Genética

SELEÇÃO GENÔMICA

Parte III - Final

Longevidade, carcaça e doenças hereditárias, que são de difícil mensuração, podem ser estimadas previamente com segurança

Priscila Barros*

Nos artigos anteriores, vimos como a tecnologia genômica evoluiu no mundo e no Brasil e como alguns países a têm utilizado. Agora vamos destacar as principais vantagens e como os criadores brasileiros de corte e leite podem utilizar esta ferramenta na prática.

Apesar de ser uma tecnologia nova e estarmos falando do que há de mais moderno na área de genética animal, os marcadores moleculares estão prontos e disponíveis para a utilização imediata na seleção dos rebanhos. Algumas centrais de inseminação artificial estão publicando esta informação para que a venda de sêmen seja a mais técnica e a mais acertada possível para cada objetivo e sistema de produção.

Muitos rebanhos brasileiros já utilizam esta ferramenta na prática. As grandes vantagens da tecnologia são o aumento da confiabilidade (acerto) nas decisões genéticas do rebanho, por se poder contar com uma informação confiável de forma antecipada na vida do animal e se conseguir, também previamente, obter as características de difícil mensuração.

Detalhando um pouco mais: o termo confiabilidade quantifica a relação entre o mérito genético previsto e o real. A confiabilidade varia de 0 a 99 por cento. Quanto maior a confiabilidade, maior a chance do mérito genético pretendido coincidir com seu desempenho real. Para o gado leiteiro, este índice é de cerca de 70% e para o gado de corte 55%, dependendo da característica. Este valor é considerado alto, já que para termos a mesma confiabilidade nas DEPs (ou PTAs) levará muitos anos e muitas progênies avaliadas.

O teste genômico pode ser feito logo após o nascimento do animal, isto antecipa muitas decisões da fazenda, como, por exemplo, quais bezerras leiteiras serão as futuras matrizes ou quais bezerros Nelore serão os futuros touros de repasse. Esta informação confiável pode interferir em decisões como manejo e descarte, antes mesmo do animal iniciar sua vida reprodutiva na fazenda.

Características como longevidade, carcaça ou doenças hereditárias, que são de difícil mensuração, podem ser estimadas com muita segurança logo após o nascimento do animal. Pensando na primeira característica citada, longevidade, uma bezerra ao nascer pode ter a informação se será longeva ou não no rebanho. Informação que na prática, só saberíamos após a permanência ou o descarte da mesma.

Além destas vantagens, o uso de marcadores moleculares ajuda criadores a obterem maior e mais rápido progresso genético. Lembrando que este é definido da seguinte forma (vide fórmula abaixo):

O uso de marcadores moleculares irá aumentar o progresso genético, pois:

- aumenta a acurácia (confiabilidade) da informação genética;

- eleva a intensidade de seleção, porque permite a seleção dos melhores animais com maior segurança e o uso mais acertado de tecnologias reprodutivas como FIV e TE;

- diminui o intervalo de gerações, pois touros e matrizes jovens terão informações genéticas confiáveis e poderão ser utilizados em uma parcela maior da população.

UTILIZAÇÃO DOS MARCADORES

A melhor utilização do marcador molecular ocorre com a sua incorporação às DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) ou PTAs (Habilidade Prevista de Transmissão), gerando o que conhecemos como DEP (ou PTA) Genômica. A grande vantagem da DEP Genômica é o aumento de confiabilidade nos animais jovens e a facilidade que agrega à seleção do criador, pois condensamos duas avaliações (DEP e marcador molecular) em um número só, com maior poder de predição.

NO GADO LEITEIRO

São muitos os usos dos marcadores na fazenda, como principais podemos citar. Vejamos alguns.

  • Seleção e descarte: escolha de quais fêmeas entrarão na vida reprodutiva e quais serão descartadas (vendidas ou serão receptoras) de acordo com o potencial genético. O uso de marcadores moleculares permite aos produtores de leite selecionar fêmeas que trarão maior retorno financeiro ao longo de sua vida produtiva.
  • Acasalamento: podemos simular o acasalamento entre as fêmeas e touros disponíveis como o objetivo de corrigir pontos desfavoráveis das fêmeas na próxima geração, utilizar o touro que trará maior produtividade, aumentando a produtividade e do progresso genético.
  • Decisão mais acertada em relação ao uso de FIV (fertilização in vitro), TE (transferência de embriões) e sêmen sexado. Isto é, concentrar os investimentos em tecnologias reprodutivas em fêmeas de alto potencial genético e, assim, obter maior retorno do investimento realizado.
  • Controle de consanguinidade: a endogamia tem sido um desafio de longa data para os produtores de leite. Como as vacas leiteiras têm sido selecionadas para objetivos semelhantes, como maior produção de leite, houve um aumento grande da consanguinidade com o passar dos anos. Estes aumentos podem resultar em uma redução de produtividade, comumente referida por depressão endogâmica. Isso não causa impacto negativo apenas sobre a produção, mas também sobre as características reprodutivas e de sanidade. Os marcadores moleculares oferecem ferramentas para gerenciar e reduzir seus efeitos danosos sobre o desempenho do rebanho através de acasalamentos dirigidos.
  • Diferenciar precocemente os irmãos provenientes de técnicas de FIV e TE. Temos a informação de quais são os melhores e, assim, podemos mantê-los no rebanho.
  • Confirmação de paternidade.
  • Detecção de animais portadores de haplótipos que trazem efeitos negativos na reprodução. Fêmeas portadoras quando acasaladas com touros na mesma condição têm 25% de chance de ocorrência de morte embrionária.
  • Valorização na venda dos animais, agregando valor aos animais testados genomicamente.

NO GADO DE CORTE

Também são muitos os usos dos marcadores nas fazendas de pecuária de corte, como principais pode-se citar:

  • Seleção de fêmeas: escolha daquelas que entrarão em vida reprodutiva de acordo com o potencial genético. Escolha de matrizes para serem doadoras de embrião.
  • Seleção de machos: escolha dos reprodutores para coleta de sêmen, para repasse e touros que serão comercializados dentro de um rebanho.
  • Acasalamento: podemos simular o acasalamento entre as fêmeas e touros disponíveis como o objetivo de corrigir pontos desfavoráveis das fêmeas na próxima geração, utilizar o touro que trará maior produtividade, aumentando a produtividade e do progresso genético.
  • Descarte de animais que não se adequam ao objetivo e sistema de produção do rebanho.
  • Diferenciar precocemente os irmãos provenientes de técnicas de FIV e TE.
  • Valorização na venda, agregando valor aos animais testados genomicamente.
  • Como vimos, são muitas as utilizações e vantagens dos marcadores moleculares na seleção do rebanho. Esta é uma tecnologia que está disponível para ser utilizada e está revolucionando o modo como o melhoramento genético é feito no Brasil e no mundo.

*Priscila Barros é gerente Técnica da Pfizer Animal Genetics, responsável pelo suporte técnico à equipe da empresa e aos criadores