O Confinador

 

EFICIÊNCIA NA MISTURA DE RAÇÕES

Pontos importantes para melhorar o desempenho animal

Rodrigo Goulart*

Sabe-se que a eficiência do processo de engorda de bovinos confinados é dependente de vários fatores que contribuem para o sucesso econômico de todo o sistema. A utilização de animais de boa qualidade, a construção de instalações adequadas, a formulação precisa da ração, bem como a adoção de inúmeras técnicas de manejo alimentar são pontos importantes dentro do processo de engorda. Contudo, a atenção dada quanto à eficiência no processo de mistura da ração no confinamento é uma atividade complexa e que deve ser considerada como ponto importante no processo.

Para Rodrigo Goulart, avaliação rotineira de todos os processos de mistura é fundamental para maximizar desempenho

A busca pela eficiência no processo de mistura da ração ofertada diariamente aos bovinos confinados permite o fornecimento da quantidade necessária de cada ingrediente conforme a formulação feita previamente pelo nutricionista no intuito de otimizar o desempenho animal. Assim, o tipo do equipamento adotado, as características de cada alimento utilizado na dieta, a quantidade e o tempo de mistura dos ingredientes têm um impacto substancial na uniformidade da ração total.

Avaliar uniformidade é tarefa importante e deve ser realizada periodicamente. É possível adicionar uma quantidade conhecida de um determinado marcador junto aos ingredientes da ração ou até mesmo uma substância específica para medir a uniformidade de todos os ingredientes contidos na dieta. Neste cenário, o marcador deve ser um componente que possa ser detectado de forma acurada.

Boas fábricas de ração em confinamento utilizam o coeficiente de variação (CV) para medir a eficiência da mistura, bem como a uniformidade da mesma. O CV é definido pela fórmula:

CV=100 x (desvio padrão)/média

De modo geral, valores de CV entre 5% e 10% representam uma boa mistura dos ingredientes.

De acordo com dados da literatura literatura, um valor de 5% de CV para uma ração total permite que um animal consuma pelo menos 90% de todos os ingredientes contidos na dieta por pelo menos 95% do dia, minimizando, dessa forma, problemas de seleção de alguns ingredientes pelos bovinos. Entretanto, a magnitude do CV aceitável variará dependendo da precisão analítica para medir os ingredientes na dieta. O valor do CV para um determinado ingrediente a ser avaliado (repetibilidade do procedimento analítico) deverá ser menor do que o valor do CV desejado para uma mistura eficiente. Em se tratando de ingredientes incluídos em baixas concentrações, é possível encontrar altos valores de CV. Assim, o valor do CV será usualmente maior para ingredientes como minerais, vitaminas e aditivos melhoradores de desempenho animal (como ionóforos e beta-agonistas, por exemplo) pelo motivo da baixa inclusão destes ingredientes na ração total.

Um grande número de problemas encontrados no processo de mistura dos ingredientes em rações são consequência de diferenças entre o tamanho de partícula dos ingredientes, além da sua forma geométrica, da densidade e do teor de umidade. Ingredientes contendo tamanho de partículas e densidades similares promovem rações homogêneas e de fácil mistura. Por exemplo, grãos moídos ou apenas quebrados apresentam densidade similar àqueles farelos de sementes de oleaginosas. Consequentemente, haverá pouca dificuldade em obter uma mistura uniforme destes ingredientes. Cada mineral, por outro lado, possui diferentes valores de densidade quando comparado com grãos e farelos. Melhoradores de desempenho animal como ionóforos e beta-agonistas, por exemplo, possuem densidade intermediária aos grãos e tamanho de partículas distintos. Por sua vez, forragens possuem baixa densidade e elevada variação quanto ao tamanho e ao formato da partícula. Assim, esta variabilidade de formas físicas e densidade de cada ingrediente dificulta sobremaneira a preparação uniforme da mistura dos ingredientes.

Misturadores que utilizam sistemas de rosca horizontal possuem maior eficiência operacional se forem carregados com 70% a 90% de sua capacidade. Por outro lado, misturadores que utilizam sistema de rotor tombador, promovem mistura satisfatória aos níveis muito menores de carregamento. Entretanto, a utilização de produtos líquidos com alta viscosidade (melaço, por exemplo) em misturadores que não foram adequadamente carregados podem causar revestimento das paredes e das barras do misturador, resultando em contaminação e diminuição da eficiência do processo de mistura.

Outro ponto importante é que os misturadores não devem ser sobrecarregados. A inclusão de uma grande quantidade de ingredientes em um vagão pode dificultar o processo de mistura dos mesmos, fazendo com que alguns alimentos flutuem sobre a mistura, necessitando elevar o tempo de mistura do vagão.

Uma mistura inadequada pode também ocorrer se o espaço entre as laterais do misturador e suas roscas não estiverem propriamente ajustadas. De modo geral, os misturadores possuem ajustes de fábrica com uma folga de agitação de 0,3 a 0,9cm. Se essa folga aumentar para 1,3cm, a eficiência do misturador será comprometida, principalmente quando se utilizar dietas ricas em grão. Assim, recomenda-se a criação de um cronograma de inspeção visual periódica dos misturadores no intuito de evitar tais problemas. Assim, para equipamentos que durante a utilização começam apresentar sinais de desgastes, torna-se necessário realizar o reparo ou a substituição dos mesmos.

Não se esqueça do tempo de mistura! Se possível, utilize cronômetro para controlar o tempo de mistura (veja figura 1 como exemplo). O tempo de mistura aumenta de acordo com o nível de alimentos líquidos acrescidos à mistura. Isso acontece pelo fato de que a mistura torna-se mais viscosa retardando o fluxo dos ingredientes por meio da mistura. Esse problema acentua-se quando o nível de melaço adicionado no vagão ultrapassa sua capacidade de absorção. Desse modo, a quantidade de melaço empregado na formulação da dieta deve ser considerado não apenas com respeito aos custos relativos do melaço, mas também em relação ao tempo necessário para a realização da mistura e o nível aceitável do valor do CV para os microingredientes limitantes da mistura.

Como conclusão, a avaliação rotineira de todos os processos de mistura da dieta é fundamental para maximizar o desempenho dos animais e também minimiza os efeitos adversos de ordem metabólica dos bovinos. Quando os resultados dos testes analíticos apresentarem variabilidade acima do desejado, uma completa avaliação de todo o processo de mistura deverá ser realizado.


Alguns pontos importantes sobre coleta de amostras

A coleta de amostras deve ser representativa da ração a ser fornecida. Vários autores relatam que o melhor momento para realizar a amostragem da dieta é exatamente quando a ração é distribuída nos cochos. Recipientes utilizados para coletar amostras devem ser de tamanho e volume adequado para recolher de forma uniforme apenas a quantidade desejada. As amostras devem ser armazenadas em recipientes hermeticamente lacrados e enviados ao laboratório.

É importante ter sempre em mente que, ao realizar a amostragem em sacos, caixas ou vagões misturadores, é possível que se tenha elevada variação amostral (isto é, aumentar a probabilidade de obter uma amostra representativa). Esse aumento na variação da amostragem é devido a segregação dos componentes da ração. Assim, o uso de sonda de amostragem pode ajudar a reduzir parte dessa variação.

*Rodrigo Goulart é PhD e gerente Técnico Zilmax da MSD Saúde Animal