Mercado

Boas perspectivas

Conforme era de se esperar e, mesmo que atipicamente, seguindo o ciclo pecuário, que a cada ano se encurta mais, finalmente o mercado deu sinais de recuperação, com diminuição da oferta de animais e valorização da arroba. A pressão de baixa que vinha dominando as negociações na maioria das praças analisadas cedeu lugar a um movimento de alta e esta tendência, ocasionada principalmente pelo período de entressafra, deve se manter, se não em ascensão, pelo menos constante até o final do ano, quando ocorrem as festividades natalinas e o consequente aumento no consumo por parte do varejo.

O período analisado, de 20 de agosto a 21 de setembro, iniciou com baixo consumo e ainda poucas negociações devido às últimas semanas do mês, quando uma queda de consumo e de demanda por carne ocorre naturalmente em consequência da descapitalização da população. Com o encurtamento das escalas sofrido pelos frigoríficos após esse período de fim de mês e pela redução de oferta de boi gordo percebida por estes, as cotações reagiram e os preços foram impulsionados também pela falta de pasto, de chuva e de coragem de certos pecuaristas, descontentes com o primeiro turno do confinamento e desmotivados a investir no segundo. O início do mês de setembro trouxe a reação das cotações e o início da valorização da @, embora ao final desta análise já tenha havido uma leve estabilização nas cotações, quase que em todas as praças analisadas.

No mundo, nos 25 dias úteis considerados durante o período analisado, de 20 de agosto a 21 de setembro, houve valorização no valor da @ em todos os países analisados, provavelmente ocasionada pela alta do dólar, o que favoreceu o preço internacional da carne bovina. Também o ajuste produtivo sofrido pelas proteínas concorrentes (aves e suínos), prejudicadas pela elevação dos custos de produção de grãos, principal fonte de nutrição, colaborou para a valorização da carne bovina. Aliados à estiagem sofrida pelos países grandes produtores de grãos, estes ajustes, que agora ajudam a normalizar os preços destas outras categorias de carne, colaboraram também para tornar a bovina mais competitiva. Este é um fenômeno bastante significativo em um momento em que o consumo tende a aumentar, com o pagamento inicial do décimo terceiro salário já sendo realizado, o que motiva a população a consumir mais, e com a diminuição da oferta de gado decorrente do cessar definitivo das chuvas em grande parte das regiões produtoras de carne.

Outro fator que favorece a valorização da @ nas praças analisadas é o resultado expressivo que as exportações brasileiras vêm obtendo. Segundo informações da Scot Consultoria, no oitavo mês deste ano, apesar do embargo à carne bovina in natura ainda não solucionado, a Rússia importou US$ 88,6 milhões (21,8 mil t) do produto, o que representa uma alta de 62% sobre agosto de 2011. O Irã foi o segundo maior comprador (US$ 67 milhões e 14,3 mil t), seguido por Hong Kong (US$ 60,7 milhões e 17,4 mil t), Egito (US$ 57,2 milhões e 14,8 mil t) e Chile, que estreita cada vez mais suas relações comerciais com o Brasil, com US$ 41,6 milhões e 7,4 mil t. A lista TRACES, de fazendas aptas a exportar carne bovina para a União Europeia, desde o início do ano sob fiscalização do MAPA, contou, neste último mês, com 1.862 fazendas, sendo 11 no ES; 248 no MS; 431 no MT; 35 no PR; 171 no RS; 132 em SP; 375 em MG e 459 em GO. Estas são fazendas que integram a “cota Hilton”, que é o volume exportado ao bloco por preços especiais.

No Brasil, o ágio atual entre boi à vista e boi a prazo tem indicado boas perspectivas para os próximos meses, diante da situação atual do mercado. Dados parciais da Secex apontavam, até o fechamento desta edição, para um montante de 597.292 cabeças abatidas em setembro (dados quantitativos de abate sob responsabilidade dos SIPAs/ DFAs), sendo que no fechamento do mês de agosto foram computados os abates de 1.967.023 cabeças, o que indica, claramente, que estamos no período de redução de oferta de animais, típico da entressafra. Os valores médios pagos à vista para a @ do boi gordo (Brasil) foram de R$ 94,54 em São Paulo; R$ 89,52 em Minas Gerais; R$ 87,20 em Goiás; R$ 89,44 no Mato Grosso do Sul; R$ 84,38 no Mato Grosso; R$ 95,52 no Paraná; R$ 97,08 em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul, R$ 3,03/kg. Destas praças, novamente, SC e RS foram os únicos que sofreram suave desvalorização nominal de preços, provavelmente ainda devido ao uso das pastagens de inverno, que permitiram manter a oferta de gado constante e a indústria regional bem abastecida. Em São Paulo, o mercado físico atual, no final do período em questão, tem trabalhado na casa dos R$ 89,28/@, enquanto os contratos futuros apontam para R$ 98,40/@ em outubro (dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea, da ESALQ/USP). O gráfico da página anterior mostra a evolução dos preços da @ pagos a prazo nas diferentes regiões.

A média do deságio pago aos pecuaristas foi de 2,18%. Este valor representa um aumento de 4,78% em relação ao período anterior, em que a média da diferença entre os preços pagos pela @ à vista e a prazo, considerando-se todos os estados avaliados, ficou em 2,08%.

O preço médio do bezerro ficou em R$ 643,63, representando ligeira alta de 0,13% em comparação ao período anterior. No período atual, os preços médios pagos pelo bezerro nas praças avaliadas foram de R$ 680,42 em SP; R$ 570,83 em MG; R$ 642,92 em GO; R$ 661,25 no MS; R$ 630,83 no MT; R$ 710,00 no PR e R$ 609,17 no RS. Na categoria desmama, a maioria dos estados sofreu desvalorização de preços em relação ao período anterior, sendo Minas Gerais e Paraná os únicos que escaparam desta tendência e os responsáveis pela quase imperceptível valorização do preço médio pago pela categoria no país.

O boi magro apresentou média de preços de R$ 1.109,82 nos estados avaliados, representando alta em todas as regiões. Esta elevação foi de 2,40% em relação ao período anterior analisado e indica que, desta vez, a categoria mais erada dos animais de reposição teve maior valorização no mercado.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e o boi gordo ficaram em 2,32 para desmama/boi gordo (aumento de 4,5%) e 1,34 para boi magro/boi gordo (aumento de 2,29%).

Assim, é possível concluir que, com a chegada da entressafra, as coisas voltaram um pouco ao seu normal e o mercado, que há muito sofria com as pressões impostas pelos mais variados elos da cadeia e por fatores climáticos, conseguiu, no último mês, respirar um pouco mais aliviado. A margem de comercialização da carne em setembro já está 6,9% acima da média de 2011, mas, após as últimas quedas sofridas no fim de agosto e o início da valorização alcançado no inicio do mês de setembro, os preços sofreram certa estabilização e têm se alterado menos do que o esperado para a época do ano. O momento talvez exija um pouco de cautela e muito critério, para avaliar onde estão, de fato, as boas oportunidades.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil - Boviplan Consultoria