Entrevista do Mês

 

Melhor qualidade de carcaça

O Frigorífico JBS tem sido alvo constante do ataque de pecuaristas que o acusam de monopólio, mas ao analisar a situação friamente ainda existem muitas outras questões a serem resolvidas, como a qualidade e a própria definição do perfil da matéria-prima produzida. Para falar desses complexos assuntos, ouvimos Eduardo Pedroso, responsável pelo Relacionamento com o Pecuarista da empresa.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - O JBS enxerga no pecuarista um parceiro ou apenas um fornecedor de matéria-prima?

Eduardo Pedroso - Bons e competentes fornecedores são na prática parceiros da empresa. Parceiros regulares estreitam relação e se tornam também bons amigos. Contudo, temos de estimular que o relacionamento das partes seja cada vez mais profissional, amparado por fatos e dados. Nada melhor do que regras claras para que o pecuarista tenha segurança para planejar a produção. Nada melhor do que planejamento para que a indústria possa manter canais de venda diferenciados ativos sem ruptura de fornecimento. Se o mercado é cada vez mais exigente, temos de evoluir nas relações entre a indústria e o produtor para continuarmos competitivos.

Revista AG - Antes da sua chegada, como avaliava a relação do frigorífico com os seus fornecedores?

Eduardo Pedroso - Tradicionalmente, o pecuarista sempre teve acesso direto ao dono do frigorífico (vale para todos os frigoríficos). Com o crescimento da JBS, o objetivo da nova área de Relações com o Pecuarista é reestabelecer este canal de acesso privilegiado, canalizando as demandas e fazendo com que elas cheguem até a presidência sempre que necessário.

Revista AG - E, atualmente, considera que a empresa possui um bom relacionamento com o pecuarista?

Eduardo Pedroso - Este canal foi aberto há praticamente seis meses. Estamos avançando em várias frentes de trabalho: construção da agenda positiva entre indústria/produtor com as entidades representativas da pecuária, relatórios de evolução de desempenho dos pecuaristas, projeto de excelência de atendimento dos pecuaristas nas unidades da JBS e comercial estratégico com estudo de novas modalidades de comercialização com visão de longo prazo.

Revista AG - Na sua opinião, o que falta para que esses dois elos da cadeia caminhem unidos?

Eduardo Pedroso - Falta a visão do bom diálogo como posicionamento estratégico das duas partes para captura das oportunidades de valor agregado. O mercado evolui dia a dia e as especificações das demandas também. Estreitar um bom relacionamento entre as partes se mostra potencialmente lucrativo para todos. Enquanto canal de vendas do pecuarista, a indústria deve sinalizar as tendências de mercado. Afinal, o frigorífico embala e distribui a qualidade que vem do campo.

Revista AG - Algumas iniciativas existentes no mercado estão quebrando paradigmas, mas acredita que esse ríspido relacionamento esteja realmente com os dias contados?

Eduardo Pedroso - As tensões comerciais na relação indústria e produtor acontecem no mundo todo. Afinal de contas, quem vende quer vender mais caro e quem compra quer comprar mais barato. O equilíbrio da necessidade de vender e comprar forma o preço base do mercado. Contudo, isolando a questão do preço, existem alguns outros pontos que podem ser trabalhados para elevar a régua da satisfação e o sentimento de respeito e confiança entre as partes. Por exemplo, confiança no peso, padrão de abate, classificação de carcaças, atendimento de demandas especiais e seguro de recebimento.

Revista AG - Pecuaristas de algumas regiões do Mato Grosso, como em Água Boa, acusam o JBS de monopólio, o que acaba por achatar o preço da arroba na região. Esta acusação procede?

Eduardo Pedroso - O bovino é um ativo de extrema liquidez, qualquer que seja a categoria animal. Dada esta característica, seu preço segue a máxima de mercado que é a oferta e a demanda. Quem manda no preço do boi é o mercado. Para ratificar esta afirmação, um estudo econométrico recente do pesquisador Cassiano Bragagnolo, do CEPEA/ ESALQ/USP, intitulado “Elasticidade preço da oferta e da demanda na pecuária de corte de SP, MS, MT e GO” concluiu que a elasticidade de oferta nos mercados estudados não indica poder de mercado do comprador no processo de formação de preços; que os elevados custos impedem que a planta fique parada, portanto, é necessário manter o fluxo de animais; que existem contratos com fornecedores a serem cumpridos; por isso, não tem como parar a compra e os produtores de animais têm flexibilidade no período de venda.

Revista AG - A Acrimat mostrou em levantamento que na região Norte do MT apenas duas das quatro plantas do JBS funcionam, sendo que nas demais regiões sempre há uma planta parada. Gostaria de se pronunciar sobre a ociosidade dessas plantas?

Eduardo Pedroso - Segundo levantamento do IMEA, a região Norte do MT possui 9 plantas frigoríficas: 1 em Nova Canaã do Norte, 1 em Nova Monte Verde, 1 em Alta Floresta, 1 em Guarantã do Norte, 3 em Matupá e 2 em Colíder. Das nove plantas, apenas quatro estão nas mãos da JBS, sendo 1 em Alta Floresta, 1 em Matupá e 2 em Colíder. Dessas quatro plantas, apenas uma está parada. Trata-se da unidade de Colíder, que veio no pacote do Frigorífico Quatro Marcos. O que justifica esta planta estar parada é o fato de ser uma planta antiga (ineficiente) e a disponibilidade de gado para abate na região.

Revista AG - Atualmente, o frigorífico paga bonificações para pecuaristas que fornecem qualidade de carcaça?

Eduardo Pedroso - Existem alguns contratos vigentes como Associação do Novilho Precoce de Mato Grosso do Sul, Organic Beef Certificado pelo IBD e Swift Black. Outras demandas especiais estão sendo mapeadas e novos modelos de parceria estão sendo estudados.

Revista AG - Você concorda que passou da hora de o Brasil implantar um sistema de tipificação de carcaças ou acredita que ainda não estamos prontos para tanto?

Eduardo Pedroso - Embora eu seja um entusiasta sobre o tema, confesso que hoje tenho dúvidas se a base produtiva realmente deseja ter um sistema unificado de classificação e tipificação de carcaças que esteja vinculado à remuneração do boi. Fundamento meu raciocínio em fatos e dados que tive a oportunidade de apresentar no Interconf deste ano: do total de abate da JBS, 13% do gado abatido mereceria ser premiado (carcaças superiores), ao passo que 27% deveriam ser penalizados (qualidade indesejável de carcaças inferiores). Em número de pecuaristas, a cada pecuarista com saldo de qualidade positivo, 3,5 teriam o saldo de qualidade negativo, ou seja, poucos pecuaristas seriam beneficiados em detrimento de muitos que seriam penalizados. Na prática, o boi de qualidade está concentrado nas mãos de poucos e a maioria dos próprios pecuaristas é refratária ao assunto. Contudo, é lógico pensar que a partir do momento em que o mercado reconhecer a qualidade com sobrepreço, o pecuarista irá se adequar. Porém, a lacuna está no primeiro giro desta roda. A indústria não tem margem suficiente para subsidiar a virada do jogo sozinha. Entretanto, como disse anteriormente, estamos trabalhando no estudo de rotas alternativas para segmentar e valorizar os que se destacam pela produção de carne de qualidade. Talvez o caminho seja o desenvolvimento de cotas e protocolos diferenciados de conformidade de carcaça e sistema de produção. Tudo formalizado contratualmente.

Revista AG - Gado criado no pasto ou em confinamento teriam classificações diferentes?

Eduardo Pedroso - Mais relevante do que o sistema de terminação, são as diferenças entre a qualidade da carne de animais inteiros e castrados. A questão não é somente a dificuldade do acabamento nos inteiros. É difícil, mas não impossível, com o avanço da tecnologia da nutrição de alto grão. Um ponto ainda pouco explorado no Brasil é a questão comportamental dos animais inteiros e o impacto na qualidade da carne. Animais inteiros (touros) são muito mais sensíveis ao estresse, sobretudo, na disputa pela hierarquia do lote (efeitos de dominância). Isso resulta, com frequência elevada, em cortes escuros que repelem o consumidor (pH elevado). Ou seja, é muito difícil estabelecer um sistema de produção de carne de qualidade com animais inteiros. O contraponto é a superioridade de desempenho dos animais inteiros bem alimentados - ganho de peso, conversão alimentar e rendimento de carcaça. A solução passa por dois caminhos interdependentes: o comércio mais competente de carcaças de animais castrados, pesados e bem acabadas e a incorporação de novas tecnologias no sistema de produção.

Revista AG - Mas, para que funcione bem, quem deve pagar a conta? O pecuarista, o frigorífico, o governo, o varejo, o consumidor ou todos os atores envolvidos?

Eduardo Pedroso - No final das contas, quem paga esta conta é o consumidor final a partir das relações de oferta e demanda. A chave é deslocar a curva da demanda: temos de pensar na qualidade da carne para almejar e sustentar valor agregado. A demanda puxada pelo comércio é que irá lubrificar a engrenagem da produção da carne de qualidade em larga escala. Os números demonstram que estamos na direção contrária. Cada dia que passa, um volume maior de carne de pior qualidade chega ao mercado, que está se nivelando por baixo a partir da engorda de animais inteiros (touros). Importante é a consciência coletiva de que a pecuária do Brasil perde competitividade.

Revista AG – O pecuarista fornece produtos com bom acabamento de carcaça?

Eduardo Pedroso - Quanto ao acabamento, de todo abate da JBS, somente 50% dos animais castrados são classificados com o acabamento desejável (gordura mediana e uniforme), 13% dos inteiros e 45% das fêmeas. A título de demonstração dos desafios de melhoria da qualidade, 8,5% dos castrados são classificados com gordura ausente, 41% dos inteiros e 7,5% das fêmeas. Nota importante: animais classificados com gordura ausente indicam abate antes do ponto ideal de engorda, ou seja, nestes casos os produtores estão subutilizando o potencial das carcaças da propriedade, reduzindo a produção de carne e rendimento das carcaças, bem como a produtividade por hectare/ano.

Revista AG - Hoje, o frigorífico prefere bois inteiros ou castrados?

Eduardo Pedroso - Assim como dizem os americanos, o frigorífico é um “packer”, ou seja, simplesmente embala a qualidade que vem do campo. A preferência por castrado ou inteiro não é do frigorífico, mas dos diferentes mercados. Por exemplo, os mercados árabes preferem carnes magras e não se incomodam pelo fato de o boi ser inteiro. Contudo, o patamar de negociação é extremamente focado nos preços baixos (boi commodity). Já os mercados com potencial de diferenciação compram qualidade de carne (cor vermelha cereja brilhante, cobertura de gordura, sabor, suculência e maciez). Uma coisa é certa: engorda de animais inteiros pode apresentar muitas vantagens zootécnicas, contudo, se mostra incompatível com padrão de qualidade da carne para consumo com valor agregado.

Revista AG - Recentemente, acompanhamos embargos devido à presença de resíduos de ivermectina na carne – nos EUA – e presença de tuberculina – na Rússia. Essas questões já foram contornadas?

Eduardo Pedroso - A questão da tuberculose está praticamente resolvida. Contudo, as constantes violações dos produtos industrializados por resíduos de ivermectina muito nos preocupam. Gostaríamos de ver o setor produtivo engajado sobre este tema e a imperativa necessidade de se respeitar os prazos de carência dos medicamentos. Muitos acham que só o frigorífico perde com esta situação. Este é um equívoco, pois quem perde é o país, inclusive o produtor.

Revista AG - Isso pode impactar de alguma forma o controle da matéria- prima pelo JBS e por outros frigoríficos?

Eduardo Pedroso - A Garantia da Qualidade da JBS criou uma nova área chamada Garantia da Origem. Esta área está empenhada em fazer o mapeamento de risco e desenvolver estratégias para sensibilizar os pecuaristas sobre a gravidade da situação e propor ações corretivas.