Mercado

 

CARNE DIFERENCIADA,
objetivo no Paraná

Pecuaristas miram esforços na qualidade de carne para conseguir melhor remuneração

Robson Rodrigues

Sem exportar, pecuaristas do Paraná concentram esforços no mercado interno. A cotação da arroba do boi gordo beira a casa dos R$ 100,00 na região noroeste e a produção estadual não consegue suprir a própria demanda, estimada em quase 345 mil toneladas por ano. “Somando toda a nossa produção de carne bovina, somos capazes de atender apenas 80% do mercado. O restante é abastecido por São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que ganham espaço em função dos preços competitivos”, explica o assessor do Departamento Técnico- econômico da Federação de Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Celso F. Dias Doliveira. No ano passado, a classe produtiva atendeu grande parte do consumo interno, com quase 280 mil toneladas de carne. Há dois anos, as vendas externas ainda eram realidade, mas com o encerramento das atividades de uma grande indústria frigorífica em Maringá, o estado deixou de competir no comércio exterior. Para reverter a situação, produtores de diversos municípios estão se apoiando nas cooperativas para produzir carne de melhor qualidade e, dessa forma, atingir nichos de maior valor agregado.

Já são sete cooperativas do gênero, algumas com mais de 20 associados, responsáveis por 5% dos abates paranaenses. Na grande maioria, é o próprio pecuarista que escoa a produção, em grandes redes de hotéis, restaurantes ou churrascarias, conseguindo uma melhor remuneração. “Nesse modelo de produção, o lucro varia entre 10% e 20% sobre o valor da arroba do boi gordo. Outra vantagem é que os produtores passam a entender como funciona o negócio da venda de carne da porteira para fora”, conta o assessor da Faep.

Uma das cooperativas é a Cooperaliança, sediada em Guarapuava, que trabalha no sistema de aliança desde 2007, quando começou com 12 associados e um rebanho médio de 4.800 cabeças de gado. Em 2011, respondeu pela comercialização de 2.087 toneladas de carne e espera chegar a 2.504 ainda neste ano. O valor da premiação dos cooperados varia conforme a classificação atingida pelo gado, sendo que cada categoria tem seu preçobase e a respectiva bonificação. Segundo o presidente, Edio Sander, no primeiro semestre de 2012 a remuneração média do pecuarista sobre a arroba foi de 16,41%.

“Atualmente, contamos com 25 pecuaristas envolvidos na produção de carne bovina e um rebanho estimado em 10 mil cabeças. Nossa missão é verticalizar o mercado e proporcionar maior rentabilidade para o produtor, no entanto, seguimos um conceito de aliança mercadológica, no qual cada elo exerce uma função muito bem definida. O pecuarista se encarrega dos animais dentro dos padrões estabelecidos, o frigorífico apenas abate e cabe à cooperativa a responsabilidade comercial e financeira sobre a produção, bem como a logística e a distribuição das carcaças. Por sua vez, o varejista faz a desossa e o atendimento ao consumidor final”, explica Sander.

Para especialistas, este tipo de aliança deve crescer, não só pelo mercado diferenciado e pela remuneração mais equilibrada que atinge, mas também pelas vantagens comerciais na compra de insumos e o avanço constante na qualidade do rebanho. Ingressar nesse modelo não é fácil, é preciso atender requisitos básicos. “O espírito associativo é critério preliminar e obrigatório. Na sequência, consideramos a estrutura física da propriedade, manejo alimentar e sanitário do rebanho e investimento em melhoramento genético, entre outros fatores”, enumera Sander.

O criador João Arthur Barbosa Lima, dono da Fazenda Cristal, situada no distrito de Guairacá, no município de Guarapuava, abate cerca de 720 animais por ano, segundo padrões da Cooperaliança. Ele conta que no começo teve de remodelar a infraestrutura da propriedade, que hoje abriga um rebanho de 500 animais, e que o investimento valeu a pena. “Esse é um modelo muito interessante, pela comercialização diferenciada e a escala mensal de abate. Na minha região, não há como concorrer com as culturas de milho e soja, a não ser que se explore um sistema com pagamento diferenciado”, relata.

Na Cooperaliança, o gado é classificado em três categorias: animais hiperprecoces, com até 14 meses de idade; superprecoces, entre 15 e 18 meses; e precoces, que variam de 18 a 24 meses. Afora esses padrões, o gado é vendido como normal. Em relação à criação, basicamente é feita em regime extensivo, com suplementação, e, ao final do ciclo, os bovinos são terminados em confinamento, para que apresentem marmoreio e uma distribuição de gordura mais uniforme.

Segundo Celso Doliveira, os pecuaristas paranaenses não conseguem suprir sua total demanda

Mesmo com a alta dos grãos e a competição das lavouras, o confinamento vem conquistando cada vez mais adeptos no Paraná.

Dados da Faep indicam que o estado é o sétimo no ranking nacional de confinamento, com 120.118 cabeças abatidas em 2011 e uma previsão de 132.130 para este ano, crescimento de 10%. No sistema de semiconfinamento, figura em sexto lugar, com 175.072 cabeças abatidas até o momento, número que ainda pode subir para 181.124. A terminação intensiva em pastagem de inverno também é uma realidade e deve corresponder a 97.043 animais abatidos até o final do ano.

PECUÁRIA PARANAENSE

Segundo a Faep, o Paraná detém a quinta maior economia do Brasil, respondendo por 30% do PIB estadual. Com uma população de 10,5 milhões de habitantes e renda per capta de R$ 21,6 mil em 2010, ultrapassa a média nacional de R$ 19,7 mil. Somente o agronegócio representa 30% do PIB estadual. Das 371.051 propriedades rurais em todo o território, quase 212 mil investem em bovinos. Juntas, reúnem um rebanho de quase 10 milhões de cabeças, distribuídas principalmente na região noroeste. São aproximadamente 2.160.877 animais. O estado é livre de febre aftosa com vacinação, peste suína clássica e Influenza aviária.

Desde que ocorreram focos de febre aftosa, em 2005, os paranaenses não conseguiram reconquistar o mercado externo. Em 2008, retomou o status de área livre da doença com vacinação, mas somente em 2009 retornou às exportações de carne, cujo produto já esteve presente em 20 países. “Hoje, sofre com a falta de frigoríficos habilitados em atividade. Neste ano, a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Paraná (ADAPAR) iniciará ações para reforçar a proteção sanitária do estado.

A remuneração média para o pecuarista foi de 16,41% sobre a arroba, relata Edio Sander

Uma delas é um projeto ambicioso, que está sendo minuciosamente estudado e pode ser apresentado à sociedade e à iniciativa privada ainda neste ano, possivelmente em novembro, no lançamento da segunda etapa da campanha de vacinação contra febre aftosa. A entidade estuda a possibilidade de retirar a campanha, visando o reconhecimento internacional de área livre da enfermidade sem vacinação, status conquistado apenas por Santa Catarina. “Ainda estamos escrevendo o projeto, calculando os prós e contras e isso não vai acontecer no médio prazo. É necessária uma ampla reestruturação dos serviços de defesa, contratar mais servidores, adequar postos de fiscalização, entre outras questões a serem resolvidas”, esclarece Adriano Riesermberg, engenheiro-agrônomo e um dos diretores do Adapar.

Alianças mercadológicas exigem compromisso do produtor e melhoramento do plantel

Por enquanto, a agência não pensa em suspender a imunização, que inclusive, já adianta que será realizada também em 2013. O reconhecimento da área livre pode abrir novas fronteiras para a carne paranaense, inclusive, na União Europeia e nos Estados Unidos, não só para a carne bovina, mas também para a suína e de outras espécies. “Santa Catarina se esforçou para alcançar tal status, não por ser exportador de carne bovina e, sim, por causa da sua suinocultura, que é muito forte e se beneficiou muito disso”, explica.

Nesse projeto, o Adaptar pretende mostrar as vantagens e desvantagens com todas as justificativas plausíveis, afinal uma medida como essa exigiria um alto investimento. “Sabemos que não podemos tomar nenhuma medida que não esteja muito bem embasada, por isso, não estamos marcando data para este projeto. Enquanto não tivermos plena segurança para afirmar ‘Paraná, agora, deixa de vacinar’, isso não será feito. Planejamos ter nosso serviço muito bem avaliado, ter estrutura de recursos humanos e postos de vigilância adequados, problemas que estamos resolvendo”, pontua.

Existem 22 plantas frigoríficas homologadas pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) no Paraná, sendo três paralisadas, e mais 50 com Selo de Inspeção Estadual (SIP), com capacidade para abater 60 a 1.050 cabeças/dia.

Em função do alto valor das terras, observa-se um aumento significativo nas taxas de lotação de pastagem no estado e um acréscimo de quilos de carne produzidas por hectare nos últimos anos. “O preço alto e a competição com culturas mais rentáveis têm pressionado os pecuaristas a adotar sistemas de produção e tecnologias que garantam rentabilidade ao negócio. A integração lavoura- pecuária também vem crescendo bastante. Muitos agricultores estão diversificando com a produção de carne, inclusive, conseguindo acesso a linhas de financiamento com projetos de agricultura de baixo carbono – o Programa ABC, do Ministério da Agricultura”, conclui Doliveira