Entrevista do Mês

 

Revolução a caminho

Está em tramitação na Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) uma proposta inédita que deverá permitir o ingresso da genética de touros avaliados na base Puro de Origem das raças zebuínas. Para tratar deste e outros importantes temas, convidamos Luiz Antônio Josahkian, superintendente técnico da entidade.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Atualmente, como estão as discussões sobre a funcionalidade dos zebuínos?

Luiz Antônio Josahkian – O melhoramento genético é motivo da existência da ABCZ. Você o alcança usando diferentes instrumentos, como avaliação de peso, carcaça e leite - no caso das vacas leiteiras. Tem também as avaliações visuais. Isso às vezes gera uma distância técnica entre a pista de julgamento e a seleção por avaliação genética. A atual prioridade é esclarecer aos criadores que essas técnicas se completam e reduzir essa distância. Até porque não existe avaliação genética para todas as características importantes.

Revista AG - Falando no assunto, a ABCZ enviou ao MAPA, recentemente, uma proposta para inserir os reprodutores mais bem avaliados do rebanho comercial (CEIP) na base PO. A proposta partiu do próprio Conselho Deliberativo Técnico da ABCZ?

Josahkian – Na verdade, essa proposta foi reapresentada ao conselho pela terceira vez. Na primeira, partiu de um conselheiro, assim como na segunda, de outro, mas em formatos muito diferentes. Ambas reprovadas. Entretanto, nesta segunda vez recomendou-se que a ideia fosse melhorada. Criou-se, então, uma comissão para fazê-lo, sendo a proposta aprovada pelo conselho e encaminhada à homologação. O Ministério da Agricultura fez ponderações muito procedentes e, por isso, estamos readequando para reapresentação.

Revista AG - Em que consiste a iniciativa? Como já acontece em outras raças, touros comerciais reconhecidamente melhoradores seriam utilizados para transformar a genética POI em PO por cruzamento absorvente?

Josahkian – No formato que a proposta está hoje, ela permite a entrada de touros portadores de CEIP (Certificado Especial de Identificação e Produção), com TOP 10% e 0,75 (75%) de acurácia, no registro LA (livro aberto), o que não é permitido atualmente. Assim, esses touros poderiam ser usados nas diferentes classes de vacas, PO (Puro de Origem), LA de primeira (LA1) e segunda gerações (LA2). Nisso tem todo um processo de evolução.

Revista AG - Mas, esta, então, seria uma grande revolução na zebuinocultura nacional, não?

Luiz Josahkian – O Zebu, em 1971, fechou o livro. A rigor, tudo que fora registrado até aquele momento ficou reconhecido como PO. Para não se fechar totalmente, os técnicos da época criaram o que hoje se chama livro aberto. Ele funciona como um filtro. Quem está fora do grupo PO poderá entrar, desde que atenda normas. E, pelas regras que ainda vigoram, você pode registrar vacas de cara limpa, mas nela é obrigatório usar um touro PO, caso queira ascender para o grupo PO. E assim acontece nos últimos 40 anos. Isso é muito respeitado; sendo assim a mudança proposta mexe com conceitos bastante complexos. Sob esse ponto de vista, é uma revolução. Porque, na verdade, está se permitindo que a genética comercial migre para a base PO de forma direta, via touro.

Revista AG - Imagino que nem todos os selecionadores concordaram com a ideia? Deve passar por votação dos associados?

Josahkian – O Conselho Técnico é formado por 64 membros nomeados que representam oito raças. São oito membros para cada uma delas. Existem os membros natos e atuais, além dos superintendentes técnicos. O grupo todo é composto por 700 pessoas. O voto desse grupo foi praticamente unânime para que a proposta fosse aprovada. Mas, nem todos estavam plenamente de acordo. É impraticável a votação passar por todos os associados, já que temos mais de 20 mil.

Revista AG - Bom, apenas o ato de discutir tais mudanças mostra que a ABCZ reflete o momento da pecuária atual. Podemos considerar um marco na gestão da entidade?

Luiz Josahkian – Eu sou suspeito para falar disso, mas essas discussões mostram que sim. Eu falo com certa tranquilidade, porque eu acompanho esse processo há muitos anos. É diferente e quase compulsório que hoje a gestão da ABCZ se alinhe com o que o mercado sinaliza. Não existe gestão pessoal. Mostra evolução.

Revista AG - A ABCZ tem promovido diversas atualizações técnicas para frame (tamanho) e precocidade. Seria um atendimento às demandas do mercado?

Josahkian – Seguramente, apesar de que há várias formas de avaliar esse processo. O que se tem de bem claro na literatura é que existem demandas específicas para genéticas diferentes. É preciso ter animais de diferentes frames e graus de precocidade para atender nichos distintos. Há criadores que têm gado muito pequeno e precisam de um animal maior, e vice-versa. Mas, trabalhar esse tipo de seleção é muito complexo, porque demanda uma organização perfeita das diferentes populações. O direcionamento do biótipo que está sendo recomentado pela ABCZ é o frame moderado, nem pequeno nem grande, e nem os extremos de precocidade.

Revista AG - Esses e outros assuntos também estão sendo amplamente discutidos na Expogenética. Podemos dizer que esta é uma feira que nasceu consolidada?

Josahkian – Eu não diria que ela nasceu consolidada. Ela surgiu sozinha, como uma aposta, já que possui perfil muito diferente de outra feira já consolidada, que é a Expozebu. Hoje, eu posso dizer que é uma feira consolidada.

Revista AG - Nota-se um envolvimento especial seu na Expogenética. Seria por que é algo que você realmente acredita e aposta?

Josahkian – Um “embriãozinho” da Expogenética nasceu em um domingo à tarde na Chácara Naviraí. Estávamos o falecido senhor Cláudio Sabino; o presidente da ABCZ na época, José Olavo Borges Mendes, e eu. Isso em 2007. Nasceu de uma necessidade. O Nelson Pineda, também falecido, teve uma grande contribuição, mas, infelizmente, não chegou a ver a Expogenética plenamente. E, nesse grupo, minha contribuição foi mais na formatação, que eu realmente acredito e aposto.

Revista AG - Em 2012, presenciamos, inclusive, alguns debates sobre avaliação de carcaça em zebuínos. Esta também será uma constante para os próximos anos?

Josahkian – A gente da ABCZ tem uma preocupação muito grande ao disponibilizar uma tecnologia. Nos preocupamos com o padrão e com a continuidade. Assim, a ABCZ apoiou um grupo de técnicos de avaliação de carcaça por ultrassonografia e promoveu junto com eles cursos de credenciamento, para que todos falem a mesma língua e para que os dados fossem comparados. A gente investiu muito nisso. Outro processo que estamos começando a trabalhar é eficiência alimentar. Já promovemos uma grande reunião com um grupo brilhante de 30 pessoas, de 20 instituições diferentes. Deste encontro está saindo um documento fantástico de como vamos trabalhar a questão do Consumo Alimentar Residual, que é a ideia de quanto se espera que o animal vá ingerir de alimento e o quanto ele realmente ingere. E se essa diferença for negativa, ou seja, se ele come menos do que se espera, o ganho é absurdo.

Revista AG - Outro assunto que vem sendo repercutido muito é a normativa para que as receptoras utilizadas pelos associados sejam de sangue zebuíno. Por que ela não contempla todas as raças zebuínas?

Josahkian – O conselho é formado por oito comissões das raças, e, nessa proposta, especificamente, o conselho primeiro votou a facultatividade. Cada raça determinaria se iria ou não adotar essa normativa, e algumas por questões óbvias se recusaram. O Gir, por exemplo, por conta do Girolando, e o Guzerá, em virtude do Guzolando. O Tabapuã em momento algum aceitou a ideia por suas próprias razões. Foi só por isso.

Revista AG - Estatisticamente, quantas TEs e FIVs são comunicadas à ABCZ por dia ou mês?

Josahkian – Com base nos dados de 2011, foram 276 mil processos de FIV. Não estou com os dados de 2012, mas a mudança foi muito pequena, e esse número não tem mudado muito. De 2011 para 2012, teve uma queda de 1%, o que acho desprezível.

Revista AG - Por estes números, a normativa seria uma forma de garantir uma reserva de mercado às raças zebuínas?

Josahkian – Eu nunca encarei a questão dessa forma, mas não há como negar que vai favorecer as raças zebuínas. Mas, veja bem, não há interesse nenhum da ABCZ como entidade. Ela está apenas defendendo o direito do sócio dela. Não é questão de reserva de mercado, e sim de direito. Os criadores de zebu estão investindo em biotecnologia, pagam caro por isso e deveriam usar isso para melhorar seu próprio sistema produtivo. É a visão que a ABCZ teve. Concedemos um desconto de 75% no registro de LA ou de receptoras zebuínas. Não há interesses da ABCZ em ganhar dinheiro com a normativa.

Revista AG - O Serviço de Registro Genealógico da ABCZ foi pioneiro em adotar os exames de DNA para comprovação de paternidade. Hoje, o sistema já proporciona a confiabilidade, a velocidade e a otimização esperadas nos registros?

Josahkian – Em termos de velocidade, melhorou muito, mas ainda não é o que se espera. A gente ainda tem poucos laboratórios credenciados pelo ministério operando. Em termos de confiabilidade sim! Os laboratórios passam por sistema de verificação internacional. A ABCZ criou um processo que a gente chama de Interlab, no qual os laboratórios poderiam compartilhar os resultados. O grande problema é que se eu tenho vacas no laboratório “A” e o touro está no laboratório “B” e se eu tenho de fazer o processo no laboratório “A”, por exemplo, o laboratório “B” não disponibiliza a informação do touro. Diante disso, a gente criou esse sistema. Quem quiser é só entrar e disponibilizar as informações.

Revista AG – O senhor teria algo importante a comentar que ficou fora da conversa?

Josahkian – Gostaria de destacar que estamos mudando nosso banco de DNA. É uma parceria que fizemos com algumas instituições. Vamos colher amostras de touros e armazená-las. Com isso, já vamos criar uma primeira etapa para um projeto de genômica, já que estamos um pouco atrasados nisso. Os equipamentos já foram comprados e logo estarão funcionando.