos que é um sistema estratégico para a produção, principalmente, no período da seca, todavia, com este alto custo muitos produtores optaram pelo pasto”, explica o veterinário Leonardo Souza, sócio-diretor da Qualitas Agronegócios, que ajudou a Agropecuária Pontieri (Vicentinópolis/GO) a trocar a terminação em confinamento para a terminação a pasto. Esta é uma prática que também vem crescendo vertiginosamente no Sul do País. O doutorando em produção animal na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e consultor em diversas cabanhas gaúchas Pedro Rocha Marques destaca que isso ocorre porque a terminação de animais a pasto tem sido a forma mais barata de engordar boi.

Ele avalia que o custo de produção da pecuária chega a 80% só na aquisição de animais. O restante é a pastagem, dependendo de cada situação. “Para baratear esse custo, muitos estão produzindo os próprios bezerros”, diz Marques. Ele afirma que cada vez mais os pecuaristas trabalham com meta de ganho de peso no pasto, por isso avalia que a pecuária não é mais para amadores, principalmente, porque as áreas de pasto no Sul estão sendo “tomadas” pela soja. “Por incrível que pareça, está acontecendo. E os pecuaristas que permanecerem no mercado terão de produzir em menor tempo e acelerar o processo de engorda. É necessário resolver os problemas da criação, hoje resumidos à capacitação de mão de obra, ajuste de carga animal, características do gado, manejo sanitário e implementação de pastagem no inverno”, diz.

Não só no Sul, como em qualquer outro lugar, produzir a pasto é mais vantajoso que confinar, “desde que se melhore a eficiência na colheita do pasto pelo animal e aumente-se a produtividade do capim”, como lembra o especialista. Em uma conta rápida, o pecuarista André Bartocci, que faz recria e engorda na Fazenda Nossa Senhora das Graças, em Caarapó/MS, tem na ponta do lápis que seu custo para produzir novilho precoce a pasto não ultrapassa os R$ 30 por cabeça/mês, bem abaixo dos R$ 100/@ do confinamento. Só depende do manejo desenvolvido, especialmente no que se refere ao pasto. “Este é um divisor de águas na pecuária atual. O moderno pecuarista deve conhecer tão bem a planta e o solo como já conhece o animal. É necessário investir em análises de solo, calagem, adubos do complexo NPK [Nitrogênio- Fósforo-Potássio] e atentar aos milímetros de chuva esperados no ano”, ressalta Bartocci.

Além disso, existem os investimentos em infraestrutura – como melhores máquinas, currais de manejo racional, balanças... – e mão de obra qualificada, algo que não se encontra na prateleira da loja, devendo ser forjado pelo próprio fazendeiro. “O primeiro gargalo da produção de novilho precoce são as pastagens improdutivas ou degradadas e, em segundo, aquelas mal colhidas. A grande solução para esses problemas é a integração lavoura-pecuária”, defende o produtor. Quanto ao manejo, uma das prioridades da Fazenda Nossa Senhora das Graças é o controle de ganho de peso a pasto, medido a cada 60 dias e convertido para o ganho médio diário. “É muito importante realizar pesagens, pois sem isso a lotação de pastagens mede apenas estoque. O controle mais importante é a quantidade de quilos de carne que está sendo produzida por hectare”, acredita Bartocci. E, neste quesito, ele produz 400kg/ha/ano, atingindo uma taxa de desfrute de 60% e um ganho médio diário de 650g/cabeça/ dia. A meta é chegar aos 1.000kg/ha/ano, com desfrute de 70%.

A conta é simples, como afirma o pecuarista Nedson Rodrigues Pereira, presidente da Associação Sul-Mato- Grossense dos Produtores de Novilho Precoce (ASPNP). “Ao abater um animal precoce, reduzo o período da produção, faço o giro mais rápido do produto e aumento a rentabilidade”, explica ele, que adotou como fonte de receita a produção dos novilhos precoce e superprecoce. No precoce, produz apenas a pasto e vem conseguindo abater bovinos aos 24 meses, com [email protected] de peso. Nedson é o reflexo do profissionalismo que conota a pecuária do futuro. Adotando este conceito de criação, ao lado do irmão, José Rodrigues Pereira, toca um rebanho com 6 mil cabeças no sistema de cria, recria e engorda, com abate de 2.200 cabeças por ano. Na propriedade, situada no município de Bandeirantes, a 100 quilômetros da capital Campo Grande/ MS, são 7,5 mil hectares de criação, sendo apenas dois dedicados ao confinamento, utilizado especialmente para a produção do superprecoce.

Nedson aposta na produção dos novilhos precoce e superprecoce

[email protected] AOS 20 MESES A PASTO

O veterinário Leonardo Souza, ao lado do zootecnista Émerson Moraes, criou o Sistema Nelore Qualitas de Produção, testado na Agropecuária Pontieri, que trocou o confinamento pelo pasto na terminação. “A nossa meta não é alcançar as [email protected], mas sim, abater os animais com 20 meses a pasto. Pois é isso que permite à propriedade alcançar um desfrute de 35,7% no rebanho. É o que faz com que a fazenda passe pelo período de seca somente com matrizes prenhes e animais desmamados, ajudando a adequar a lotação à capacidade de suporte dos pastos”, explica. No caso da Agropecuária Pontieri, a lotação é de 2,53 UA/ ha, em uma área de pasto de 1.000 ha. O custo de produção por cabeça/mês ficou em R$ 27,13. Mas, um entendimento é claro para os especialistas, só consegue este resultado quem melhorar o rebanho geneticamente. Segundo Souza, identificar os animais que tenham potencial para o maior ganho de peso, mas que necessitem de menos alimentos para tanto, também é fundamental e já é uma realidade há três anos em Goiás, quando os sócios do programa implementaram, em parceria com a Universidade Federal do Estado, um Centro de Avaliação de Eficiência Alimentar no campus da universidade.

Leonardo Souza calcula o custo de confinamento em R$ 100 por arroba

“O sistema é uma opção para modificar drasticamente a produtividade, a eficiência e o resultado financeiro da pecuária”, aposta. O programa propõe trazer um modelo de criação totalmente a pasto, sem a necessidade do confinamento. “Pensamos em produzir a pasto, um novilho precoce, com até dois anos de idade. Criamos o desafio de terminálo com 20 meses e [email protected], sem o conceito de suplementação exagerada. A intenção é explorar ao máximo a pastagem”, diz. Ele observa que quando a suplementação intensiva é oferecida muito cedo, isso prejudica a produção de carcaça. “Até sendo suplementado na seca, os animais apresentam 52% de rendimento de carcaça. No sistema implementado pelos consultores, os animais alcançaram 54,7%”, explica sobre o projeto realizado no final de 2011 na Agropecuária Pontieri. “O rendimento é importante para que se possa ter um animal diferenciado no abate. É o preferido dos frigoríficos”, comenta.

A mesma ideia é compartilhada pelo pecuarista André Bartocci, porque, para ele, falar em novilho precoce é falar de eficiência, principalmente em virtude do espaço que a pecuária vem cedendo para a agricultura. “O Brasil vai aumentar muito seu desfrute quando encurtar o ciclo de produção. Isso só irá acontecer se os nossos animais forem mais precoces. O fato consiste em ser mais eficiente na produção e, com isso, diminuir ou eliminar a necessidade do sistema de confinamento. A maior parte dos animais que necessitam de confinamento no Brasil teve um recria ineficiente”, conclui.

QUANTO VALE UM PRECOCE?

Não é tarefa das mais fáceis dar o acabamento de carcaça necessário a um novilho precoce e geralmente até a faixa de até três anos de idade. Mesmo assim, o ideal é abater o animal ainda mais jovem, tanto para aumentar o desfrute como para pagar menos impostos sobre o animal. Para o veterinário Pedro Rocha Marques, para receberem as bonificações que verificadas no Sul, os produtores têm de enquadrar os animais nos padrões de certificação. “As exigências são para que os bovinos tenham quatro dentes definitivos e, no mínimo, três milímetros de gordura subcutânea. Como recompensa, o adicional ao produtor varia de 3% a 10% sobre o valor do quilo da carcaça em um dos programas de qualidade existentes”, informa. No Centro-Oeste, o “Programa Novilho Precoce” também premia novilhos precoces e superprecoces e já está há 16 anos consolidado. O programa é amparado pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário e de Produção do Mato Grosso do Sul (Seprotur), que oferece redução de até 67% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços em (ICMS) para cada cabeça abatida.

Caso o pecuarista seja filiado à ASPN, poderá ter 33% de redução de ICMS na entrega de novilhos com até quatro dentes permanentes ou 50% para aqueles com até dois dentes permanentes. “Ganham o produtor e o frigorífico. Além de melhorar a qualidade do rebanho no Estado, o consumidor também sai no lucro, ao comprar uma carne macia, saudável e saborosa”, destaca o presidente Nedson Rodrigues. “Outro programa de incentivo é o Nelore Natural, que premia em até 4% sobre a arroba o gado de dois anos”, complementa Bartocci. Graças ao trabalho de Nedson à frente da ASPNP, hoje os criadores sul-mato-grossenses recebem pelas fêmeas o mesmo valor pago por machos, mais um bônus de 3%. Além disso, a associação foi a responsável pela primeira e até agora mais importante parceria do Estado. Desde 2000, a entidade participa do programa “Garantia de Origem” do Carrefour, fato que atesta a qualidade da carne do novilho precoce, produzida sob os mais rigorosos conceitos de qualidade, saúde animal, responsabilidade social e ambiental.

Pedro Rocha Marques presencia a intensificação da produção de novilho precoce a pasto no RS

Assim como Nedson, existem centenas de produtores que se tornaram adeptos do novilho precoce. São 230 criadores associados à ASPNP. Em 2012 a entidade abateu 125 mil animais, número recorde em comparação ao ano anterior, que chegou a 70 mil. Os novilhos precoces da Fazenda Cachoeirão, pertencente a ele, recebem uma alimentação baseada apenas em pasto e sal mineral, além de proteinado na seca. O pasto, segundo o pecuarista, é de boa qualidade (tanzânia, mombaça e braquiarão), oferecido em sistema rotacionado, com quatro piquetes e uma praça de alimentação com cocho de sal e bebedouro, nos quais os animais ficam oito dias em cada em um. Já os superprecoces recebem um tratamento diferenciado no confinamento. Com o método de produção do novilho precoce, os pecuaristas obtêm até dois animais a mais que na convencional, na qual os bovinos demoram, em média, quatro anos para atingir a qualidade desejada pelo mercado.

André Bartocci teve de investir para melhorar o manejo da fazenda