Caprinovinocultura

 

REPRODUÇÃO:

EFICIÊNCIA NAS MÃOS DO PRODUTOR

Atitudes do criador podem ajudar a melhorar os índices e a incrementar a rentabilidade do rebanho

Denise Saueressig - [email protected]

Prestar atenção aos aspectos relacionados à reprodução animal é essencial em qualquer criatório, independente do perfil da propriedade ou do tamanho do rebanho. O retorno virá em forma de eficiência e de maior rentabilidade.

A criação de ovinos deve ser considerada e gerenciada como qualquer outra empresa, constata o veterinário Marcelo Roncoletta, sócio diretor da Top In Life Biotecnologia & Genética Animal. “Se buscamos uma empresa lucrativa e rentável, a eficiência reprodutiva é condição imprescindível para tal. Sempre uso um exemplo: toda indústria tem máquinas que devem funcionar com máxima eficiência. Na ovinocultura, a máquina é a ovelha, cujo produto são os cordeiros”, ilustra.

A reprodução não caminha sozinha, alerta o especialista. Ela é um dos quatro pilares da produção animal. “Além da reprodução, devemos ter controle sobre nutrição, sanidade e ambiência”, cita.

Quanto maior a eficiência reprodutiva de um rebanho, menor será o custo de produção. Segundo Roncoletta, em ovinocultura existem diferenciais de produção que impactam bastante na eficiência produtiva: prolificidade (número de cordeiros nascidos por parto) e número de partos/ano. “E, se somados aos índices de fertilidade e de mortalidade, teremos o número de cordeiros gerados/matriz/ano. Qual ovelha é mais rentável? A que produz 1,92 cordeiros/ano ou a que produz 0,99 cordeiros/ano? Imagine agora que a ovelha que produziu 0,99 cordeiros/ano custou o mesmo que a ovelha que gerou 1,92. Fácil entender o impacto da eficiência reprodutiva sobre o custo de produção”, acrescenta o veterinário.

Para os machos, é importante considerar a capacidade de serviço e a aprovação em exame andrológico com antecedência ao início da estação de monta. Libido e qualidade de sêmen são condições individuais e servem para calcular a capacidade de serviço e proporção de machos/fêmeas.

Seja qual for o objetivo da criação de ovinos - carne, leite ou lã -, a eficiência reprodutiva influenciará diretamente no resultado final, destaca o veterinário Ricardo Lopes Dias da Costa, pesquisador do Instituto de Zootecnia (IZ), da Secretaria de Agricultura de São Paulo. “Grosseiramente falando, o custo de mantença de uma ovelha vazia é mais alto do que o de uma ovelha prenhe – irá precisar dos mesmos cuidados, dos mesmos medicamentos, ocupará lugar no pasto, mas não produzirá o produto que nos interessa, o cordeiro”, afirma.

A espécie ovina, naturalmente, é bem prolífera (taxa alta de partos gemelares), o que contribui ainda mais para a rentabilidade do sistema. “Há quem diga que o descarte orientado, ou seja, aquele realizado de forma consciente, é o lucro do produtor de ovinos. Com o descarte da ovelha certa, na hora certa, se diminui os custos de produção e ainda se tem uma renda com a venda do descarte”, observa Costa.

MANEJO CORRETO

Como a eficiência reprodutiva é determinada por fatores que vão além das características genéticas de cada animal, o produtor pode, com técnicas simples de manejo, colaborar para aprimorar os índices da fazenda. O primeiro passo para avaliação do desempenho, e de suma importância para o sucesso, é uma escrituração zootécnica bem feita, enumera o pesquisador do IZ. “O problema é que muitos produtores não se preocupam em fazer um controle zootécnico. Muitos nem identificam seus animais. Assim, conhecer os dados produtivos individualmente, com anotações sobre taxas de prenhez, de parição, peso do cordeiro ao nascimento e ao desmame, taxas de desmame, prolificidade, entre outras, é fundamental e o mínimo necessário para se fazer a avaliação reprodutiva do animal e do rebanho e, com isso, as respectivas seleções e descartes dentro do plantel”, sustenta Costa.

O produtor também deve optar por estação ou estações de monta, sendo possível os manejos de monta diretamente no pasto, com o reprodutor permanecendo todo o período da estação com as fêmeas ou apenas durante as noites, evitando assim, um maior desgaste do reprodutor. “Também há a monta controlada, na qual as fêmeas em estro são identificadas por um rufião e então levadas para cobertura. O período da estação de monta pode ser variável, dependendo dos objetivos, com opções viáveis de 40 a 100 dias. Utiliza-se muito a estação de monta de 60 dias, com um reprodutor e 30 a 40 fêmeas”, informa o veterinário.

Dependendo da raça utilizada, os programas acelerados de parição serão boas opções, possibilitando a diminuição do intervalo de partos. “Em um de nossos trabalhos, com a raça Santa Inês, conseguimos resultados médios de intervalo de partos de 6,6 meses, com uma prolificidade de 1,4 cordeiros/parto. São quase duas parições por ano”, descreve Costa. As biotecnologias reprodutivas também fazem parte das opções para melhorar a eficiência reprodutiva. No entanto, essa escolha dependerá muito dos objetivos de cada produtor.

SANIDADE E NUTRIÇÃO

Os cuidados com a saúde e com a alimentação dos animais terão impactos diretos e indiretos sobre a eficiência reprodutiva. Doenças reprodutivas podem ser causas diretas de infertilidade, enquanto outras enfermidades, como as verminoses, podem influenciar de maneira indireta o desempenho do animal. “Também existe o problema das mastites, que, se forem mais severas ou não tratadas corretamente, podem levar à morte do cordeiro ou ao descarte da matriz”, detalha o pesquisador do IZ.

A nutrição exerce papel fundamental em toda a fisiologia do animal, sendo essencial não só na regulação de determinados hormônios, como também no peso de nascimento dos cordeiros e retorno ao estro pós-parto. Ricardo Dias da Costa explica que, nos programas acelerados de parição, é indispensável um manejo nutricional adequado no terço final de gestação e durante a lactação. “Fazer a quantificação fetal ou, pelo menos, o diagnóstico precoce da gestação, através da ultrassonografia, pode ser uma ótima ferramenta para auxiliar em um melhor manejo nutricional das matrizes”, aconselha.

Também é possível, por meio da nutrição, aumentar a prolificidade dos animais com o “flushing” energético, que consiste em oferecer um alimento de melhor qualidade, em um período de 14 a 21 dias pré-acasalamento.