Leite

Dieta líquida para

BEZERRAS

Mara Helena Saalfeld*

Além da dieta líquida, as bezerras devem ser estimuladas a partir da primeira semana de vida a consumir alimentos concentrados de alto valor nutricional e volumosos, além de ter acesso à água de qualidade. Com este manejo, além da diminuição do custo da dieta, a transformação da bezerra em ruminante acontece mais precocemente. Para uma Leite criação mais econômica, é interessante que as fêmeas cheguem ao primeiro parto com dois anos de idade e com o peso de um animal adulto, a fim de que se tornem produtivas mais cedo e que a energia despendida para o crescimento seja voltada para a futura lactação. Para tanto, é fundamental ter a desmama precoce como objetivo de criação, já que o leite oferecido na dieta compromete a receita da fazenda.

O manejo das bezerras requer muitos cuidados especiais, entretanto neste artigo vamos conversar sobre alimentos líquidos. A primeira alimentação da bezerra é o colostro. Ele é a primeira secreção da glândula mamária e é responsável pela transferência de imunidade passiva ao recém- nascido, visto que o tipo de placenta dos bovinos não permite a passagem de imunoglobulinas.

Em bovinos, o colostro é fundamental para a sobrevivência da bezerra. O ideal é que o colostro fresco fornecido às bezerras contenha menos de 100.000 UFC / ml de bactérias totais e menos de 10.000 ufc / ml de coliformes totais. Os cuidados dispensados ao úbere e aos utensílios, quer sejam mamadeiras ou baldes, devem ser os recomendados pela Instrução Normativa 62, que trata de obtenção higiênica do leite.

Uma bezerra que sofreu com o trabalho de parto apresenta diminuição no reflexo de sucção, assim o produtor deve estar atento para que os animais recebam o colostro antes de oito horas de vida.

Depois de garantir a ingestão adequada de colostro de alta qualidade, a bezerra recém-nascida deve ser alimentada com o colostro e o leite de transição, até que a vaca passe a produzir o leite propriamente dito.

A partir deste momento, os produtores devem escolher um alimento líquido de qualidade. Uma grande variedade pode ser utilizada com sucesso para o desenvolvimento adequado das bezerras jovens. No Brasil e em vários países do mundo, cerca de 60% das explorações leiteiras utilizam substitutos do leite, entre eles o colostro. Em menor percentual está o uso de leite de vacas com mamite e de animais tratados com antibiótico ou vermifugos.

É necessária a introdução de dieta com concentrados e volumosos

Na verdade, o alimento de eleição deve ser o leite integral, pois possui todos os nutrientes essenciais e necessários para a criação correta da bezerra e está pronto para o consumo. Entretanto, é o alimento mais caro no custo final da criação. Para obtenção de lucro, os produtores procuram opções de menor custo, sendo que estes alimentos devem ser de qualidade e ter a capacidade de digestão pela bezerra.

A dieta líquida deve ser oferecida duas vezes por dia, sendo que a quantidade do alimento deve representar 4% a 5% do peso vivo. Quantidades em excesso levam ao aumento de casos de diarreia e outros problemas de saúde do animal. Durante os meses de temperatura fria, a quantidade de leite ou sucedâneo deve ter um aumento de 20-25% para compensar a crescente demanda de energia para manter a temperatura corporal. Pesquisas têm demonstrado que a exigência de energia aumentará em 30% a 50% durante a exposição ao frio.

Em relação à forma de oferecer o leite, pode ser com a utilização de mamadeiras ou em baldes. A vantagem da mamadeira é forçar a bezerra a beber devagar e, portanto, reduzindo o risco de diarreias ou outros distúrbios digestivos. É necessária a adoção de regras de higiene adequadas. Um bezerro pode ser ensinado a beber leite no balde em poucos dias após o nascimento. Esta técnica é simples, rápida e requer pouco trabalho de limpeza.

Em relação à temperatura do leite, é importante o controle nos primeiros dias de vida, mas o mais importante é que seja constante. Se o produtor alimenta as bezerras logo após a ordenha, o leite estará, em média, com 37 a 39ºC e assim deverá ser todos os dias. Temperaturas um pouco mais baixas podem ser também usadas para fornecimento de leite para bezerros mais velhos (25–30°C). Da mesma forma, pode se fornecer o leite na temperatura ambiente. O mais importante é não acontecer variações constantes de temperatura.

EXCESSO DE COLOSTRO E LEITE DE TRANSIÇÃO

As vacas costumam produzir colostro e leite de transição em excessso, acima do necessário para alimentar o bezerro recém-nascido nos primeiros dias de vida. Portanto, após a parição, até que o leite possa ser comercializado pode haver quantidades consideráveis de colostro e leite de transição disponíveis para alimentação das bezerras, que de outra forma seriam desperdiçados.

A quantidade produzida numa gestação pode não ser suficiente para a criação da bezerra até a desmama. Assim, pode se armazenar o colostro e utilizar quando houver o suficiente para criar corretamente um animal.

O colostro apresenta nutrientes em quantidades superiores ao leite , além de imunoglobulinas, vitaminas e substância bioativas.

O valor nutritivo do colostro já era conhecido antes da década de 50. Durante quase 100 anos, produtores e pesquisadores estudaram formas de utilização e armazenamento do colostro excedente. No entanto, disponibilidade, armazenamento e preservação foram grandes inconvenientes ao seu uso.

POOL DE COLOSTRO

Em muitas propriedades, o grande número de vacas em parição origina um grande volume de colostro. Embora a pesquisa recomende que os produtores devam evitar o pool de colostro fresco, pois isso pode aumentar o risco de transmissão de agentes infecciosos para mais de um bezerro, esta prática é comum. É utilizado colostro recolhido de varias ordenhas e com horas pós-parto diferentes, formando um pool para alimentação dos animais. Para sua utilização, alguns cuidados são necessários.

As bactérias presentes no colostro armazenado em temperatura ambiente podem começar a se multiplicar rapidamente. Isto pode ocorrer também no refrigerador, embora de maneira mais lenta. Se o colostro não for utilizado para o aleitamento dentro de 1-2 horas após a ordenha, deve ser rapidamente refrigerado (por até 48 horas) ou congelado.

Para formação de pool de colostro, é necessário que seja pasteurizado. Quando utilizado com fonte de imunoglobulinas, deve-se ter o maior cuidado com o aquecimento acima de 60ºC, pois pode acontecer desnaturação das imunoglobulinas.

PASTEURIZAÇÃO DO COLOSTRO

Os métodos convencionais de pasteurização utilizados para o leite não são adequados para o colostro. Podem causar desnaturação das imunoglobulinas, espessamento do colostro, ocasionando entupimento do equipamento. Uma correta pasteurização pode ser conseguida com tempo mais longo de aquecimento. Na maioria das situações, o aquecimento do colostro a 60°C durante 60 minutos em um pasteurizador comercial deve ser suficiente para manter as concentrações de IgG e características de fluidez, eliminando ou reduzindo significativamente patógenos importantes. Pesquisas tem demonstrado uma maior absorção de IgG em bezerros alimentados com colostro pasteurizado, relacionando esta melhoria à reduzida interferência bacteriana com a absorção de IgG pelo intestino.

Embora eficiente, estudos demonstraram que para ser viável à pasteurização, deve-se ter em aleitamento cerca de 300 bezerros. Em condições normais seria adequado para propriedades com 1.200 vacas. Embora esta prática não seja rentável para os laticínios menores, poderia se pensar em um sistema de pasteurização com uma localização central conveniente para fornecimento de leite pasteurizado para várias explorações.

RESFRIAMENTO E CONGELAMENTO DO COLOSTRO

O resfriamento e o congelamento são muito utilizados e preservam todas as características imunológicas e nutricionais do colostro in natura, entretanto, necessitam de geladeiras e freezers, o que consequentemente aumenta o custo de armazenamento. O interessante é congelar quantidades adequadas para cada alimentação e descongelar antes de cada mamada. Pode-se utilizar o descongelamento com água morna ou um forno de micro-ondas em baixa potência. Este manejo aumenta o trabalho do produtor, pois o descongelamento pode ser demorado. Sob resfriamento, o colostro pode ser armazenado por 48 horas e congelado por seis meses.

FERMANENTAÇÃO AERÓBICA

Por muitos anos, foi utilizada a fermentação de colostro em latões revestidos de plástico. Esta metodologia só é viável com aproveitamento do fermentado, em média, até 21 dias. A agitação diária do conteúdo é recomendada, bem como antes da utilização, tornando o produto mais uniforme. Este método produz um alimento de qualidade nutricional e aceitável para os bezerros, com ganhos de peso comparáveis aos de bezerros alimentados com leite integral, sem causar diarreia. Após 21 dias, a contaminação do colostro é grande e os animais não aceitam o alimento com facilidade. Pesquisadores relataram alopecia e diarreia com este tipo de armazenamento.

Com temperatura ambiente elevada, as fermentações são inadequadas, podendo frequentemente acontecer fermentações putrefativa, o que resulta em um produto inaceitável para os bezerros. Em meses de temperatura elevadas, alguns pesquisadores recomendam o uso de alguns agentes conservantes. Muitos conservantes foram testados, entre eles ácido acético, propiônico e fórmico e formaldeído. Estes conservantes químicos devem ser incorporados ao material fresco no momento do armazenamento. A necessidade de misturar e lidar com produtos químicos corrosivos e tóxicos ao colostro para evitar perdas resultou no desuso desta tecnologia. O uso do colostro acidificado caiu em desuso pelas dificuldades de adapação dos animais e pelo curto período de utilização. Para utilização, o colostro deve ser diluído em uma parte da água e duas partes de colostro leite de transição. O uso de água morna auxilia na diluição e na aceitação do alimento pelo bezerro e não afeta o crescimento do bezerro.

Silagem de colostro armazenada para alimentação para alimentação das bezerras

SILAGEM DE COLOSTRO

A silagem de colostro é uma metodologia de fácil execução, não requer equipamentos especiais e sem custos ao produtor. Basta colocar o colostro excedente em garrafas plásticas limpas e secas, enchendo completamente o recipiente para não deixar oxigênio. Fechar e armazenar em ambiente fresco para ocorrer a fermentação de forma anaeróbica pelo período de 21 dias. Após este período a silagem de colostro pode ser usada diluída com água morna 1/1. A recomendação é usar silagem de colostro das primeiras quatro ordenhas para bezerras até 30 dias de idade e das ordenhas de terceiro e quarto dia para alimentação de bezerras maiores.

Pesquisas demonstram que após 21 dias de fermentação a composição nutricional da silagem de colostro é adequada ao desenvolvimento dos bezerros. O processo de fermentação destrói as bactérias patogênicas, restando apenas lactobacilos vivos. Atualmente, é uma tecnologia difundida em todo o Brasil e oferece se- LLeeiittee gurança ao produtor, visto que elimina bactérias que ocasionalmente possam ter contaminado o colostro. Produtores relatam ganhos de peso significativamente maiores em animais alimentados com silagem de colostro comparativamente ao leite ou suscedâneos.

SUCEDÂNEOS COMERCIAIS

Sucedâneo do leite de alta qualidade podem ser excelentes alimentos líquidos para animais jovens, quase sempre sendo mais econômicos que o leite integral. Entretanto, desempenho inadequado é observado com sucedâneo de má qualidade, implicando em subnutrição da bezerra.

A comparação de desempenho entre o leite e substitutos do leite deve ser com base na igualdade de ingestão de nutrientes pelos animais. O leite contém quase sempre, substancialmente, mais gordura e proteína do que os sucedâneos comerciais. Muitas pesquisas demonstram maior ganho de peso em animais alimentados com leite em relação ao ganho de peso com sucedâneos comerciais (446 g/d e 289 g/d, respetivamente), leite e sucedâneo do leite. Poucos trabalhos com comparação direta de substitutos do leite estão disponíveis na literatura científica, e muitos autores citam que a diferença de peso inicial é recuperada na medida que o animal é desmamado. O que se pode observar é que muitos suscedâneos comerciais são à base de farelos vegetais e não são completamente digeridos pelo recém-nascido. As formulações são as mais diversas, contendo farelos de soja, milho, trigo ou arroz, óleos vegetais, vitaminas e sais minerais. O componente de origem láctea muitas vezes é o soro de leite desmineralizado, ou soro em pó. Assim sendo, a escolha do suscedâneo é de vital importância. Na maioria das propriedades, o custo do litro do suscedâneo está acima do lucro obtido pela venda de um litro de leite. Desta forma, não é uma troca benéfica. Devendo o produtor fazer cálculos e escolher a alternativa mais nutirtiva e mais econômica para criar bem as bezerras leiteiras.

LEITE DE DESCARTE

O leite das vacas após tratamento com antibióticos para mastite ou outras doenças bacterianas não pode ser vendido e deve ser descartado, representando perdas econômicas aos produtores e problemas ambientais. A pesquisa tem recomendado a utilização deste leite para alimentar bezerras. Todavia, deve ser oferecido somente aos bezerros que estão alojados individualmente, para prevenir a transmissão de organismos infecciosos por meio da sucção da glândula mamária entre animais, podendo ocasionar mamite na primeira lactação da novilha. Leite com sangue, contendo coágulos ou outra secreção anormal, não deve ser fornecido aos bezerros, pois existe a probabilidade de concentração de grandes quantidades de patógenos microbianos. O ideal é não oferecer para as bezerras o leite das duas primeiras ordenhas pós-aplicação de antibiótico. Pesquisas demonstram que as taxas de crescimento e incidência de diarreia em bezerras alimentadas com leite de vacas com mastite, antes ou durante tratamento com antibiótico, são semelhantes aos dos animais alimentados com leite.

O ideal é o controle mastite e a busca por excelentes programas de saúde que minimizem a quantidade dos resíduos produzidos.

DE BEZERRO A RUMINANTE

Ao nascimento, o sistema digestivo de uma bezerra funciona como um estômago de animais monogástricos. O abomaso é o único estômago completamente desenvolvido e funcional, pois o sistema digestivo não está completamente desenvolvido. Na primeira semana de vida, apenas alimento líquido pode ser utilizado efetivamente por bezerros préruminantes. Até 45 dias, o animal precisa de proteína de origem láctea, visto que o sistema proteolítico do animal não consegue digerir alimentos de origem vegetal. Durante os primeiros meses de vida, conforme a alimentação recebida, o estômago sofre grandes modificações. Quem decide o tempo que vai levar para o bezerro tornar-se um ruminante é o nutricionista. A água deve estar disponível desde o nascimento e com livre acesso do animal. A presença da água no rúmen vai favorecer o desenvolvimento da microbiota ruminal.

Um dos objetivos atuais da atividade leiteira é tornar o bezerro ruminante com maior brevidade possível. Assim, com uma semana de vida, são introduzidos alimentos sólidos na dieta do animal. Para obtenção de taxas de crescimento de 500 a 600 gramas por dia (Jersey e Holandês, respectivamente), é necessária a introdução de dieta com concentrados e volumosos. Com isso, cria-se bezerras saudáveis, com crescimento ósseo adequado e evita-se o desenvolvimento retardado do rúmen por fornecer apenas grandes quantidades de leite por muito tempo.

Além da alimentação líquida adequada, deve-se estabelecer um plano adequado de alimentação sólida, bem como medidas sanitárias e preventivas para reduzir os gastos com medicamentos e a taxa de mortalidade. O estabelecimento de metas (peso na desmama e aos seis meses de idade) é uma ferramenta que auxilia o produtor a acompanhar o desenvolvimento dos animais, identificando pontos de estrangulamento e facilitando a tomada de decisões.

A vaca leiteira de qualidade é consequência de uma bezerra criada corretamente.

*Mara Helena é médica-veterinária da EMATER-RS-ASCAR e doutoranda em Biotecnologia pela UFPel-Pelotas/RS