Caindo na Braquiária

 

Menos hora extra e melhor qualidade do rebanho

Alexandre Zadra - Zootecnista

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Tão logo imobilizávamos a vaca no brete do projetão através da pescoceira e da guilhotina no vazio, um dos peões no antigo CIZIP (FZEA – Campus de Pirassununga) já amarravam a cabeça, expondo o pescoço da mesma para que pudéssemos coletar o sangue analisado e estudado pelo Dr. Edi Hoffmann Madureira.

Hoje, professor da USP e um dos maiores cientistas da área de reprodução, Dr. Edi iniciava nos idos de 87 seu mestrado na área, quando pesquisava a correlação existente entre a fisiologia e a anatomia das matrizes do rebanho, através da palpação dos ovários e da medição do nível de progesterona e estrógeno nas diversas fases do ciclo estral. Esse foi um dos importantes trabalhos de pesquisa que juntamente a outros não menos importantes nortearam o entendimento da acendrada fisiologia reprodutiva das raças tropicais.

Em meados de 88, eu já definira o gado de corte como a área da Zootecnia que me especializaria, quando, após um curso de I.A. na Lagoa da Serra, fui convidado pelo professor Dr. Paulo Pinto e por Euclides Martins, zootecnistas responsáveis pelo Projetão, para fazer a inseminação do rebanho. Ali, aprendi o manejo de aparte das matrizes, inseminando mesmo com pouca experiência. A Inseminação Artificial tornou-se para mim o propulsor profissional que eu necessitava, me arremetendo a fazendas de amigos da Zootecnia para implantar durante as férias a técnica em seus rebanhos. Alguns manejos reprodutivos eram experimentados para se minimizar o tempo de puerpério, tais como a mamada controlada, na qual os bezerros das matrizes em reprodução ficavam apartados das mães, sendo trazidos para a mamada somente uma vez por dia, até que a mãe fosse inseminada. Outro manejo muito utilizado era (e ainda é) o Shung, cuja cria era separada da mãe por 36 a 48 horas, sendo ainda aplicada a massagem uterina. Todo esse manejo exigia uma ótima tropa para ser revesada a cada 15 dias com o objetivo de diminuir desgaste dos animais. Isso tudo sem contar com a necessidade do pagamento de hora extra aos inseminadores, que trabalhavam sem folga nos finais de semana durante a estação de monta, gerando estranhamente uma diminuição das vacas inseminadas nos finais de semana e nos feriados de final de ano.

Já na década de 90 os criadores gaúchos utilizavam prostaglandinas no rebanho, realizando, assim, a sincronização de cio das matrizes com corpo lúteo desenvolvido, o que garantia um número maior de vacas ou novilhas inseminadas no início da estação.

Era meados de 2000, quando chegavam ao mercado os implantes hormonais auriculares, os quais caíram no gosto dos veterinários que trabalhavam com TE, utilizando-os na sincronização das receptoras. Mesmo tendo um preço nada comercial, seu uso na TE de alto valor agregado se tornava viável. Passadas duas décadas dos primeiros estudos da fisiologia reprodutiva nos trópicos, desembarcavam no Brasil os primeiros implantes intravaginais e protocolos utilizando ECG, que tão logo seriam usados comercialmente. A técnica fora batizada de IATF. O Brasil tornou-se um dos países que mais aderiu à IATF, adquirindo conhecimento profundo dos detalhes que influenciam nos resultados da mesma, tais como manejo reprodutivo e escore corporal do rebanho, época de estação de monta, categoria das matrizes, bem como a diferença entre sêmen na IATF. Rebanhos que já realizam a IATF por muitos anos já procuram fazer a resincronização, incrementando a produção através da IATF de pouco mais de 50% de animais nascidos de IA para os possíveis 75% a 80% de bezerros de sêmen de touros provados.

Surge nesse momento uma indagação importante de alguns plantéis que fazem seleção e justificam a não adesão à técnica da IATF. “Quando fazemos seleção para fertilidade, descartamos as matrizes vazias ao final da estação de monta. Com o uso da IATF, não mascaramos a infertilidade ou subfecundidade das matrizes?”. A meu ver, essa pergunta vem a calhar quando pensamos em rebanhos avozeiros, pois precisamos realmente garimpar os indivíduos naturalmente melhores e disponibilizar seus genes superiores pelo rebanho nacional através da IA. No entanto, quando visamos a pecuária eficiente e lucrativa, devemos lançar mão de todas ferramentas tecnológicas disponíveis, sendo a IATF uma das mais profícuas armas para o incremento da produção de animais F1, reconhecidamente muito eficientes para a pecuária moderna.

Não podemos deixar de citar também a contribuição da IATF para o aumento dos preços médios de touros avaliados para repasse da IATF, visto que os criadores comerciais vêm investindo na aquisição desses reprodutores superiores, buscam a cada dia diminuir a diferença existente entre o produto F1 da IATF e o bezerro nascido de monta natural.

E, por fim, surge a TETF (transferência de embrião por tempo fixo), que vem preconizando a implantação em nível comercial de embriões F1, produtos de matrizes e touros provadíssimos, no lugar de se inseminar nossas matrizes comuns com sêmen de touros provados. A TETF, na minha ótica, vem ao encontro da ideia de se gerar um rebanho F1 ad aeternum, ou seja, ao implantarmos um embrião F1 numa matriz F1, logramos os efeitos da heterose máxima no bezerro e na matriz, produzindo com a máxima eficiência possível nos trópicos. É a IATF cooperando na busca da pecuária eficiente e sustentável.