Feno & Silagem

 

Qualidade de fenos durante

ARMAZENAMENTO

População de fungos de campo é menos diversificada do que a registrada no estoque

Ricardo Andrade Reis e Thiago Fernandes Bernardes*

O recolhimento dos fenos com umidade, acima de 20%, reduz as perdas no campo, diminuindo os riscos de ocorrência de chuvas e as perdas de folhas, principalmente em leguminosas. As principais causas de perdas de matéria seca no armazenamento de fenos com alto conteúdo de água estão relacionadas com a continuação da respiração celular e o desenvolvimento de bactérias, fungos e leveduras. Em função da respiração celular e do crescimento de micro-organismos, tem-se a utilização de carboidratos solúveis, compostos nitrogenados, vitaminas e minerais. Desta forma, há diminuição no conteúdo celular e aumento percentual na porção referente aos constituintes da parede celular, o que resulta em diminuição do valor nutritivo.

A intensa atividade de micro-organismos promove aumento na temperatura do feno, podendo-se registrar valores acima de 65º C e até combustão espontânea. Condições de alta umidade e temperaturas acima de 55º C são favoráveis a ocorrência de reações não enzimáticas entre os carboidratos solúveis e grupos aminas dos aminoácidos, resultando em compostos denominados produtos de reação de Maillard (Quadro 1).

A formação de produtos de Maillard em fenos superaquecidos promove diminuição acentuada na digestibilidade da proteína, uma vez que se pode observar aumento considerável nos teores de NIDA, o qual não é disponível para os micro-organismos do rúmen. Portanto, o aumento de NIDA ocorre com o decréscimo de proteína solúvel e a elevação na quantidade de proteína bruta (PB) alterada pelo calor. A análise de fenos armazenados com umidade acima de 15% e que sofreram aquecimento evidencia algumas mudanças na cor, associadas com a atividade de micro-organismos e aquecimento durante o armazenamento. A cor verde presente no enfardamento dos fenos úmidos é alterada para vários tons de marrom. A extensão das alterações na cor fornece indicação da intensidade do aquecimento no armazenamento e ocorrência da reação de Maillard (Moser, 1995).

Em fenos com 25% de umidade, pode ocorrer perda de 8% do conteúdo de MS, 3% de decréscimo no conteúdo de MS digestível e incremento de 3,5% nos teores de FDN. A digestibilidade da MS e de outros nutrientes diminuem com o armazenamento, uma vez que muitos compostos facilmente digestíveis são perdidos devido à respiração.

As plantas forrageiras em crescimento no campo estão inoculadas, naturalmente, com uma ampla variedade de fungos e bactérias. E segundo REES (1982), a população de fungos de campo, geralmente, não causa alterações acentuadas na composição química dos fenos, exceto quando a umidade permanece elevada por períodos prolongados.

A população de fungos de campo é menos diversificada do que a registrada no armazenamento dos fenos, sendo que os micro-organismos presentes durante este período são xerotolerantes e mais termotolerantes do que os de campo. Neste grupo, estão incluídos os gêneros Aspergillus, Absidia, Rhizopus, Paecilomyces, Penicillium, Emericella, Eurotium e Humicola (Kaspersson et al., 1984). De acordo com Hlodversson & Kaspersson (1986), a fenação altera a população de fungos da forragem, havendo diminuição naqueles gêneros típicos de campo, como Alternaria, Fusarium e Cladosporium, e aumento de Aspergillus e Fusarium, de maior ocorrência durante o armazenamento (Quadro 2).

É importante considerar que, além das alterações na composição química, o desenvolvimento de fungos pode ser prejudicial à saúde dos animais e das pessoas que manuseiam estes fenos, devido à produção de toxinas, principalmente aquelas relacionadas aos fungos patogênicos, como Aspergillus glaucus e Aspergillus fumigatus. Estes fungos produzem toxinas, e a presença de esporos causa uma doença respiratória nos seres humanos, denominada febre do feno. Nos animais, problemas respiratórios não são tão intensos, com exceção dos equinos, que podem ser acometidos por doenças respiratórias e digestivas causadas por fungos. A doença pulmonar crônica obstrutiva e as alterações digestivas em equinos estão associadas com a presença de fungos em fenos e palhas. Os esporos de fungos também podem contribuir para o aparecimento de cólica em equinos.

A extensão das alterações na cor fornece indicação da intensidade do aquecimento no armazenamento

A aspiração de esporos do fungo Aspergillus fumigatus durante o manuseio dos fenos contaminados pode causar a febre do feno e algumas vezes doenças que debilitam o organismo por causa do crescimento dos fungos nos tecidos dos pulmões. Os bovinos, geralmente, são menos afetados pela presença de fungos nos fenos do que os equinos, contudo eles também estão sujeitos a abortos micóticos e aspergilose.

A ocorrência de fungos nos fenos de grama paulista (Cynodon dactylon) enfardados com diferentes conteúdos de água foi avaliada por REIS et al. (1997), que observaram os gêneros Cladosporium, Curvularia, Aspergillus e Penicillium com maior incidência. Todavia, segundo os autores, com o armazenamento durante 30 dias, observou-se diminuição na incidência de Curvularia (fungo de campo) e aumento de Aspergillus e Penicillium, fungos típicos de armazenamento.

Os resultados de trabalhos de pesquisa evidenciam que, quando se armazena fenos com baixa umidade, é pequena a incidência de actinomicetos, bactérias e esporos de fungos. Nos fenos com umidade normal, observase aumento no número de esporos de fungos e, nos de alta umidade, tem-se elevada população de bactérias e de actinomicetos. Kaspersson et al. (1984) enfardaram fenos de gramíneas com 31% de umidade, observaram alterações na população de micro-organismos durante 14 dias e registraram rápido aumento na temperatura dos fardos, causando diminuição nas relações bactérias mesofílicas/termófilicas, em virtude do aumento na população das bactérias adaptadas a altas temperaturas. Segundo esses autores, é difícil de se avaliar os efeitos isolados da temperatura sobre a população de fungos.

Cumpre salientar que a proporção relativa de fungos, bactérias e de outros micro-organismos se altera com corte, secagem, colheita e armazenamento da forragem, sendo afetadas, principalmente, pela umidade e pela temperatura dos fenos.

*Ricardo e Thiago são professores do Departamento de Zootecnia, FCAV/UNESP – Jaboticabal/SP. Publicado inicialmente no Beef Point