O Confinador

 

COMPOSIÇÃO CORPORAL DE BOVINOS E EFICIÊNCIA DE PRODUÇÃO ANIMAL

Rodrigo Goulart*

No intuito de melhorar os índices produtivos na bovinocultura de corte, produtores brasileiros cada vez mais visam adotar tecnologias que geram aumento na produtividade e na eficiência econômica de produção. Este comportamento é justificado pela crescente competição dentro do setor pecuário, assim como de outros setores envolvidos na produção de carne bovina.

Com um sistema de produção alicerçado na exploração de pastagens tropicais, por meio de sistemas extensivos de exploração, o desempenho dos bovinos sempre acompanha a curva de crescimento do pasto, sendo dependente da disponibilidade e do valor nutritivo da forragem ofertada. Assim, em decorrência dos efeitos da oferta sazonal de forragem durante o ano, a pecuária de corte nacional ainda sustenta níveis produtivos pouco convincentes.

Nesse cenário, o objetivo final em propriedades rurais que visam a produção de carne envolve, de modo geral, mudanças nas curvas de crescimento do animal, buscando alterar ou “encurtar” pontos importantes desta curva, representados principalmente pela idade de abate do animal, o peso e a composição corporal ao abate, de forma mais rápida e econômica possível.

Usualmente, o crescimento animal é definido como o aumento da massa corporal por meio da produção de novas células (tecido ósseo, tecido muscular, tecido adiposo e órgãos internos). Assim, o crescimento, que é normalmente medido em função do aumento da massa corporal do animal, inclui não somente a multiplicação de células (hiperplasia), mas também o aumento no tamanho da célula (hipertrofia).

Os principais componentes químicos do corpo de um bovino são água, gordura, proteína e minerais, sendo que em animais a presença de carboidratos é desconsiderada, devido a sua constância e baixo teor (ao redor de 0,7% na matéria seca). Trabalhos científicos demonstraram que a quantidade de água diminui e que os conteúdos de cinza e proteína aumentam no corpo dos bovinos aproximando-se da maturidade. Assim, animais mais jovens têm maior proporção de água e menor de gordura, de modo que as concentrações de proteína, cinzas e água decrescem com a aproximação do peso maduro do animal. O peso maduro (ou peso adulto) é alcançado quando o ganho de peso passa a ser composto exclusivamente por gordura, não havendo então acréscimos na deposição de proteína, água e minerais (Figura 1). Portanto, pode-se dizer que o processo de engorda, realizado tanto em sistemas de pastagem ou em confinamento, é uma substituição de água por gordura.

Quando um animal é alimentado à vontade com dieta contendo níveis adequados de proteína, energia e minerais, seu crescimento é caracterizado por uma curva sigmoide (em forma de “S”), contendo ao final uma fase de desaceleração conforme esse animal começa a atingir o peso maduro. Em outras palavras, esta fase é representada por limitado aumento da deposição de proteína e aumento da deposição de gordura no corpo do animal.

Em termos nutricionais, a deposição de proteína é menos eficiente energeticamente

Normalmente, no Brasil, bovinos são abatidos com cerca de 50% do peso adulto do macho inteiro de genótipo correspondente. Assim, diferentes genótipos e diferentes sistemas de produção geram animais com pesos e idades de abate distintos.

O termo precocidade de terminação é utilizado para caracterizar animais que atingem composição corporal adequada ao abate a uma idade jovem. Esta composição, definida pelo mercado, pode ser estimada pela espessura de gordura subcutânea.

Vale ressaltar que em sistemas de produção de carne, o grau de acabamento do animal no momento do abate é função de um grande número de variáveis, entre elas peso, tamanho corporal e sexo. Em outras palavras, para se abater bovinos de diferentes sexos em um mesmo grau de acabamento, é preciso entender que machos não castrados deverão ser abatidos mais pesados que machos castrados e machos castrados mais pesados que novilhas (tabela 1).

A tabela 1 ilustra claramente que animais de maior tamanho corporal são mais eficientes apenas quando abatidos ao mesmo peso, pois depositam menos gordura no ganho quando comparado com animais de tamanho corporal médio ou pequeno. Entretanto, quando o abate é realizado para produção de uma carcaça semelhante (28% de gordura corporal), animais de menor tamanho corporal e dentro do mesmo sexo são mais eficientes, pois são efetivamente mais precoces. Assim, parece mais lógico avaliar animais pelo segundo critério de abate, quando estes produzem um mesmo produto.

Recentes estudos indicam que melhoradores de desempenho animal, como os beta-agonistas, por exemplo, elevam o conteúdo proteico do ganho de peso diário, elevando, dessa forma, o peso final do bovino quando comparado a um mesmo grau de acabamento e mesmo tamanho corporal.

Um dos mais importantes fatores para determinação do peso de abate é a eficiência de ganho de peso nas diversas fases da curva de crescimento. Assim, quanto maior a taxa de ganho, maior é a eficiência de conversão em função da diluição das exigências de mantença, que são relativamente constantes.

Quando se menciona eficiência de ganho, é importante definir qual a eficiência a que se refere. Nutricionistas muitas vezes estão preocupados com a eficiência energética, ou da transformação de energia da dieta em energia dos tecidos corporais depositados. Esta eficiência é expressa em megacaloria (Mcal) depositada/Mcal de alimento ingerido. Quanto maior a proporção de gordura no ganho, maior a eficiência energética de deposição de tecidos. Entretanto, para produtores e/ ou confinadores, a eficiência de maior importância é geralmente a conversão alimentar, também chamada de eficiência bruta de conversão, expressa em kg de ganho de peso ou de carcaça/kg de alimento ingerido.

Em termos nutricionais, a deposição de proteína é menos eficiente energeticamente (Mcal/Mcal), porém, é mais competente em termos de peso de tecido depositado (kg de músculo/Mcal ingerida), uma vez que para cada unidade de ganho de proteína, aproximadamente, três unidades de água são depositadas em associação. Assim, a deposição de peso corporal na forma de músculo é cerca de quatro vezes mais eficiente que a deposição de tecido adiposo (2,8g para 0,7g de tecido/10 kcal, respectivamente) e esta informação é realmente o que interessa ao produtor.

Para Rodrigo Goulart, é importante acompanhar desempenho dos animais na evolução da curva de crescimento

Por outro lado, para técnicos em qualidade de carne e frigoríficos, o conceito de eficiência mais importante é a de kg de carcaça comestível ou músculo aparado/R$ de carcaça comestível + frete, processamento, distribuição e impostos. Como mencionado, identificar esta eficiência de produção de músculo por R$ gastos no sistema de produção requer que toda a cadeia produtiva seja avaliada.

Assim, a busca por melhores índices produtivos na bovinocultura de corte pelo pecuarista sempre esteve ligado a agentes econômicos que influenciam diretamente a decisão final.

Este comportamento faz com que, na maioria das vezes, princípios de cunho técnico sejam negligenciados pelo produtor em virtude do custo de produção final. Além disso, por ser uma decisão quase que única do frigorífico quanto à definição do peso, da composição de carcaça e do valor pago ao produtor, não levando em conta parâmetros técnicos e mercadológicos de produção e qualidade, o produtor encontra-se desestimulado em produzir carcaça dentro de certos padrões de acabamento e peso. Dessa forma, esforços conjuntos entre centros de pesquisa, frigoríficos e produtores devem ser cada vez mais estimulados no intuito de identificar a composição da carcaça que atenda às exigências de cada mercado e, daí, identificarem os animais e o sistema de produção que aumentariam a eficiência do processo produtivo como um todo. Em termos mercadológicos, o grande interesse será estabelecer o teor de gordura corporal no momento do abate, envolvendo a premiação ou a não premiação para o produtor em cada mercado. Em termos biológicos, é necessário compreender que a eficiência de produção animal é definida pela taxa de ganho e pela composição química deste ganho.

*Rodrigo Goulart é PhD e gerente Técnico Zilmax da MSD Saúde Animal


Lavoura x Confinamento x Pastagem

Daniel Rodrigues*

Esse foi o ano da soja. Apesar das perdas de produtividade em diversas lavouras, devido à falta de chuva, o preço em algumas regiões produtoras bateu os R$ 60,00/sc. Do lado do pecuarista, o cenário ainda está se formando. Arroba estava em queda, preços elevados do farelo de soja, mercado futuro patinando e poucos compradores na ponta. O fôlego foi o milho, que nos últimos meses chegou a cair mais de 25%. A boa distribuição de chuvas no período de safrinha favoreceu a produtividade, aumentando a oferta no curto prazo. Nesse caminho, o sorgo também veio com força total.

Nesse cenário, ressaltamos a importância da integração entre pecuária e agricultura, no que tange a diversificação de capital e o melhor aproveitamento do uso da terra. Dentre as diversas possibilidades de integração e/ou diversificação, o plantio consorciado Milho x Pastagem é uma excelente alternativa para pecuarista e agricultor. As arrobas extras produzidas e o uso do grão na engorda intensiva melhora substancialmente a receita da propriedade.

A imagem mostra o momento da colheita do milho consorciado com Brachiaria brizantha cv. Marandu. A propriedade em questão está localizada em Goiás, na região do Vale do São Patrício. A produtividade alcançada foi de 6 ton/ha, ou 102 sacos/ha para ser mais exato. Após a colheita, a área foi pastejada por 60 dias com taxa de lotação de 4,5 U.A/ha. O ganho de peso médio diário, medido na propriedade, foi de 600 g/cab/dia, o que permitiu, no final do período de pastejo, a produção de 5,[email protected]/ha. Nos valores atuais da arroba em Goiás (entre R$ 84,00 e R$ 86,00/@), uma receita extra de R$ 467,00/ha. Ou seja, apesar do menor preço do milho, como exposto anteriormente, a produção de @ na área dilui os custos de produção e pode trazer lucro para o produtor.

Bom, voltando ao confinamento, as contas também são interessantes. Na região, o garrote de [email protected] era negociado a R$ 900,00/cb ou R$ 90,00/@ entre abril e maio. A garrotada de [email protected] entrou para pastejo da “palhada” e ganhou 35 kg/cb no período (60 dias de pastejo), passando para 11, [email protected] (300 kg de peso vivo na entrada + 35 kg de ganho na pastagem). Com isso, houve redução no valor da @ de entrada em confinamento para casa dos R$ 80,00. Os custos de produção da lavoura integrada ficaram em R$ 1.500,00/ha, ou R$ 15,00 por saco de milho produzido. Na região, o grão está sendo vendido entre R$ 20,00 e R$ 23,00/sc, ou seja, uma economia de 35% em um ingrediente que compõe mais de 70% da dieta dos animais confinados.

Um aspecto importante a salientar: o pasto não ficou “rapado”! Foi possível, por meio do manejo do pastejo, manter a cobertura vegetal do solo e, consequentemente, proteger contra a erosão eólica, muito frequente nessa época do ano.

Colheita de milho consorciado com B. brizantha cv. Marandu em Goiás.

Outro ponto a ser observado é que, devido às perdas de colheita, algo ruim para o agricultor, mas inevitável, a dieta da boiada em pastejo é acrescida com grãos de milho, sendo confirmado pela presença dos mesmos nas fezes. Nada melhor que fazer uma adaptação a maior quantidade de amido no rúmen antes da entrada em confinamento. Nesse sentido, o ganho de peso é incrementado, ocorrendo redução no número de animais com acidose.

*Daniel Rodrigues é agrônomo, mestre em Ciência Animal e Pastagem e consultor da Coan