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40 ANOS de seleção

Agropecuária Nova Vida comemora pioneirismos no melhoramento genético em Rondônia

Bruno Santos [email protected]

Reconhecida por ser pioneira no melhoramento genético e no avanço tecnológico na pecuária de Rondônia, a Agropecuária Nova Vida, localizada em meio à floresta amazônica, na cidade de Ariquemes, tornou-se uma referência no Norte do País. Uma prova são os shoppings de animais realizados anualmente na própria fazenda e que a cada edição batem recordes de negócios e visitantes.

Não é possível falar do desenvolvimento pecuário de Rondônia sem mencionar a Nova Vida, ou melhor, no visionário João Arantes Júnior. Ainda em 1972, o criador saiu do interior de São Paulo para implantar as primeiras atividades pecuárias na região. Começou com uma pecuária tradicional, fazendo cria, recria e engorda. Os filhos de Arantes contam que foi uma época difícil, pois não havia estradas ou energia elétrica. Mesmo com os incentivos do Governo do Estado, o desenvolvimento demorou para chegar.

Em 1995, mesmo depois da abertura econômica, ainda não havia nenhum projeto especializado em vender reprodutores. Tudo que chegava eram animais de refugo de exposições realizadas no Mato Grosso. Foi quando Arantes despertou para a criação de um plantel Puro de Origem (PO). Começou com 200 doadoras escolhidas e um ano depois já contabilizada 3.000 vacas Nelore PO, genética multiplicada com tecnologias reprodutivas quase desconhecidas na época, como a Inseminação Artificial, a Fertilização In Vitro e a Transferência de Embriões.

Além de produzir genética provada, o grande sonho de Arantes, sempre foi levar informação aos produtores rondonienses. Nos dias de campo, realizados a partir de 1997, a Nova Vida expôs conceitos e tecnologias que ajudaram a pecuária estadual a evoluir. Um exemplo de inovação foi a primeira Escola de Inseminação Artificial de Rondônia, fundada na propriedade ainda em 1999.

Pioneiro, em 2000, o criador trouxe para o Brasil os primeiros exemplares de gado Senepol. Foram 72 novilhas e quatro touros trazidos da Flórida. Paralelamente, mandou construir um laboratório de FIV na fazenda – o primeiro particular, segundo os proprietários –, mesmo em uma época em que pouco se dominava a técnica. Muitos acharam uma loucura, mas, em 18 meses, 2.000 prenhezes Senepol foram produzidas a partir da fertilização.

Hoje, 1.000 embriões de Nelore e Senepol são produzidos por ano e a um custo aquém do mercado. “Quando fundamos a associação brasileira da raça, decidimos comunicar os nascimentos à entidade representativa norte-americana. Ficaram apreensivos com a informação, porque o volume de prenhezes era maior que todo rebanho Senepol registrado nos Estados Unidos. Criadores e o próprio presidente da entidade vieram aqui averiguar e afirmaram que, com a velocidade e a qualidade em que os brasileiros estavam produzindo, em pouco tempo teriam o melhor Senepol do mundo. E foi exatamente o que aconteceu”, conta Ricardo Arantes, um dos filhos de João Arantes.

A partir de 1994, os negócios da Agropecuária Nova Vida foram sendo repassados aos filhos João Arantes Neto e Ricardo Arantes, assumindo a propriedade integralmente em 2002. Ricardo é administrador de empresas e João, economista, conceitos que, aos poucos, foram incorporados à fazenda.

Um desses novos conceitos incrementados pelos herdeiros aconteceu em 2005, após a pecuária de corte passar por longo período de estabilidade, com o preço da arroba oscilando entre US$ 16 e US$ 20. Como os produtores estavam descapitalizados e sem condições de investir na compra de animais de reposição, a Nova Vida passou a comercializar reprodutores aceitando bezerros como forma de pagamento.

Por meio da Cédula de Produto Rural, a empresa fornecia os touros e, no prazo de um ano, recebia o valor do reprodutor em bezerros, além ficar com a preferência na compra do restante da safra. “Essa troca de touros por bezerros me ajuda, pois cada vez menos tenho de comprar bezerros fora. Quando compro dos meus clientes, tenho certeza de que a genética é confiável”, destaca o administrador.

A prática causou espanto até mesmo nos próprios criadores, relembra Ricardo. “No começo até eu mesmo fiquei receoso se isso realmente daria certo, mas as pessoas foram comprando e o próprio boca a boca foi fazendo a divulgação do sistema e, hoje, praticamente 80% da minha venda é em troca de bezerro.”

Para que esse modelo de venda funcionasse corretamente, os irmãos montaram uma estrutura de controle de venda. Quando um negócio é efetivado, a própria equipe da fazenda faz a entrega, acompanhada por um veterinário que verifica as condições da propriedade e do manejo dos animais. O mesmo acompanhamento é feito depois de 90 dias, para verificar se os touros estão cobrindo corretamente as vacas.

O modelo incorporado, além de funcionar até hoje, inclusive no shopping de reprodutores, foi ampliado. A propriedade passou a oferecer sêmen e assessoria técnica, também recebendo em produção. “Meu rebanho cresceu muito e eu precisava tirar as matrizes comerciais da fazenda. Procurei alguns criadores com grande quantidade de terra ociosa. Mando minhas vacas para eles, já enxertadas, e depois volto para pegar os bezerros desmamados. Assim, otimizamos um espaço da propriedade que estava sem uso”, conceitua Ricardo.

Essa “nova gestão” influenciou a entrada da Nova Vida nas atividades de confinamento – são dois, um em Ariquemes, com capacidade estática para 22 mil animais, e outro em Comodoro/ MT, para 15 mil animais. O próximo passo é a agricultura.

O mercado de grãos tem se tornado promissor em Rondônia, principalmente pelo fato de as áreas agricultáveis deixarem de ser direcionadas à pecuária para se tornarem grandes lavouras. “A nossa vontade é que ainda neste ano plantemos 2 mil hectares de soja e, para os próximos cinco anos, 5 mil hectares”, confidenciou o proprietário.

SISTEMA DE VENDAS

A mecânica de comercialização da Agropecuária Nova Vida sempre teve como filosofia realizar a venda de animais na própria fazenda, durante os dias de campo, pois a maioria dos clientes são da região, num raio de 300 km. “Rondônia ainda é um mercado inexplorado. Vendemos de 900 a 1.200 touros por ano e só não vendo mais porque não tenho como produzir tanto”, enfatiza Ricardo.

Em um primeiro momento, o estado era muito carente de genética e tecnologia. Raros pecuaristas selecionavam ou se preocupavam com melhoramento e, por isso, a família Arantes sempre teve parte fundamental em explicar aos pecuaristas a necessidade de investir em genética. Boa parte dos clientes da propriedade são justamente os pequenos e médios produtores que se deram conta da importância de melhorar o plantel.

Conforme explica Ricardo, seus compradores são recorrentes. “O senhor Agenor é um exemplo disso. Ele compareceu em todos os nossos dias de campo. A primeira vez que ele veio comprar, chegou vestido em trajes simples e começou a apartar os touros, totalizando 18 reprodutores. Pagou tudo à vista, em dinheiro”, destaca.

Sempre bem estilosos e bem-humorados, os peões da Agropecuária Nova Vida conduzem o manejo de todo o plantel

Agenor Bissoli é proprietário do Sítio Kêndio, localizado em Cacaulândia, município vizinho a Ariquemes. Sua propriedade de pouco mais de 7 mil hectares conta com 7 mil cabeças de Nelore, Guzerá, Senepol e cruzamento industrial. Há mais de 20 anos na atividade, Bissoli mostra bastante interesse em investir no melhoramento genético. “Vimos o trabalho que a Nova Vida fez no rebanho e a gente precisa melhorar o nosso também”, explica.

No dia de campo deste ano, o pecuarista, foi um dos maiores compradores, ao adquirir 26 touros e 62 vacas. “Os criadores que investem em tecnologia estão progredindo, já as pessoas que não se preocupam com genética estão engatinhando. Ainda mais, hoje, que já não podemos mais desmatar para aumentar a produção. No pouquinho que temos aberto, temos de colocar gado de qualidade”, finalizou Bissoli.

O DIA DE CAMPO

A Agropecuária Nova Vida comemorou 40 anos com a realização do tradicional dia de campo, nos dias 4 e 5 de agosto. Cerca de 600 pecuaristas acompanharam apresentações sobre melhoramento genético, manejo de pastagens e crédito rural, além de contar com um shopping de reprodutores que movimentou R$ 581 mil. “Geralmente, nossas vendas acontecem 60% no sábado e 40% no domingo. Tivemos exatos 42 criadores. No primeiro dia, vendemos 96 animais que renderam RS 520 mil”, avaliou Ricardo.

Tem aumentado a preocupação dos pecuaristas de Rondônia com o melhoramento genético, destacou Guilherme Pereira

Neste ano, o evento contou com a parceria da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Segundo o técnico e zootecnista Guilherme Henrique Pereira, tem aumentado a preocupação dos pecuaristas de Rondônia com o melhoramento genético. Prova disso é o aumento da participação no Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos da ABCZ (PMGZ). “O rebanho de Rondônia nos últimos anos vem só crescendo, mostrando a preocupação do pecuarista em ter lucro na atividade. A aquisição de animais registrados tem crescido a cada ano. O produtor precisa ter um boi terminado mais cedo e um bezerro mais pesado na desmama para vender melhor e agregar valor à produção”, justificou.

“Praticamente 80% da minha venda hoje é em troca de bezerro pelo CPR”, ressaltou Ricardo Arantes

Pereira salientou ainda que Rondônia está livre de aftosa desde 2003, conforme a certificação da OIE. Segundo ele, isso só foi possível graças ao trabalho feito junto a cada produtor, que colaborou com a criação do FEFA (Fundo Emergencial de Febre Aftosa do Estado de Rondônia). Na oportunidade, cada criador colaborou com a compra de materiais, pois o estado não tinha condições financeiras para montar uma equipe. “A iniciativa privada, através dos produtores, comprou carro, montou equipe, contratou técnicos e gestores para coordenar todo esse trabalho. Hoje, Rondônia é livre de aftosa com vacinação, mas o trabalho não terminou. A fiscalização continua firme”, finalizou o técnico.

1º leilão Agropecuária Nova Vida

O Megaleilão Genética Nova Vida, realizado em 12 de agosto (o primeiro após quatro décadas de história), faturou R$ 1,5 milhão com a venda de 500 novilhas e matrizes Nelore PO, todas prenhas, paridas ou inseminadas de touros líderes de sumário. O remate teve média de R$ 3,7 mil para cada animal e contou com a participação de 16 investidores, que lançaram diretamente de Acre, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Piauí e Rondônia. Luiz Antônio Bonnotto Tramontinni, titular de uma propriedade no Piauí, se destacou como o maior investidor do remate, ao adquirir 109 animais. Outro grande investidor foi o antigo cliente e amigo da família Arantes, o pecuarista Agenor Bissoli. Após ter sido um dos maiores compradores do shopping de reprodutores ocorrido no dia de campo, o criador comprou 69 fêmeas.