Raças - Charolês

 

A retomada do CHAROLÊS

Precocidade, redução dos ciclos, ganho de peso e o uso do cruzamento industrial são alguns trunfos da raça

Durante a Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários (Expointer), no Parque Assis Brasil, em Esteio/ RS, dentre tantas atrações, leilões e julgamentos, uma teve mérito especial para Associação Brasileira de Criadores de Charolês (ABCC). Tratava-se do Prêmio Precocidade Reprodutiva “Paulo Franco Borges”. A premiação, instituída pela associação desde 2007, tem como proposta evidenciar a precocidade e a redução de ciclos, premiando as fêmeas da raça com sua primeira cria ao pé e que tenham parido com menor idade. Na edição 2012, a grande vencedora foi Jotabê Fada, parida aos 22 meses e 12 dias, do criador André Corrêa Berta, da Cabanha Charolês Figueira, do município de Arambaré, no Rio Grande do Sul. Outro destaque foi a matriz Santa Tecla 2105 Querena B, do criador Jamil Deud Junior, titular da Cabanha Santa Tecla, localizada em Clevelândia, no estado do Paraná. A novilha, nascida em setembro do ano passado, era a prenha mais jovem entre todas as raças presentes na edição da exposição.

O evento deu uma amostra do que há alguns anos a entidade mais procura destacar: a obtenção de precocidade reprodutiva na raça charolesa. “Acrescenta-se ainda no conjunto o aumento do rendimento de carcaça por animal abatido e o maior ganho de peso proporcionado pelo Charolês. Animais que nasçam pesando de 30 a 40 quilos, em média, após um ano, já alcançam 500 quilos facilmente”, complementa Wilson Borges, vicepresidente da associação.

Para estimular ainda mais a seleção genética, a fim de alcançar animais dentro dos parâmetros que o mercado tanto deseja, além do prêmio de campeã precoce, em Esteio, a associação também realizou o prêmio de Supremo Grande Campeão (disputa entre macho e fêmea da mostra). A avaliação em pista consagrou nesta edição a seleção da Cabanha Labor, de Paulo e Wilson Borges, de Soledade/RS, com a conquista do campeonato com a jovem “Lutece Labor M”, de 12 meses e 506 kg. “A grande funcionalidade dessa fêmea mostra como é possível conseguir animais compactos e modernos, de tamanho moderado, adequados ao que busca o mercado, advindos de uma genética já herdada por sua mãe e sua avó”, explica.

O empresário Joaquin Villegas e presidente da Associação Brasileira de Criadores de Charolês afirma que neste ano, o resultado obtido durante a Expointer é fruto de um trabalho realizado pela entidade, que prioriza alcançar animais cada vez mais “precoces e com melhor produção de carcaça”, diz. “Eis a razão para o mercado estar respondendo tão bem para a raça”, conclui.

A charolesa é uma das raças que lideram o ranking de inscrições na Expointer. Só na 35ª edição da feira, o aumento do número de inscrições foi de 18% em comparação a 2011. “O que demonstra o momento positivo no qual a raça está passando em todo o País. Isso se deve ao grande investimento que os criadores estão fazendo para elevar a qualidade genética do Charolês”, argumenta o presidente reeleito em setembro para mais uma gestão frente à associação.

Dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) apontam que, no primeiro semestre de 2009 as vendas para o corte cresceram 20% em relação ao mesmo período de 2008. Neste cenário, o relatório 2009 da entidade também aponta que, de 2008 para 2009, a comercialização de sêmen Charolês mais do que dobrou. O levantamento da Asbia destaca também um incremento de 139,36% na venda de sêmen Charolês nos últimos cinco anos. Em 2010, foram vendidas 62 mil doses. No ano passado, os números alcançaram 65 mil doses

Assim como nas demais raças europeias, o Charolês talvez seja hoje uma das mais consistentes em programas de promoção e melhoramento genético. “Buscamos uma carne padronizada, agregando mais peso às carcaças e com níveis de gordura ideais, as qualidades que mercado mais valoriza”, diz Borges. “São várias as características avaliadas na produção do Charolês. Entre elas, uma maior conversão alimentar, o peso, a musculosidade, as características da carne no traseiro e no dorso lombar, que resultam em animais com ótimo acabamento e chegam a 8,6 mm de gordura na área de olho de lombo”, emenda o vice-presidente.

O Charolês é um animal muito dócil, apesar de ser grande, e se destaca no ganho de peso, atributos que a associação mostra a todos os interessados. “Atualmente, no Rio Grande do Sul, dependendo do sistema de criação, que em geral é feito a pasto, os novilhos cruzados chegam aos dois anos com o peso superior a 500 quilos”, argumenta Borges.

O Charolês vive hoje uma realidade que ocorre com outras raças europeias, que, habituadas às frias pastagens de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, estão subindo para o Centro-Oeste, chegando até mesmo ao Nordeste. Segundo o presidente da associação, o Charolês cresce entre 10% e 20% ao ano. “Podemos dizer que houve uma retomada da raça no País. Os resultados são bastante positivos”, sintetiza o presidente da ABCC.

O Charolês foi importante no início do cruzamento industrial, durante a década de 1980 e, hoje, volta a dar sua contribuição. “Com a retomada do cruzamento, o Charolês, que se adapta muito bem ao clima quente, surge como mais uma opção ao pecuarista que deseja produzir com profissionalismo e em volume que atenda a atual demanda por carne diferenciada. Com isso, a raça começou a expandir e agora temos mais demanda do que oferta de reprodutores, que pode ser constatada nas vendas dos remates de outono”, explica o presidente que herdou do sogro, em 1994, a criação iniciada em 1954.

Com o retorno do cruzamento industrial, os pecuaristas como um todo voltaram a investir. “Com isso, o gado Charolês se encontra em franca expansão”, confirma Eldomar Kommers, inspetor técnico da associação e coordenador da Conexão Charolês Brasil.

“Precisamos ressaltar que há muitos anos o mercado vinha distorcendo a qualidade dessa raça”, diz. Para ele, ainda há certa desconfiança do produtor, depois de o Charolês ter sido destaque nas décadas de 1970 e 1980 e ter perdido o posto para as britânicas nos anos seguintes. “Houve distorções a uma série de fatores de seleção e do perfil da raça, que se criou em anos anteriores. Enquanto as outras raças reagiram para buscar espaço, os criadores de Charolês se acomodaram e não se preocuparam em fazer melhoramento”, critica Kommers.

No presente, a história é outra, conta Villegas. Segundo dados da associação, no Brasil, a população é estimada em mais de 100 mil animais puros por cruza e perto de 50 mil cabeças puras de origem. É uma das raças mais populosas nos campos do Rio Grande do Sul e é muito admirada pelos gaúchos. A ABCC contabiliza aproximadamente 200 associados. “Para divulgar a raça pelo País, desenvolvemos um trabalho de marketing focado nas exposições, para mostrar o Charolês”, diz o presidente. “Após quatro anos, voltamos para a Feicorte, uma das maiores feiras de negócios e oportunidades do Brasil”, frisa.

Informações da associação revelam que hoje a divulgação da raça está mais agressiva. “Hoje, existem núcleos especializados em atender de forma expressiva o mercado. Assim como eventos e a divulgação da raça por meio de um periódico trimestral da própria associação”, revela o presidente.

A próxima ambição da ABCC é um projeto para a produção de uma marca de carne. “Antes, porém, é necessário gerar um volume intenso para atender a demanda do mercado”, lembra o presidente, que durante a Expointer reuniu representantes da entidade para discutir sobre o assunto. “Por enquanto, estamos apenas em negociação com um frigorífico da Região Sul para construir uma marca que atenda e que apresente as qualidades do nosso Charolês”, reforça Kommers.

Para Joaquim Villegas, a meta é produzir animais precoces e que produzam bem

RAÇA FUNCIONAL

Nos últimos anos, os criadores da raça priorizaram o desenvolvimento do Charolês funcional. “Posso lhe garantir que os terneiros da minha propriedade nascem com 40 quilos”, diz Borges.

De acordo com o presidente, a raça, que é a mais criada na Europa, com destaque para França e Inglaterra, há muito tempo resolveu a questão envolvendo partos assistidos. “Há touros provados no mercado, os quais proporcionam facilidade de nascimento e bezerros com tamanho menor”, explica. “Hoje, não há percentual de partos assistidos”, afirma.

Sendo bastante musculoso e tendo um porte avantajado, o animal tem um elevado rendimento de carcaça, que alcança de 54% a 56% nos charoleses puros e cruzados, segundo o presidente da ABCC. “A raça produz bastante, é muito solicitada pelos pecuaristas para aumento da produção e da qualidade da carne”, afirma Villegas.

Herdeiro de uma tradição familiar que remonta a meados do século XX, Wilson Borges resume o sucesso da raça com uma simples frase: “Enquanto no mundo houver balança, o Charolês estará garantido”.

CONEXÃO CHAROLÊS

Criadores de Charolês de quatro propriedades decidiram unir forças para investir em melhoramento genético e promover vendas em conjunto. A Conexão Charolês Brasil, lançada em 2011, na Expointer, é composta pelas propriedades Charolês Figueira, de Camaquã/ RS; Cabanha Cesar, de Vacaria/RS; Fazenda Santa Tecla, de Abelardo Luz/ SC, e Fazenda Água Marinha, de Águas de Santa Bárbara/SP. A proposta é produzir exemplares mochos, com tamanho moderado, habilidade materna e peso de carcaça, para chegar ao Charolês funcional que o mercado demanda, explica Kommers. “Isso tudo fundamentado em programas de melhoramento, em seleção por DEPs e com o uso de marcadores moleculares, ferramentas que se completam”. Juntas, as cabanhas pretendem ampliar a base de produção com o uso de genética trazida dos Estados Unidos e da França. Para isso, foram adquiridos semens de touros com perfil funcional.