Genética

 

Seleção Genômica

Parte II

Pablo Paiva*

No último artigo sobre seleção genômica fizemos uma descrição técnica da tecnologia, mostrando todo seu processo evolutivo e algumas utilizações, como o teste de paternidade. Além disso, exemplificamos como alguns países do mundo vêm utilizando- a de forma prática no processo produtivo. No entanto, assim como toda tecnologia a ser implementada, em qualquer área, o tempo é o fator mais importante para o processo de convencimento, aliado aos dados práticos de como isso funcionará e qual benefício retornará ao pecuarista.

Antes de tudo, reforçamos que no Brasil, onde a agropecuária tem grande representatividade econômica, e particularmente na pecuária, tivemos uma contribuição muito valiosa para a ocupação territorial em busca de desenvolvimento e valorização do “olho” humano, que foi imprescindível para a seleção e o melhoramento genético dos bovinos, seguindo a tendência histórica na busca da adaptabilidade e da produtividade. Com isso, reforçamos nosso posicionamento que as novas tecnologias devem ser encaradas como complementares a processos na busca de uma melhoria e não substituição.

Para quem já vem trabalhando com as tecnologias disponíveis para o melhoramento genético, podemos afirmar que selecionar o animal perfeito é quase impossível, já que são diversas características e, muitas vezes, a melhora em uma delas pode influenciar de forma negativa em outra, além de outros possíveis defeitos genéticos. Dados da literatura científica relatam uma frequência de 1% a 3% para ocorrência de doenças genéticas dentro dos rebanhos e em algumas raças a utilização de testes específicos para a detecção precoce de animais portadores de genes deletérios proporcionou o uso racional de animais dentro de linhagens que anteriormente seriam descartadas pelo “desconhecimento” genético.

Um breve relato sobre o impacto da tecnologia genômica, quando nos referimos à identificação de animais portadores de genes prejudiciais: tivemos há poucos anos o anúncio na raça Angus da artrogripose múltipla, que é uma das anomalias congênitas mais frequentemente diagnosticada em bezerros, caracterizada comumente por deformidade na flexão das articulações, com contração persistente. Com a tecnologia genômica, rapidamente conseguiu-se identificar a origem e criar um teste rápido que pôde ser usado de forma bem objetiva durante o acasalamento para evitar que genes recessivos sejam combinados para a expressão da doença. Esse processo pode ser denominado de manejo assistido pela genômica e, assim como a artrogripose, várias outras doenças podem ser identificadas, sendo sete no gado de corte e em torno de três nas raças leiteiras.

Caminhando mais à frente pelo desenvolvimento da tecnologia, indo além do caráter preventivo para evitar a manifestação das doenças genéticas, podemos antecipar a importância da mesma no melhoramento genético, contribuindo de forma muito positiva na busca de animais de genética superior.

Sempre faço um comparativo entre as características de um animal e as peças de um carro, e que estas precisam trabalhar sincronizadas para que a genética possa expressar todo seu potencial, claro que no ambiente favorável. O Brasil caminha a passos largos quando falamos de seleção do Nelore, principalmente se observarmos a valorização que tivemos nos animais que possuem DEPs e são topes em alguma característica. No entanto, um ponto de extrema importância foi a criação dos índices como ferramenta para facilitar a seleção dentro do gado de corte. Quando fazemos uso de um índice, quer seja padrão da associação ou do grupo ao qual o criador é ligado, ou quer seja um índice próprio desenvolvido para o uso interno, sempre procuramos idealizar o animal que seja excelente dentro daqueles padrões predefinidos. Isso quer dizer que elegemos quais são as características mais importantes e que têm contribuições específicas dentro da produção.

A seleção do nosso gado de corte vem sendo muito pautada no peso, que, por sinal, tem sua razão, já que no final da cadeia produtiva o produtor é remunerado pelo peso dos animais. No entanto, vários estudos científicos mostram a importância que as características reprodutivas têm dentro do sistema, sendo que se fala até que reprodução é quatro a cinco vezes mais importante do que o peso em si. Isso tudo tem muito sentido se pensarmos que o bezerro mais caro dentro da fazenda é aquele que não nasce. Atualmente, os programas de melhoramento genético, seguindo a demanda do mercado, focam muito em características de peso, mas sabe-se que muitos já trabalham de forma personalizada com a construção de índices customizados, tendo em vista que muitos pecuaristas desenvolvem trabalhos e têm necessidades específicas. Acaba por refletir na diferença quando comparamos índices de diversos programas.

Segundo Pablo Paiva, a genotipagem permite a detecção precisa de variações do DNA, tais como precocidade sexual ou maciez da carne

O próximo passo da utilização dos índices é a criação dos índices econômicos, já utilizado mundialmente pela raça Angus e nas raças leiteiras, como o Holandês, e que começa a mostrar ensaios no Brasil. O índice econômico mostra, com dados reais, em termos de retorno financeiro, o impacto que é a mudança do ponto de uma determinada característica dentro do sistema. Esse tipo de indicador pode ser apresentado de diversas formas, sendo em moeda, assim como em quilogramas ou arroba de boi, de acordo com o que o pecuarista queira trabalhar.

Com o uso da tecnologia genômica, foi possível a criação de um índice que valorizasse ainda mais as características reprodutivas, ligadas diretamente a sua expressão na fêmea. É importante reforçar que o impacto da genômica na seleção das matrizes é muito grande, já que, como dissemos no artigo anterior, um dos seus objetivos é proporcionar o aumento da acurácia em animais com poucas informações produtivas, que é o caso das fêmeas jovens (bezerras e/ou novilhas).

Quando refletimos na fêmea ideal dentro do sistema produtivo, sempre devemos pensar qual o impacto dela em quilos de bezerro produzido por ano. Pensando, além disso, naquele que tem potencial de retornar ainda mais, logo a fêmea precoce e fértil, que permanece mais tempo dentro do rebanho e desmama bezerros pesados, é desenhada como sendo o modelo ideal a ser perseguido, haja vista as particularidades de cada fazenda dentro do território nacional e do grau de exigência de cada criador.

É importante lembrar que temos outros ganhos, como seleção de animais superiores, aumento da pressão produtiva e uma melhora na gestão dentro da fazenda.

*Pablo Paiva é gerente de Vendas e Marketing da Linha de Genética da Unidade de Negócios Bovinos da Pfizer Saúde Animal