Feno & Silagem

 

Faltam MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS

Dificuldades recaem sobre a produção de silagem

Rafael Camargo do Amaral*

Recentemente, o Departamento de Zootecnia (DZO) da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e o site MilkPoint realizaram um levantamento sobre as práticas de produção e uso de silagens no Brasil, o qual pode ser acessado por meio do seguinte link: http://www.milkpoint.com.br/pdf/EBOOK-SILAGEM.pdf.

Nesta pesquisa, diversas perguntas sobre a confecção e o fornecimento de silagem foram feitas aos pecuaristas e técnicos. Ao final do questionário, eles teriam que apontar as principais barreiras ou limitações que encontravam durante o processo produtivo. Dezenas de aspectos foram relatados, mas um deles chamou a atenção e se destacou em relação aos demais: a falta de equipamentos para executar as operações, desde o plantio da cultura até o desabastecimento do silo.

Cerca de 41% dos produtores dependem dos serviços de terceiros ou até mesmo do empréstimo de máquinas de outros pecuaristas e/ou prefeituras (Figura 1, página 35). Como muitos não possuem equipamentos próprios, a colheita, em geral, ocorre de forma precoce ou tardia. Em ambos os casos, há efeitos negativos à logística da fazenda, bem como no valor nutritivo da silagem e no desempenho dos animais que virão a ser alimentados com o volumoso.

Vale lembrar que a silagem, quando colhida com teor de matéria seca abaixo de 30%, tem elevada probabilidade de produção de efluentes, “o famoso silo chorando”. Esse “choro”, nada mais é que grande parte dos nutrientes de alta digestibilidade sendo jogados fora. Além disso, a elevada umidade permite que os ácidos produzidos ao longo do processo de fermentação sejam diluídos e a acidificação da massa seja prejudicada. Ou seja, nesse tipo de silagem os valores de pH são elevados. Ainda depreciando a qualidade da silagem, classes de bactérias indesejáveis iniciam fermentações secundárias, gerando grandes perdas de matéria e afetando a qualidade sanitária.

Quando a forragem é colhida em estádio avançado de maturidade (acima de 35%), a quantidade de carboidratos solúveis na planta já decresceu e isso afetará diretamente a fermentação, pois são os carboidratos solúveis o principal “combustível” para a fermentação da silagem.

Outro ponto de grande destaque é que quando o teor de matéria seca da planta se eleva a homogeneidade de partículas pode ser afetada, gerando quantidade excessiva de palhada. Este será um dos fatores que afetarão a densidade da massa de forragem acondicionada no silo. Aqui dois pontos são prejudicados:

1) menor densidade, o que afetará o início da fermentação e a quantidade de produto armazenado e 2) a presença de palhada, futuramente, poderá ser um problema na formulação de dietas. A falta de homogeneidade de partículas na dieta causa seleção por parte dos animais e isso poderá implicar em redução da produção e distúrbios metabólicos. Essa pode ser uma das explicações que sempre é mencionada por nutricionistas, “a dieta formulada nem sempre é a dieta que está no cocho, como nem sempre é a dieta que o animal consome”.

Um ponto fundamental que se deve levar em consideração para a máquina que está colhendo a forragem, se refere à qualidade do equipamento que realiza o serviço, bem como, qual é a qualidade do picado da máquina.

No Brasil, nós temos dois tipos básicos de máquinas para a colheita da planta de milho, as que são acopladas ao trator (colhem uma ou duas linhas) e as automotrizes (colhem de quatro a oito linhas), que vêm ganhando espaço no mercado nacional, por serem utilizadas na terceirização de serviços.

A regulagem “teórica” do tamanho de partícula da forragem nestes dois modelos pode variar de 0,8 a 3 cm. Porém, é importante ressaltar que em algumas fazendas o tamanho de partícula observado ultrapassa os 10 cm. Isso por falta de manutenção nos equipamentos (afiamento e ajuste de facas e contra facas). Também é muito comum a observação de grãos inteiros nas fezes de animais alimentados com silagem de milho, sendo que apenas parte do problema pode estar associada ao estágio de maturação dos grãos. O tipo de colhedora e o cuidado que é dedicado a ela são os grandes responsáveis por este tipo de perda.

As automotrizes, além de possuírem dispositivo para romper os grãos, também apresentam um sistema de regulagem (grão mais ou menos quebrado), contudo, nas colhedoras nacionais de menor porte este dispositivo nem sempre está presente.

Confecção de silagem ainda é muito dependente de mão de obra

Trabalhos mostraram que não houve efeito do tamanho de partícula entre 0,95 e 1,9 cm sobre a produção de leite. Estudos também indicaram que o tempo de ingestão, mastigação e ruminação não foi afetado pela diferença do tamanho de partícula quando a silagem de milho foi inserida como parte da dieta total. Todavia, é extremamente importante recordarmos que o tamanho de partícula influencia na compactação da silagem. Tamanhos superiores a 1,5 cm podem resultar em silagem com baixa densidade, sobretudo, nas camadas periféricas do silo e quando a forragem apresenta concentração de matéria seca superior aos 35%.

Com relação à ação do dispositivo para romper os grãos, os efeitos sobre a ingestão e produção de leite foram bastante evidentes. Autores americanos verificaram efeito positivo sobre o consumo (25,9 vs. 25,3 kg de MS/dia) e sobre a produção das vacas (46,0 vs. 44,8 kg/dia), quando estas foram alimentadas com silagem de milho que apresentavam ou não os grãos quebrados. O efeito do rompimento dos grãos parece ser devido ao aumento na digestibilidade do amido, que passou de 95,1% para 99,3% nas silagens com grãos quebrados. Alguns estudos confrontando a presença ou não de grãos quebrados mostraram que o aumento na produção pode variar de 0,2 a 2 kg de leite/vaca/dia.

Portanto, a aplicação de tratamentos à forragem no momento da ensilagem tem como objetivo melhorar as características do processo de conservação, visando não só diminuir as perdas, mas também obter um produto de valor nutritivo elevado que permita maior consumo e consequente desempenho animal favorável. A colhedora de forragem que está sendo utilizada e a manutenção que é direcionada a ela será essencial para o desempenho do rebanho. Lembre-se que durante a ensilagem de milho, a maioria dos grãos deverá sofrer pelo menos uma fragmentação, decorrente da ação mecânica do equipamento e que o ajuste de máquinas dentro da propriedade não custa dinheiro, apenas um pouco de tempo e paciência.

Em outro estudo realizado pelo DZO/UFLA, o qual reuniu 43 produtores de leite do Sul de Minas Gerais (segunda maior bacia leiteira do estado), os resultados mostraram que o cenário é semelhante ao encontrado na pesquisa em nível nacional (Figura 2). Neste levantamento, além dos serviços terceirizados e próprios, o empréstimo de máquinas (prefeituras e vizinhos) também foi considerado. Somente 21% das propriedades possuíam todos os equipamentos para as operações na ensilagem. Os demais pecuaristas terceirizam (totalmente ou parcialmente) os serviços ou dependem do empréstimo dos equipamentos.

Embora o uso da mecanização seja menos problemático na etapa de fornecimento da silagem, o primeiro levantamento mostrou também que o desabastecimento manual ainda é o mais utilizado nas fazendas (85%). Apenas 15% fazem uso de máquinas para desabastecer o silo.

Percebe-se que as fazendas zootécnicas brasileiras que produzem e utilizam silagem são carentes quanto ao uso de máquinas e equipamentos. Este cenário evidencia que as propriedades ainda são muito dependentes de mão de obra. Contudo, este é um aspecto que também tem gerado problemas nos últimos tempos, pois a cada dia tem se tornado mais difícil encontrar pessoas disponíveis e capacitadas. Desse modo, a mecanização acaba sendo uma tendência na agropecuária.

Segundo Rafael Amaral, quando o teor de matéria seca da planta se eleva, a homogeneidade de partículas pode ser afetada

Possivelmente, a descapitalização dos pecuaristas seja o principal entrave na aquisição de máquinas. Políticas governamentais, por meio da redução de impostos e financiamento, e o associativismo entre os produtores são formas que poderiam atenuar o problema, principalmente quanto à compra de equipamentos para a colheita da cultura, pois esta é a etapa que inicia o processo produtivo de silagens. Erros cometidos nesta fase são irreparáveis, pois as etapas subsequentes são dependentes da mesma.

Quando se trata de culturas anuais, o escalonamento do plantio também pode ser uma alternativa para contornar a falta de máquinas, pois a colheita ocorreria em etapas. Entretanto, em alguns casos, as colheitas intermitentes podem dificultar a logística pela demanda de equipamentos em períodos distintos.

A terceirização vem crescendo e será o caminho das fazendas zootécnicas no Brasil, contudo, muitas empresas terão que melhorar a qualidade dos serviços prestados para que a ensilagem seja realizada dentro dos parâmetros considerados adequados. Muitos produtores e técnicos relataram nas pesquisas que, atualmente, ainda há carência de serviços terceirizados qualificados no Brasil.

*Rafael Amaral é Dr. em Ciência Animal e Pastagem e especialista de Produtos da De Laval - [email protected]