Raça do Mês

 

Invasão VERMELHA

“Boi Vermelho”, como é conhecido o Senepol, ganha mais espaço no mercado brasileiro por trabalhos de melhoramento

Fátima Costa

O Senepol, raça taurina adaptada, é uma das que mais crescem no País, segundo Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos Senepol (ABCB Senepol), com evolução de 50% ao ano. Não é à toa que o Brasil já se tornou o maior criador de Senepol do mundo. Os EUA possuem um grandioso banco genético, desenvolvido desde o começo da raça, mas, no que diz respeito à quantidade de animais, as “terras tupiniquins” lideram a produção mundial.

O legado deixado por alguns pioneiros como o pecuarista João Arantes Júnior, que no ano 2000 viajou para os Estados Unidos e importou os primeiros exemplares da raça, faz agora o caminho inverso. Há mais de dez anos, o momento era promissor, pois o Brasil trilhava um caminho para a liderança mundial nas exportações de carne bovina, e João Arantes Júnior não pensou duas vezes ao adquirir 72 fêmeas, entre novilhas e doadoras, que partiram numa viagem da Flórida, nos Estados Unidos, para Porto Velho/ RO. “A raça, relativamente nova no País, demonstra todo o seu potencial nos principais indicadores, como número de animais nascidos, número de novos criadores, leilões realizados e venda de sêmen”, diz o presidente da entidade, Gilmar Goudard.

Levantamento da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) revela que o Senepol evoluiu 49,08% no ano de 2011, em relação a 2010. Ou seja, a raça atingiu a marca de 135 mil doses comercializadas. Anualmente, a raça vem aumentando sua comercialização de sêmen para o cruzamento industrial e o tricross (cruzamento triplo), que propicia a segunda posição de venda de sêmen entre os taurinos. “A expectativa para este ano é termos o crescimento na ordem de 50%.”

As qualidades, as características e os diferenciais do Senepol são o “carro- chefe” para esses bons resultados. Para Goudard, o destaque da raça está na questão da adaptabilidade dos animais aos trópicos, sendo o único taurino que acompanha a vacada a campo. Hoje, não só criadores brasileiros, mas pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) também já comprovaram que o Senepol mantém uma temperatura corporal mais baixa em relação a outros bovinos. Outro ponto positivo é o temperamento extremamente dócil. Ver um animal estressado, inclusive, é uma cena rara nas fazendas que optaram pela criação do Senepol.

O rendimento de carcaça da raça é, segundo a entidade, altamente satisfatório, com índices em torno de 54% a 56%, com capa de gordura variando entre 3 e 6 mm. No Brasil há um time de criadores que buscam constantemente a melhoria genética e fenotípica para a raça Senepol, utilizando raçadores consagrados e melhoradores. Outra vantagem é que o animal é rústico, por ter uma genética do N’Dama, taurino africano que se destaca pelo baixo índice de infestação de parasitas e insetos. O Senepol é a única raça resistente à mosca do sono (“tsé-tsé”). A dupla aptidão, precocidade e longevidade sexual, bons resultados na criação a pasto ou confinamento também engrossam a lista das qualidades que vêm fazendo do Senepol uma raça que se expande em uma velocidade invejável.

Atualmente, a ABCB Senepol aponta que o adaptado está presente em 12 estados brasileiros, com destaque para Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. “Temos crescido muito também na Região Norte. No Pará, por exemplo, ela já está se tornando uma realidade”, afirma.

Tanta expansão é fácil de entender. Fruto do cruzamento entre as raças N’Dama, do Senegal, na África, e Red Poll, da Inglaterra, o animal apresenta capacidade de desenvolvimento em regiões com pastagem de baixa qualidade. Do Red Poll, o Senepol herdou a maciez da carne e a boa produção leiteira, além da pelagem avermelhada. Os animais Senepol são vistos com entusiasmo impulsionando o número de sócios da entidade, que chegam a 120.

Com volume significativo, o Senepol brasileiro está se tornando uma referência para o mundo. Dentre os países importadores da genética Senepol brasileira, destaque para: Canadá, Equador, Panamá, Argentina, Paraguai e Colômbia. Goudard ressalta que aqui no País se encontra uma genética muito boa, que se não for a melhor do mundo é uma das melhores. “Isso deixa claro o porquê de os outros países já voltarem os olhos para os plantéis brasileiros”, diz.

Junto a este cenário de crescimento, a diretoria-executiva, juntamente com o Conselho Deliberativo Técnico e o Ministério da Agricultura, finalizou, no mês de abril, as modificações e os ajustes do Regulamento do Serviço de Registro Genealógico da raça Senepol. “As mudanças foram necessárias e feitas a tempo, dada a velocidade do crescimento do rebanho (puro e absorvente) da raça. Os controles e as certificações que validam todo o processo de registro genealógico deverão ser feitos de forma a assegurar ao máximo a informação que o certificado de registro carrega, ou seja, crescer é importante, expandir a raça é fundamental, mas assegurar o sistema de registro e banco de dados é a obrigação principal da associação”, destaca Celso Menezes, superintendente técnico da ABCB Senepol.

ALÉM DO CAMPO

Além das características que se leva ao campo, também há aquela que se acaba na cadeia final: o prato do consumidor. O presidente da entidade aponta que a carne do Senepol produz um dos melhores índices de maciez pela força de cisalhamento. “Sem marmoreio, a maciez se dá por apresentar menor perda de líquido no cozimento, o que mantém a carne macia, mesmo sem gordura entremeada”, diz. “Embora o índice de marmoreio seja praticamente inexistente, as peças estão entre os melhores indicadores solicitados para um bom acabamento de gordura”, frisa.

A ABCB Senepol aponta que a utilização do Senepol no cruzamento industrial tem avançado muito, por ser o único taurino que cobre a vacada a campo. Este é o grande diferencial da raça. “Ele não gosta de sombra, está sempre acompanhando a vacada no sol, é o animal certo para os trópicos”, conta.

No Brasil, 93% das prenhezes resultam de monta natural e, para se obter a heterose desejada entre taurinos e zebuínos, o Senepol pode ser uma solução interessante. “No abate técnico realizado neste ano, as cruzas Senepol x Nelore surpreenderam. Proporcionaram abates precoces, com idade entre 21 e 22 meses, tendo em média [email protected] de peso para os machos e [email protected] para as fêmeas, com aproveitamento de carcaça entre 56,7% e 53,9%, acabamento de gordura entre 4,7 e 10,2 mm e área de olho de lombo de 81,21 cm2. É tudo o que se espera de uma carne com excelente qualidade”.

O Senepol apresenta diversas qualidades no cruzamento. Padroniza as crias, reduzindo o “fundo” e mocha 95% dos nascimentos, reduz o pelo a praticamente zero, produz animais com [email protected] de peso a mais na desmama, ou seja, os animais são desmamados com oito meses em média, com [email protected] de peso, reduz em um ano ou mais o abate com mesmo peso de animais zebuínos abatidos com 30 a 35 meses. Os garrotes cobrem aos 14 meses de idade, touro adulto cobre até 50 vacas por estação, o índice de prenhez da vacada com touro Senepol é superior a 90%.

PARCERIAS

Há dois anos foi assinado um convênio entre a Embrapa Gado de Corte e a ABCB Senepol, com o objetivo de avaliar geneticamente os animais e traçar rumos de como eles podem contribuir com a pecuária brasileira. “O programa está sendo estruturado e a tendência é observar tanto peso como outras características importantes”, explica Lucas Nascimento Silva, zootecnista do Programa Geneplus da Embrapa.

Touros são rústicos e acompanham vacada no campo

O programa trabalha em diversas frentes, como habilidade materna, características de carcaça e desempenho. “Senepol é uma raça 100% taurina e adaptada, só com cruzamento proporciona uma vantagem fantástica. Ganha mais que as demais raças. Só isso abre um campo imenso de trabalho”, diz. O programa de avaliação genética possui 5 mil matrizes em produção. “Já contamos com a avaliação de aproximadamente 31 mil animais entre PO e cruzas, o que nos proporciona inúmeros touros com DEPs positivas e acurácia superior a 40%”, afirma o presidente da associação.

Ele reforça que provas de desempenho – os CPs – também já são realizados na Embrapa, no CRV Lagoa e no Safiras. “Este ano foi realizada no CRV Lagoa a primeira prova mundial da raça no Grow Save, que nos dará os melhores animais em conversão alimentar. Também está sendo conduzida no Mato Grosso do Sul a prova do Senepol a Raças - Senepol Touros são rústicos e acompanham vacada no campo campo coordenada pela Embrapa”, diz.

AS SAFIRAS

Há dois meses, o grupo de parceiros do Senepol, a Senepol Mais (S+) e a In Vitro Brasil assinaram um acordo inédito para a exportação de embriões produzidos a partir de acasalamentos com doadoras classificadas como “Safiras”, fêmeas avaliadas pelo Programa “Safiras do Senepol”, criado e realizado pela própria associação. “A parceria aquecerá e elevará o mercado da raça”, reforça o coordenador Junior Fernandes.

Criado há três anos, o “Safiras do Senepol” já avaliou mais de 500 novilhas. O teste de performance tem o apoio do grupo Parceiros do Senepol e as avaliações técnicas são coordenadas pela S+ Senepol em parceria com pesquisadores de Unesp de Jaboticabal/ SP, Embrapa de São Carlos/SP, Instituto de Zootecnia de Sertãozinho/SP e Coan Consultoria.

CLONAGEM

Em 11 de junho, a ABCB Senepol anunciou o nascimento de GST Arena 18 E.T, o primeiro clone da raça no mundo. A matriz é considerada uma das melhores da raça e tem seis filhos em centrais de inseminação. A próxima cópia será da doadora Loira da Grama, que está em plena atividade aos 11 anos de idade e é recordista nacional de preço.