Internacional

 

ITÁLIA

Pecuária de corte e leite desenvolvidas e com muita tradição

Roberto Vilhena*

A Itália é repleta de história e tradição. Com a pecuária não poderia ser diferente, lembremo- nos dos registros de imagens, mesmo antes do Império Romano, da participação importante dos bovinos, quer seja na tração ou na alimentação humana.

Tive o privilégio e a satisfação de viajar profissionalmente, desde 1989, para a Europa e visitar mais intensamente a região centro-leste da Itália, onde se desenvolve a atividade de pecuária de corte.

Recentemente, participei de Encontro Técnico Bilateral – Itália e Brasil, na cidade de Perugia, na sede da ANABIC – Associação Italiana dos Criadores de Bovinos de Carne. Oportunidade para reencontrar amigos e também apresentar as condições da atual pecuária seletiva e comercial brasileira, além de ouvir atentamente a explanação da situação dessa atividade na Itália e na Europa. Aconteceram visitas técnicas ao Centro Genético “Dr. Lucio Migni” acompanhadas pelos experts Matteo Ridolfi e Giannetto Guerrini. Degustamos uma excelente bisteca fioretina, visitamos fazendas de criação da raça Marchigiana e, ainda, novos touros para importação.

As diversas regiões italianas possuem raças bovinas desenvolvidas e adaptadas às suas próprias realidades e necessidades. As de corte mais importantes apresentam uma conformação frigorífica excelente e pelagem típica, que é caracterizada por pele negra e pelos brancos ou cinzas. São elas:

• Raça Chianina, originária da região Umbria, onde a cidade de Perugia é a mais importante e também a sede da ANABIC. A raça Chianina possui pelagem branca porcelana, porte mais alto e grande peso adulto. Produz também a famosa bisteca fiorentina.

• Raça Marchigiana, originária de Marche, região que propiciou o desenvolvimento de uma raça mais rústica, com cor de pelo branco e sempre pele negra, menor porte, mais musculada e, portanto, mais adaptada para caminhar nas montanhas típicas dessa região, chamadas de Apeninos, continuação mais baixa dos Alpes.

• As raças Romagnola, Podólica e Maremmana são em menor número e possuem papel importante no desenvolvimento pecuário de suas regiões.

• A raça Piemontês, caracterizada por porte mais baixo entre todas e também com musculatura dupla e carcaça com pouca gordura, é encontrada na região de Piemonte, próximo a Milão e Torino. O corte e preparo típico dessa raça é o conhecido carpaccio, que é o contra-filé congelado e cortado bem fino e servido bem temperado e acompanhado com um bom queijo ralado. Saliento que somente uma carcaça magra, sem gordura subcutânea, pode proporcionar essa típica especiaria italiana. No Brasil, se produz o carpaccio e geralmente é feito com o corte chamado de lagarto.

• As raças leiteiras estão presentes na região norte da Itália, onde encontramos na sua maioria exemplares de Holandês e também Pardo e Jersey. As vacas produzem leite para consumo humano e matéria-prima para a produção de deliciosos queijos italianos, com destaque para o conhecido parmesão, entre outros.

• Os bubalinos estão concentrados ao sul da Itália – região da Sicília –, onde as matrizes, de sangue da raça Mediterrâneo, produzem leite para a industrialização da autêntica mussarela de búfala, produto muito desejado e apreciado por todo o mundo.

MELHORAMENTO GENÉTICO

Em relação ao aprimoramento das raças, a União Europeia possui um programa de procedimentos e normas que são seguidos por todas as instituições responsáveis pelas raças existentes em cada país.

Os programas voltados para o gado leiteiro são muito parecidos com os desenvolvidos e realizados atualmente nos Estados Unidos e no Canadá, que são programas que avaliam o touro pela produção: PTA (leite, proteína, gordura, sólidos totais, entre outros) e conformação geral, qualidade de úbere das filhas e saúde. Recentemente, iniciou-se na Itália, com apoio de universidades locais, a utilização de marcadores moleculares na seleção da raça Holandesa.

A bovinocultura de leite é muito forte, graças ao alto valor da tradicional e apreciada mussarela de búfala, que propicia uma importante fonte de renda para produtores de leite e, também, para a indústria de laticínios. A Itália também realiza um trabalho de seleção e melhoramento genético para identificação dos melhores touros búfalos, levando em consideração a produção e a conformação das filhas. Somente os provados podem ser encaminhados à coleta e à comercialização de doses de sêmen ao mercado italiano e também à exportação. O Brasil realiza importação de sêmen dos melhores búfalos provados para leite, com o intuito de aprimorar a qualidade e a quantidade da produção de nosso leite, que preferencialmente é destinado à fabricação de nossa mussarela.

Roberto Vilhena reuniu-se com Roberta Guarcini, membro da ANABIC

Os programas italianos de melhoramento genético das raças bovinas de corte são diferentes dos aplicados nos dois países norte-americanos, que se baseiam nas nossas conhecidas DEPs (Diferença Esperada da Progênie).

Os técnicos regionais realizam visitas periódicas às propriedades dos selecionadores com rebanho registrado, realizando controles e a rastreabilidade dos animais. Se o selecionador possui um bezerro de cinco meses de idade e o considera destacado, solicita a vinda de um técnico expert da ANABIC, que vistoriará e analisará a conformação, a genealogia e o peso do bezerro para possível envio do mesmo ao centro Genético em Perugia. A coordenação do programa, após receber todos os relatórios dos experts, seleciona e indica os seis melhores pela genealogia, índices dos pais, conformação e desenvolvimento. Os seis bezerros aprovados são desmamados aos cinco meses de idade e encaminhados ao centro genético para adaptação, exame de paternidade e exames sanitários. Os cinco melhores bezerros permanecem no centro e aos seis meses de idade são submetidos a uma prova de ganho de peso, a qual lhe promovem um índice. Os machos são pesados periodicamente para adequar a quantidade de concentrado na dieta fornecida (feno de ótima qualidade + concentrado com 18% PB+ sal). Completando 12 doses de idade se encerra a prova. Três experts realizam a avaliação morfológica e, com os dados de desempenho de pesagens durante a prova, iniciam-se os trabalhos de computador e análise dos dados objetivando os índices de seleção, musculatura e ganho de peso. Os melhores animais serão indicados para inseminação artificial e, portanto, poderão ser conduzidos a uma central de coleta e comercialização das doses de sêmen para o mercado interno ou outros países. Os touros que obtiveram bons índices podem ser utilizados na monta natural nas fazendas e os mais fracos ou com defeitos são descartados. Realmente, o trabalho de seleção na Europa tem contribuído muito para o aprimoramento das raças e da qualidade qualidade de carne. A raça Marchigiana tem registrado um crescimento médio importante no teste: ganho diário na prova de 1,733 gramas/dia, peso vivo aos 12 meses = 561 Kg e índice de seleção de 113,3. (Fonte: Attivitta’Sociale e Tecnica 2011 da ANABIC, página 35).

A Itália realiza também uma avaliação da linha feminina de algumas raças, produzindo o ISV – índice de seleção da vaca. É um indicador genético que leva em consideração os índices das progênies que passaram pelo centro genético e a conformação das filhas de 14 a 30 meses de idade. Dados que identificam as melhores matrizes e auxiliam nos acasalamentos direcionados em cada rebanho de elite. O Brasil importa há vários anos doses de sêmen de touros elite que foram classificados para inseminação artificial no Centro Genético de Perugia - Itália. Para se ter ideia do rigor da avaliação, de 44 bezerros Marchigiana apenas cinco foram classificados para fecundação artificial em 2011.

PRODUÇÃO DE CARNE

Chamam muito a atenção na Itália as condições estabelecidas pela comunidade europeia em 1998 e ativadas em 2000 para a produção de carnes frescas diferenciadas através do programa “IGP-Indicação Geográfica Protegida Vitelo Branco do Apenino Central”, o qual certifica a genética, a alimentação e a técnica de manejo realizadas com animais puros das raças Chianina, Marchigiana e Romagnola nas regiões de Emilia-Romagna, Toscana, Umbria, Marche, Lazio, Abruzzio, Molise e Campania. O sistema de criação é baseado no leite materno e, depois do período de amamentação, oferecendo feijão fava, alfafa e feno produzidos nas próprias fazendas. Produzem carnes magras, com características típicas de sabor, suculência e maciez. As carcaças são controladas pelo Consórcio de Controle do Vitelo Branco do Apenino Central, que fornece documento garantindo a procedência e informando as características aos consumidores finais italianos, portanto, atingindo um nicho de mercado diferenciado, que aprecia e paga valor mais alto para degustar uma carne diferenciada.

*Roberto Vilhena é zootecnista, jurado e consultor e realiza visitas frequentes à Itália