Mercado

 

Tímida e esperada entressafra

Ao que tudo indica, finalmente, a entressafra do boi chegou, para alívio de uns e para colocar em xeque as previsões de outros. O movimento de baixa que vinha dominando o mercado nos últimos meses perdeu a força na maioria das praças analisadas, principalmente nas regiões em que não há mais pastos devido ao cessar definitivo das chuvas ou onde estes começam a dar sinais de seca, como na maior parte da região Norte, no Norte de Goiás e do Mato Grosso, no Pará e em Rondônia. Contrariando esta tendência, podemos destacar somente o estado de São Paulo, onde, apesar da oferta mais enxuta e do mercado um pouco mais constante, ainda existe certa pressão de baixa por parte da indústria, que compra boiadas em praças vizinhas, como Mato Grosso do Sul e Goiás, ocasionando a valorização da @ nestas regiões e freando sua alta no estado. Com a proximidade do fim do mês, quando o consumo de carne bovina é naturalmente menor e a demanda se mantém estável, esta oferta composta de boiadas locais e de praças vizinhas ainda permite à indústria paulista trabalhar com margens razoáveis e escalas confortáveis de quatro a cinco dias úteis. Para as outras regiões, no entanto, já se torna possível crer em uma maior firmeza para os próximos períodos, tendência que, mesmo em ritmo mais lento, deve ser acompanhada por São Paulo.

Para o pecuarista que ainda insiste em manter animais na propriedade por causa dos preços, o período já começa a apresentar maior dificuldade para se levar adiante esta retenção, pois a capacidade de suporte de grande parte das pastagens já está reduzida com o início da seca - para animais mantidos a pasto - e, também, devido ao acréscimo sofrido pelos insumos, tais como ureia e farelo de soja, para os animais mantidos em confinamento. No caso do confinador, principalmente, estes custos de produção mais onerosos tendem a pesar mais e já fazem com que os criadores que se arriscaram no primeiro turno do confinamento pensem duas vezes antes de investir em um segundo turno, mesmo sabendo que o mercado futuro aponta para índices melhores. A situação para confinadores só começa a ficar menos complicada à medida que a safrinha de milho entra no mercado e pressiona as cotações.

Segundo informações divulgadas pela Acrimat (Associação de Criadores do Mato Grosso), que no início do ano acreditava em um acréscimo no volume de animais confinados de pelo menos 12% com relação a 2011, esta intenção já foi bastante reduzida e as previsões atuais são de que não se atinja toda essa expectativa anteriormente divulgada.

No caso do pecuarista cujo sistema de criação é exclusivamente a pasto, esta é a hora limite para vender boiadas e pensar na aquisição de animais de reposição, mercado que, embora venha se recuperando aos poucos, pois acompanha o mercado do boi gordo, ainda apresenta preços frouxos, visto que tem apresentado a maior oferta dos últimos anos. Ainda neste mercado, a categoria que mais se valorizou em relação ao boi gordo desde o início do ano foi o bezerro. No entanto, atualmente, na maioria das regiões, vacas magras e novilhas têm apresentado os preços que mais se valorizam, já que são categorias também utilizadas em sistemas de semi-confinamento.

No mundo, nos 19 dias úteis considerados no período analisado, de 24 de julho a 17 de agosto, houve retração no valor da @ em todos os países analisados

Os valores médios pagos à vista para a @ do boi gordo no Brasil foram de R$ 91,66 em São Paulo; R$ 87,16 em Minas Gerais; R$ 83,07 em Goiás; R$ 86,62 no Mato Grosso do Sul; R$ 83,69 no Mato Grosso; R$ 93,39 no Paraná; R$ 97,79 em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul, R$ 3,25/kg. Das praças avaliadas, SC e RS foram os únicos que sofreram desvalorização nominal de preços, pois, nestas regiões, onde são utilizadas pastagens de inverno, o gado ainda possui alimento, o que não reduziu significativamente a oferta de animais terminados. Além destes, São Paulo também apresentou ligeira queda na média da @ em relação ao período anterior, mas, apesar disto, já surgem no estado, com maior frequência, negócios sendo realizados a preços acima da referência, que fechou o período em R$ 90,00/@ à vista e R$ 91,50/@ a prazo. O gráfico da página anterior mostra a evolução dos preços da @ pagos a prazo nas diferentes regiões.

A média do deságio pago aos pecuaristas foi de 2,08%. Este valor representa um aumento de 2,46% em relação ao período anterior, em que a diferença média entre os preços pagos pela @ à vista e a prazo, considerando-se todos os estados avaliados, ficou em 2,03%.

O preço médio do bezerro ficou em R$ 642,79, representando queda de 1,28% em comparação ao período anterior. No período atual, os preços médios pagos pelo bezerro nas praças avaliadas foram de R$ 681,50 em SP; R$ 575,50 em MG; R$ 640,50 em GO; R$ 663,00 no MS; R$ 630,00 no MT; R$ 695,00 no PR e R$ 614,00 no RS. Na categoria desmama, todos os estados sofreram desvalorização de preços em relação ao período anterior.

O boi magro apresentou média de preços de R$ 1.083,76 nos estados avaliados, representando ligeira queda em todas as regiões. Esta queda foi de 2,14%

em relação ao período anterior analisado e indica que, desta vez, a categoria mais jovem teve maior valorização no mercado de reposição.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e o boi gordo não sofreram alterações significativas, se mantendo muito próximos aos observados no período anterior, de 2,22 para desmama/boi gordo e 1,31 para boi magro/boi gordo.

Por fim, é possível concluir que, embora tímida e relativamente tardia, a entressafra começa a tomar seu espaço no mercado, colocando-lhe um pouco de normalidade e ordem e, além disto, trazendo um pouco de firmeza às previsões para os negócios futuros. O consumo de carne bovina, que a partir desta época tende a melhorar, talvez neste ano, mais do que nos anteriores, devido aos reajustes que vêm sofrendo as carnes suína e de frango, e a oferta de carne bovina, que tende a diminuir, trazem perspectivas melhores para indústria, varejistas e pecuaristas que souberem apostar as boiadas com sensatez. O cenário atual do mercado do boi mudou. Passou de uma sofrida pressão de baixa, de mais de três meses de duração, para uma ligeira e esperada pressão de alta causada pela menor oferta. Se essa se mantiver nestes patamares, valorizações podem acontecer.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil Boviplan Consultoria