Seleção

 

CONSUMO alimentar residual

Conhecido pela sigla CAR, esta é uma nova ferramenta para avaliação de touros

Juliano J. R. Fernandes* e Victor R. M. Couto**

Os avanços na produção brasileira são tão notórios que são bastante evidentes na produção de monogástricos, no qual tivemos nos últimos anos um aumento expressivo da produtividade por animal. Em se tratando da produção de bovinos de corte, já se possui grandes avanços nas áreas do conhecimento, como são os casos de nutrição, manejo de pastagens, sanidade e, por fim, a genética, que, por sua vez, possui características que impossibilitam avanços rápidos.

Um exemplo claro é que na nutrição conseguem-se mudanças drásticas e desejáveis em pouco tempo, podendo ser feito apenas com um aporte de recurso financeiro e tecnológico de um ano para o outro. Entretanto, para se conseguir um avanço expressivo na genética precisa-se de vários anos de seleção.

O melhoramento genético de animais sofreu equívocos durante anos, baseando a seleção em características não produtivas, muitas das vezes por falta de conhecimento das correlações existentes. Outra fase do melhoramento genético de bovinos de corte foi a seleção por características produtivas, na qual critérios como ganho em peso, peso ao nascer, peso ao desmame, tamanho do animal, entre outros, passaram a fazer parte das avaliações. Todas essas características de suma importância para a produção animal são medidas de saída (“out put”). Nenhuma delas leva em consideração o custo de conseguir esse animal mais eficiente para produção carne.

A eficiência alimentar como ferramenta de seleção é reconhecida há bastante tempo por parte dos técnicos da suinocultura e da avicultura. Porém, por parte dos profissionais envolvidos com a produção de carne bovina, esta característica vinha sendo deixada em segundo plano, certamente pela dificuldade de mensurar o consumo alimentar individual de bovinos de corte.

A seleção de bovinos a partir de características como ganho de peso diário ou peso de carcaça deixa de ser eficiente à medida que os custos com alimentação aumentam, uma vez que estas ferramentas deixam de considerar a eficiência dos animais em converter alimento em carne. A eficiência na produção animal pode ser definida como a geração de produtos de origem animal com a menor quantidade de recursos possíveis.

Algumas medidas foram propostas ao longo dos anos para avaliar a eficiência dos animais, entre elas, a conversão alimentar, a eficiência alimentar bruta e o consumo alimentar residual. No entanto, características como conversão alimentar ou eficiência alimentar bruta não levam em consideração o desempenho produtivo dos animais, os selecionados apresentam peso adulto muito elevado, resultando em animais tardios e de alto custo de manutenção.

Animais que apresentam CAR negativo são mais eficientes Juliano Fernandes

Buscando uma nova medida de eficiência alimentar que viabilizasse a diminuição dos custos com alimentação, sem alterar de forma negativa aspectos produtivos, em 1963 o pesquisador Robert M. Koch, da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, sugeriu a utilização do consumo alimentar residual (CAR).

O cálculo do CAR é efetuado pela diferença entre o consumo observado e o consumo estimado para um desejado ganho de peso. Animais que apresentam CAR negativo são mais eficientes quando comparados a animais com CAR positivo, pois ingerem menor quantidade de alimento que o estimado para o mesmo ganho de peso e peso corporal. Portanto, necessitam de menor quantidade de nutrientes para sua manutenção e taxa de crescimento. A equação para cálculo do CAR é a seguinte: CAR = Consumo Observado – Consumo Estimado (ƒ{PV, GPV}), (KOCH ET al., 1963).

Em resultados obtidos em trabalhos científicos, a característica consumo alimentar residual apresentou herdabilidade de moderada a alta. Portanto, é possível de ser inclusa em programas de melhoramento genético como ferramenta para seleção de bovinos de corte.

Juliano Fernandes adverte que animais com melhor CAR depositam menos gordura na carcaça, necessitando de avaliações conjuntas

O CAR surgiu para verificar as diferenças na eficiência alimentar entre animais e reflete a variação no processo metabólico básico, mais do que nas variações devido às diferenças no nível de produção. A variação no consumo de alimentos está associada com a variação na demanda de nutrientes para manutenção das funções vitais dos animais. Conforme aumenta a ingestão de alimentos, a quantidade de energia gasta para digerir a comida é incrementada, porque há mudança no tamanho dos órgãos digestivos. A quantidade de energia consumida pelos tecidos aumenta por unidade de peso do animal.

Mais de dois terços da variação na mensuração do CAR têm contribuição de processos metabólicos. Os fatores metabólicos que podem contribuir para a variação no CAR são muitos e os principais mecanismos fisiológicos que influenciam sua variação estão relacionados com resposta ao estresse, taxa de renovação do tecido muscular e metabolismo dos tecidos, atividade locomotora, digestibilidade dos alimentos, produção de calor durante a digestão dos alimentos, composição corporal (músculo, gordura e osso) e padrões de alimentação.

Selecionando animais baseado no CAR, pode-se melhorar o impacto ambiental, pois se reduz a produção de gases poluentes e esterco. Animais de baixo CAR (mais eficientes) emitem cerca de 28% menos metano na atmosfera quando comparados a animais com alto CAR (menos eficientes).

O CAR é uma medida calculada individualmente, controlando o consumo diário dos animais durante um período médio de 2,5 a três meses. Neste cálculo, é realizado o registro diário da quantidade de alimento que foi oferecido e recusado, além do ganho médio de peso diário de cada um dos animais. Para os cálculos de desempenho produtivo, os animais são pesados no início da avaliação e a cada 28 dias até a pesagem final.

Vários são os programas de melhoramento genético no Brasil que estão adotando o CAR como ferramenta de seleção. O programa Nelore Qualitas, juntamente com a Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG, desde de 2010, vem utilizando essa ferramenta. O centro de avaliação da EVZ/UFG-Nelore Qualitas possui capacidade de alojar 120 animais, em baias individuais. Os animais avaliados durante o teste são selecionados dentro dos aptos a serem touros do programa e que estão entre os 1% melhores da safra. Após a identificação dos melhores animais para eficiência alimentar e custo de produção da arroba, dez animais são selecionados para teste de progênie, com seus filhos sendo avaliados no centro futuramente.

Existem outras formas de se fazer a medição do CAR, não há necessidade de manter animais em baias individuais. Pode utilizar de ferramentas que fazem o controle do consumo dos animais em baias coletivas. Essa ferramenta é muito utilizada em países do Hemisfério Norte e, recentemente, está sendo utilizada no Brasil. Conhecida como GrowSafe Systems (http://www.growsafe.com/), essa ferramenta nada mais é do que cochos equipados com balança e um sistema de leitura e identificação individual de cada animal através de rádio-frequência. A cada momento que o animal está em alimentação, o sistema acusa a presença dele e registra o peso do cocho no momento da entrada e da saída do mesmo. Sendo assim, por diferenças, calcula-se o consumo. Outra grande vantagem desse sistema é a possibilidade de avaliar o comportamento ingestivo dos animais, como quantidade de acessos ao cocho, tempo de permanência no cocho, horário de alimentação, etc. Todo esse trabalho é realizado automaticamente sem a necessidade de grande quantidade de mão de obra.

Os animais em baias individuais são muito mais custosos para se realizar medidas. Necessita-se de uma grande quantidade de mão de obra para as mensurações diárias de oferecido e recusado. Todavia, nesse tipo de sistema é possível determinar com mais precisão a composição exata da dieta ingerida pelos animais. Essa ferramenta é muito importante, pois bovinos, principalmente, os da raça Nelore têm um poder de seleção dos ingredientes da dieta muito grande.

Uma das grandes críticas a essa metodologia de avaliação de touros é a composição da carcaça dos indivíduos selecionados, na qual animais mais eficientes para CAR - que possuem um CAR negativo - depositam menor quantidade de gordura na carcaça. Essa deficiência deve ser corrigida avaliando animais com idade superior a idade em que os mesmos depositam gordura corporal e utilizando avaliações de composição de carcaça em conjunto ao CAR no processo de seleção, como é o caso do ultrassom para medida de cobertura de gordura e marmoreio.

Na avaliação de carcaça do teste de 2012, Qualitas/EVZ-UFG, foi predito através de modelos matemáticos o rendimento de carcaça dos animais do teste. Foi obtido um rendimento de carcaça previsto superior a 57% com peso adulto médio de 554 kg. Esses são parâmetros que devem ser adotados em conjunto ao CAR para seleção dos melhores animais.

Uma das tentativas da comunidade cientifica é a identificação de genes responsáveis pela característica CAR Negativo. Esse é um trabalho árduo, que vem sendo feito por instituições de pesquisas nacionais e internacionais e empresas privadas. Entretanto, os trabalhos com animais da raça Nelore ainda são muito escassos e com o número muito pequeno de animais por enquanto. Por esse motivo, foi encontrado o marcador específico para essa característica. Diante do exposto é importante salientar que a ferramenta CAR é mais uma no processo de seleção de bovinos, que deve ser considerada como um complemento a todas as outras medidas utilizadas no processo. Nunca como uma medida única.

*Juliano é professor-adjunto da DPA/EVZ/UFG - [email protected] **Victor é pós-doutorando do DPA/EVZ/UFG