Do Pasto ao Prato

 

POR QUE DEVEMOS APOSTAR EM CARNE DE QUALIDADE?

No final de agosto, fiz uma palestra no tradicional seminário da associação de Angus durante a Expointer 2012. O evento trouxe uma série de estudos de caso sobre marcas de carne com produto Angus. Eu fiz uma das palestras da abertura do evento, com enfoque no mercado atual, perspectivas e nos motivos pelos quais acredito que apostar em qualidade e em marcas será muito lucrativo daqui em diante.

Eu acompanho, estudo e me interesso por marketing de carne bovina há mais de dez anos. Tenho um grande arquivo de materiais sobre o tema em todo o mundo e tenho participado ativamente de eventos. Eu acredito muito que a pecuária precisa pensar mais em marketing, inclusive de uma forma mais ampla. Precisamos contar nossa história. Precisamos relembrar nossos clientes que carne faz parte de uma dieta saudável. Precisamos trabalhar em inovação e na criação de novos produtos.

O primeiro motivo do porquê devemos apostar em carne de qualidade é a concorrência. Carne bovina é mais cara. Isso já é verdade há bastante tempo e vai continuar assim. É provável que fique proporcionalmente mais cara daqui em diante. O frango se especializou em transformar milho e soja em proteína animal de baixo custo. A indústria de aquicultura está rapidamente se profissionalizando e crescendo. Para cada dois quilos de carne bovina, ovina, suína e de frango, consumidos no mundo, há um quilo de peixe. Ou seja, 33% de toda carne consumida no mundo é de peixe, e temos nos esquecido desse importante concorrente.

E novidades tecnológicas virão nos próximos anos. Já temos pesquisadores e investidores trabalhando para criar uma impressora 3D de carne bovina. Parece uma completa loucura, mas em 10 anos é muito provável que se torne realidade. Mas será que o sabor vai ser o mesmo? Será que o prazer será o mesmo? Eu acho improvável.

A briga da carne barata já perdemos. Mas a do sabor e da experiência de consumo estamos ganhando há décadas e podemos ganhar ainda mais. Eu mostro uma foto de um belíssimo steak, e todo mundo fica com água na boca. Ninguém no mundo deixa uma carne de alta qualidade de lado e escolhe um prato com frango. Enquanto frango significa preço baixo, boi representa sabor.

Produzir boi é caro, difícil e demorado. Falamos pouco nisso no Brasil, pois somos muito bons em produzir boi de corte. Muitos outros países estão diminuindo produção de gado por não ter os mesmos recursos e a mesma eficiência nossa. Alguns já descobriram que custa muito dinheiro, tempo e esforço produzir proteína vermelha.

Como podemos ganhar dinheiro produzindo algo caro? A resposta está em vender qualidade, sabor e experiência. O consumidor prefere carne. Quando pode escolher, quando tem dinheiro no bolso, quando quer comemorar, a escolha é sempre carne bovina.

Outro ponto positivo para o Brasil é que o preço alto se origina da escassez. Quanto mais os outros países acharem difícil produzir boi, melhor para nós. Países como China e Rússia tentam ser autossuficientes em produção de carnes. É provável que vão conseguir com frango e suíno. Apesar de não ser impossível, vai ser muito, mas muito difícil se tornarem em carne bovina. Não faz sentido em relação a recursos necessários como área e água.

A primeira pergunta que surge quando se mostra essa tendência é: tem mercado para isso? A resposta é sim. E melhor do que isso, um mercado crescente.

O aumento de renda dos países emergentes não aumenta apenas a classe média. Aumenta também as classes A e B. Na China, o mercado de luxo será de US$ 27 bilhões em 2015. No Brasil, espera-se que o mercado de luxo cresça 25% neste ano. Em 2005, havia 26 milhões de brasileiros nas classes A e B. Em 2010, eram mais de 42 milhões de pessoas. Ou seja, tem muito mais gente consumindo mais e melhor. As classes A e B consomem mais e, principalmente, melhor. Quer qualidade, sabor e experiência.

Além disso, donos de lojas de cortes especiais contam que vendem carne por R$ 30-40/kg para consumidores da classe C. Em ocasiões especiais, todo mundo quer comer uma carne realmente especial.

Outros produtos já descobriram esse mercado que preza pela qualidade e pelo sabor. Sou um apreciador de melão, e acho muito frustrante provar um melão sem gosto, sem doce, parecido com um isopor. Um produtor resolveu tratar esse mercado de forma diferente. Criou uma embalagem diferenciada (e simples), uma redinha. Colocou um nome, uma marca. E colou um adesivo garantindo que o melão era doce e saboroso. Esse melão é bem mais caro que o “comum”, pelo menos R$ 1 a mais por quilo, num produto que custa menos de R$ 5/kg. Ou seja, um sobrepreço de 20% ou mais. O mais incrível é que é vendido nos mais diversos locais. No varejo de luxo de São Paulo, que está acostumado a encontrar produtos especiais, e em um pequeno supermercado de São Miguel do Araguaia, no norte de Goiás, onde minha família tem propriedade. Ou seja, mesmo em cidades pequenas tem mercado para produtos premium.

Outro ponto interessante é que muita gente considera essa ideia nova. Mas já é bem antiga. Em 1978, há 34 anos, a associação de criadores de Angus dos EUA criou uma marca de carne, a Certified Angus Beef. É a principal daquele país, um exemplo de sucesso e uma inspiração para inúmeros outros projetos de marcas de carne bovina de outras raças e de outros produtores.

É importante lembrar que a qualidade vai sair cada vez mais de dentro da fazenda. O frigorífico pode manter a qualidade. Mas é impossível (ou quase) fazer uma carne boa com um boi ruim. O contrário (boi bom virar carne ruim) é possível. Ou seja, se você tem vergonha do que faz dentro da fazenda, isso vai ser cada vez mais um problema. Se você tem orgulho, será uma oportunidade para ganhar mais, além da eficiência produtiva promovida.

Existem inúmeras marcas de luxo. Na grande maioria, da cidade. Precisamos desenvolver os luxos do campo. Há um enorme mercado. Mas será preciso vontade, coragem e proatividade. Ninguém virá pedir ou garantir alguma coisa. Será preciso arriscar. Podemos criar marcas e produtos de luxo do campo que entreguem sabor, confiança e orgulho de ser do agro, de ser do campo.

Esse ano, o BeefPoint fez algumas viagens internacionais de estudo, como faz desde 2002. Fomos a congressos nos EUA e na Europa. Além disso, fizemos nossa primeira viagem técnica, para a Austrália, com 26 pessoas. Em todas essas oportunidades, fica muito claro que há muita, muita coisa boa acontecendo no Brasil, que pode ser mostrado com orgulho para o mundo. E fica claro também que podemos avançar muito mais. O Brasil, em pecuária, é o grande destaque mundial, que mais pode avançar, em todos os segmentos.

Para finalizar, gostaria de deixar como reflexão, uma frase do grande pensador da administração Peter Drucker: “Para ter um negócio de sucesso, alguém, algum dia, teve que tomar uma atitude de coragem”.

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)