Leite

 

Sistemas
SILVIPASTORIS

Benefícios para meio ambiente e competividade para pecuária leiteira

Ana Karina Dias Salman* e André de Almeida Silva**

A cadeia produtiva do leite no Brasil merece destaque no cenário econômico mundial devido ao crescimento observado na produção na última década, a qual é praticamente o dobro da registrada na Nova Zelândia e mais do que o dobro da Argentina, que são países de referência na produção mundial. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), em 2008 o Brasil produziu 27 bilhões litros de leite e ficou na sexta posição no ranking mundial. Mesmo assim, os índices de produtividade registrados no Brasil ainda são muito desfavoráveis: a média de produção diária de uma vaca é de um pouco mais de quatro litros de leite, sendo esse valor 7,5 vezes menor do que o registrado nos Estados Unidos, país que lidera o ranking mundial de produção de leite.

No caso específico de Rondônia, a pecuária leiteira tem grande importância para o desenvolvimento econômico do estado, o qual ocupa o primeiro lugar em produção de leite na região Norte e o nono no Brasil. Por outro lado, o pouco uso de tecnologia por parte dos produtores de leite do Brasil e do estado de Rondônia é preocupante porque evidencia a vulnerabilidade desse setor diante das transformações que vêm acontecendo na economia brasileira desde o início da década de 90 e que afetam toda a cadeia de lácteos. Dentre estas, podemos citar o fim do tabelamento do preço do leite e a abertura da economia ao mercado internacional. Todos esses fatores têm obrigado os produtores a reduzir cada vez mais os custos de produção em sistemas que devem ser eficientes tanto do ponto vista técnico quanto econômico, sem perder de vista a sustentabilidade ambiental.

A produção de leite a pasto, por apresentar um custo de produção menor que os confinamentos e semiconfinamentos, é o tipo de sistema predominante em diversas regiões do Brasil. Nele, as pastagens nativas ou cultivadas são a base da alimentação dos rebanhos leiteiros, o que garante maior lucratividade para o produtor.

Apesar da possibilidade de produzir com maior lucro, os sistemas de produção de leite em pastagem enfrentam vários desafios, sendo o principal a degradação das pastagens cultivadas. Existem vários fatores que estão relacionados ao processo de degradação, como o manejo incorreto, caracterizado pela falta de adubação de manutenção e do controle da taxa de lotação.

Quando há excesso de animais na pas- Fotos: Divulgação REVISTA AG - 71 tagem, ocorre diminuição da capacidade de rebrota e crescimento normal do capim. A menor disponibilidade de forragem, associada ao baixo valor nutritivo do mesmo, afeta o consumo dos animais, com impacto nos seus desempenhos produtivo e reprodutivo, o que tem influência direta sobre os índices de eficiência zootécnica e econômica. Logo, a sustentabilidade desse tipo de sistema depende diretamente do equilíbrio entre os fatores solo, clima, planta e animal.

Estimativas indicam que mais da metade da área formada com pastagens no Brasil está em algum grau de degradação, sendo uma boa parte já em estágio avançado. E quanto mais avançado, maiores são os custos para a recuperação. Existem diferentes estratégias para a recuperação de pastagens degradadas e a escolha da mais adequada depende de um bom diagnóstico da situação. Nos casos mais simples, a implantação de um manejo correto do pastejo e uma lotação animal adequada pode solucionar o problema sem a necessidade de grandes investimentos financeiros.

As vantagens da recuperação de áreas degradadas são muitas. Entre as principais estão: a redução de custos de manutenção da pastagem e de riscos de ataque de pragas, o melhor uso da terra, o aumento da eficiência no uso da mão de obra e dos recursos naturais e de energia, além da possibilidade de redução de emissões de gases de efeito estufa por unidade de produto obtido.

Diante desse cenário, os sistemas agroflorestais (SAF’s) são sugeridos como alternativa para contribuir com a recuperação da fertilidade do solo, o aumento da biodiversidade e a melhoria do uso dos recursos naturais.

Os sistemas silvipastoris (SSP’s), uma modalidade de SAF’s, constituem como alternativa para recuperar a biodiversidade em sistemas agrícolas e pecuários. Os SSP’s consistem de uma combinação natural, ou não, de espécies arbóreas em uma área de pastagem formada por gramíneas e/ou leguminosas nativas ou cultivadas.

Os SSP’s estão relacionados com diversos benefícios, tais como a incorporação de nutrientes e o incremento da atividade microbiana do solo, a melhoria do conforto térmico para os animais e a possibilidade de aumento do valor nutritivo da forragem, o qual pode ser resultante do sombreamento e da maior disponibilidade de nutrientes. Isso, quando associado às melhores condições de conforto térmico dos animais, permite o aumento no consumo de forragem e o desempenho produtivo de animais em pastejo.

Outros benefícios gerados pelos SSP’s quando comparados às pastagens convencionais (sem a associação com árvores ou arbustos) são a conservação do solo (diminuição de lixiviação e erosão) e dos recursos hídricos (aumento da eficiência do ciclo da água) e o aumento na biodiversidade de fauna e flora. Além disso, as pastagens adequadamente arborizadas podem contribuir para a redução da emissão de alguns gases relacionados ao “efeito estufa”, como o gás carbônico (CO2), o óxido nitroso (N2O) e o gás metano (CH4). Tais benefícios podem ser utilizados como estratégia de marketing e para agregar valor aos produtos produzidos nesse tipo de sistema, explorando um nicho de mercado em expansão mundial, que são os alimentos produzidos de forma ambientalmente correta.

O reconhecimento dos benefícios gerados pelos SAF’s, em especial os silvipastoris, está em crescimento no Brasil, mas a sua utilização ainda é muito baixa. As principais limitações para implantação e uso de SSP’s são: econômicas (falta de recursos para investimento inicial e retorno em longo prazo), operacionais (necessidade de isolar a área por 2-3 anos e manejar um sistema mais complexo e que exige mais mão de obra e conhecimento técnico) e culturais (ainda existe resistência por parte de pecuaristas que acreditam que as árvores diminuem a produtividade da pastagem e, consequentemente, do rebanho).

Sombra gera benefícios para o gado

Em estudo da Embrapa Acre, coordenado pelo pesquisador Carlos Maurício de Andrade e executado em parceria com a Embrapa Rondônia, pesquisadores identificaram espécies arbóreas nativas de crescimento espontâneo em áreas de pastagens cultivadas com potencial de uso múltiplo para compor sistemas silvipastoris. Entre as leguminosas arbóreas avaliadas, o bordão-de-velho (Samanea tubulosa), a baginha (Stryphnodendron pulcherrimum) e a jurema (Chloroleucon mangense var. Mathewsii) foram as que mais se destacaram. Quando a seleção das espécies para implantação de sistemas silvipastoris foi realizada de acordo com seus atributos para a produção de madeira, bem como seus valores comerciais praticados nos mercados do Acre e de Rondônia, a espécie que mais se destacou foi o parapará (Jacaranda copaia), seguida das nãoleguminosas freijó-preto (Cordia alliodora), sumaúma-branca (Ceiba pentandra), mulateiro (Calycophyllum spruceanum), ipê-amarelo (Handroanthus serratifolius) e cedro-rosa (Cedrela fissilis) ou leguminosas não-nodulíferas jatobá (Hymenaea courbaril), cumaru-cetim (Apuleia leiocarpa) e paricá (Schizolobium parahyba var. amazonicum). Os resultados desse estudo evidenciaram a ampla diversidade de espécies arbóreas nativas da Amazônia Ocidental brasileira que apresentam potencial para compor SSP’s tanto com como para produção de madeira.

Em outro estudo conduzido pela Embrapa Rondônia, o impacto ambiental da implantação de sistemas silvipastoris foi avaliado em unidades de produção familiar participantes do “Projeto Silvipastoril: agricultores familiares promovendo o equilíbrio ambiental em Rondônia”, implementado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (Fetagro), no período de 2006 a 2009, com recursos financeiros obtidos via edital do Ministério do Meio Ambiente. Como os SSP’s foram avaliados apenas um ano após o plantio das espécies arbóreas, foi possível observar um impacto ambiental pequeno, mas positivo, principalmente em relação ao aumento da biodiversidade na propriedade e à implantação do manejo da pastagem via lotação rotacionada, o que provocou uma melhora considerável na disponibilidade de pasto.

Por outro lado, considerando os resultados de um diagnóstico realizado para a caracterização dessas unidades de produção, verificou-se que os agricultores familiares têm a pecuária leiteira como principal atividade produtiva, porém enfrentam problemas de infraestrutura e manejo que comprometem a produtividade e, consequentemente, a rentabilidade do sistema. A produtividade do rebanho leiteiro das propriedades avaliadas, que oscilou entre 3,5 a 5,1 litros/dia, corrobou com os dados de produtividade por vaca em Rondônia, que possui média dede 3,75 litros/dia. O período de lactação das vacas presentes nas propriedades integrantes do Projeto Silvipastoril variou entre 6 e 8 meses para maioria dos casos (77,8%), intervalo que não é característico de rebanhos bovinos especializados para produção de leite. Essa baixa persistência de lactação também evidencia a falta de aptidão leiteira do rebanho. Apenas 27% das propriedades possuem rebanhos com período de lactação (entre 8 e 10 meses). Logo, a sobrevivência dessas famílias no campo depende de medidas para incentivo e apoio técnico dessas unidades de produção, visando amenizar as fragilidades e as limitações técnicas ora enfrentadas por esses agricultores.

A complexidade das interações entre os diferentes componentes (árvores, pasto e animais) dos SSP’s são específicas para cada localidade, dificultando o uso de recomendações embasadas em estudos realizados em outras regiões. Por essa razão, a troca de experiências entre técnicos e agricultores é fundamental, o que pode ser proporcionado por eventos e dias de campo que abordem o assunto. Para o enriquecimento dessas discussões é importante a geração de maior volume de informações técnicas, principalmente de indicadores socioeconômicos, as quais também poderão embasar políticas públicas e programas de liberação de créditos financeiros específicos para implantação desse tipo de sistema.

*Zootecnista e pesquisadora Embrapa Rondônia - [email protected] **Biólogo, mestrando do PGDRA - Universidade Federal de Rondônia - [email protected]


TECNIFICAÇÃO, saída para o produtor rural

Gustavo Rodrigues Alves

Com a crescente demanda mundial de proteína de origem animal, sustentada por uma rápida expansão da população, necessidades de melhorias no sistema de produção são fundamentais para manter a competitividade do pecuarista.

A busca pelo equilíbrio entre a oferta e a demanda dessas proteínas, entre elas o leite, esbarra em áreas distintas, porém complementares, como ambiente e bem-estar animal, manejo alimentar, manejo reprodutivo, melhoramento genético e promoção à saúde.

Na nutrição, o foco atual é buscar tecnologias que tragam incrementos produtivos, melhorias na eficiência alimentar e/ou redução nos custos com a alimentação.

O uso de aditivos, também denominados promotores de crescimento, em rações concentradas e suplementos proteico-energéticos constitui um fator de grande importância na nutrição dos animais. Este tipo de tecnologia proporciona melhoria na qualidade da dieta oferecida, além de incrementar a conversão alimentar e, consequentemente, aumentar as taxas produtivas, seja na pecuária de corte ou leite.

Segunda a definição do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), aditivos são substâncias intencionalmente adicionadas aos alimentos, com o objetivo de conservar, proteger, intensificar ou modificar suas propriedades, sem prejudicar o valor nutritivo.

Grande parte dos aditivos é classificada como promotores de crescimento. Esta tecnologia teve sua utilização inicial há 50 anos em avicultura e foi introduzida posteriormente na alimentação de ruminantes. Entre os aditivos podemos citar:

• Ionóforos: são classificados como antibióticos seletivos que deprimem ou inibem o crescimento de micro-organismos do rúmen, principalmente aqueles que prejudicam o bom desempenho da digestão (bactérias gram-negativas). Essa seleção melhora a eficiência do metabolismo de energia, alterando os tipos de ácidos graxos voláteis produzidos no rúmen (aumento de propionato, redução de acetato e butirato) e diminuindo a energia perdida durante a fermentação do alimento. Além disso, os ionóforos podem reduzir a incidência de acidose (por meio de aumento no pH ruminal e inibição de bactérias produtoras de ácido láctico), timpanismo e coccidiose.

• Tamponantes: é fundamental que o pH ruminal se mantenha dentro de uma faixa de normalidade (5,5 a 7,0), possibilitando um funcionamento adequado da fauna microbiana e evitando distúrbios metabólicos. Em situações nas quais há necessidade de se trabalhar com elevados níveis de concentrado na dieta, há uma predisposição de queda do pH. Os tampões atuam neutralizando o excesso de ácido produzido no rúmen, adequando o pH e, portanto, melhorando a eficiência alimentar (melhores condições para os micro-organismos ruminais).

• Probióticos: suplementos à base de micro-organismos vivos, que afetam beneficamente o animal hospedeiro, promovendo o balanço da microbiota ruminal. Os benefícios dos probióticos podem ser mediados por um efeito antagônico direto a grupos específicos de micro-organismos, resultando na redução de sua população. Esse efeito pode ser explicado pela produção de compostos antibacterianos, por competição por nutrientes ou por sítios de adesão no intestino.

• Prebióticos: compostos não digeridos por enzimas, sais e ácidos produzidos pelo organismo animal, mas seletivamente fermentados pelos micro-organismos do trato gastrintestinal. Podem estar presentes nos ingredientes da dieta ou ser adicionados a ela por meio de fontes exógenas concentradas. Atualmente, estes compostos vêm sendo utilizados, como alternativa aos promotores de crescimento, com o objetivo de manter o equilíbrio benéfico da microbiota intestinal, especialmente em animais jovens ou em iminente condição de estresse.

Para Gustavo Alves, a competição exercida pelo mercado faz com que apenas os pecuaristas mais produtivos permaneçam atuantes

Além dos promotores de crescimentos, novas tecnologias, visando incrementos produtivos, melhoria da eficiência alimentar e/ou redução nos custos com a alimentação, vêm sendo difundidas no ramo da pecuária leiteira, a exemplo da:

• Ureia Protegida: trata-se da ureia, porém, devido a uma película que recobre os grânulos do produto, apresenta uma taxa de liberação de nitrogênio mais lenta, em nível de rúmen, o que assegura uma absorção mais efetiva e sem intoxicações. O uso dessa fonte de nitrogênio não proteico tem sido recomendado não só pela melhoria de desempenho oferecida, mas também pela ausência de toxicidade e, possivelmente, pela menor relação custo/benefício, devido à substituição da soja na composição do suplemento.

• Gordura Protegida: consiste em uma fonte de ácidos graxos insaturados, protegida da degradação ruminal, ou seja, quando estes ácidos são ingeridos não são utilizados pelos micro-organismos naturais do rúmen. Assim, ao alcançar o intestino, são aproveitados de uma melhor maneira pelo animal. O maior benefício está relacionado à formulação de dietas, no que diz respeito a incrementos de NDT (energia). Além disso, estudos têm mostrado que esses ácidos graxos são precursores de hormônios reprodutivos e que a utilização da gordura protegida tem impacto positivo no índice de fertilidade do rebanho.

Para Gustavo Alves, a competição exercida pelo mercado faz com que apenas os pecuaristas mais produtivos permaneçam atuantes

Finalizando, a tecnificação da produção animal certamente traz benefícios ao produtor rural. A competição exercida pelo mercado faz com que apenas os pecuaristas mais produtivos permaneçam atuantes. Todas as tecnologias citadas acima foram devidamente testadas e estudadas, a fim de melhorar a lucratividade do sistema, podendo ser utilizadas concomitantemente.

Seja aumentando a retenção de energia fermentada no rúmen; melhorando a saúde da flora ruminal e intestinal; diminuindo distúrbios metabólicos como acidoses e timpanismo; protegendo nutrientes e reduzindo custos, todas as tecnologias são traduzidas em melhores performances, podendo trazer adicionais de até 15% na produtividade. Estes produtos viabilizam a produção com excelentes retornos produtivos e financeiros.

*Zootecnista, coordenador Técnico de Nutrição Animal da Produquímica - Alterações mercado