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SOLO E PASTO cada vez mais produtivos

Integração lavoura e pecuária impulsiona o retorno financeiro no campo. É um universo de alternativas para a sustentabilidade

Luiz H. Pitombo

Ainda é possível encontrar produtores que imaginam a integração lavoura/pecuária (ILP) como a simples realização das duas atividades na mesma propriedade, o que não deixa de ser verdadeiro. Porém, é muito mais do que isso, pois pressupõe a existência das duas ocupando um mesmo espaço em rotação. Ora a terra está com a cultura, ora com os bovinos, e ambas se beneficiando das respectivas heranças.

A produção se intensifica, o que é uma necessidade nos tempos atuais, e os ganhos aumentam de forma significativa. Se um pasto degradado pode dar prejuízo ou um mísero retorno anual de R$ 45/ha, ao se adotar o cultivo da soja seguido por dois anos de pecuária com recria e engorda, o valor pula para R$ 1.125/ha. Caso a opção seja a integração com silvicultura através do plantio do eucalipto, o lucro vai para R$ 1.400/ha, como relevam cálculos baseados em unidade de demonstração da Embrapa Gado de Corte, no Mato Grosso do Sul.

De uma maneira simples, ela também pode ser utilizada na reforma de pastagens degradadas, quando os grãos obtidos ajudarão a amortizar os gastos e até a trazer lucro. Com este sistema em fazenda da região de Três Lagoas/MS, espera-se obter em 2012 o lucro de R$ 1.252,65/ha de pasto reformado com milho, onde os garrotes também aproveitam a palhada.

Vários são os produtores atentos à essa tecnologia e que a estão adotando por meio de diferentes culturas, ciclos e procedimentos, mais impulsionada com a forte presença de agricultores em pastagens de pecuária de corte. Parcerias neste sentido ocorrem em diferentes regiões do País, mas também existem pecuaristas que já incorporam a integração como prática rotineira ou na renovação de áreas degradadas.

Há muita terra disponível para isso quando se estima que de 117 milhões de hectares de pastagens cultivadas existentes no Brasil, mais de 50% apresentam alguma degradação. De uma ocupação média de 0,8 UA/ha (unidade animal de 450 kg), com a ILP podese tranquilamente dobrar para 1,6 UA/ha. Nesse contexto, também é preciso lembrar que tem muita área não degradada subutilizada.

O engenheiro-agrônomo Roberto Giolo de Almeida, pesquisador da área de sistemas de produção integrados (ILP e ILPF) da Embrapa Gado de Corte/MS, proexplica que o máximo dos benefícios da integração é atingido com a rotação, quando se melhora as qualidades físicas, químicas e biológicas do solo. Por meio de raízes mais profundas, os capins atacam a compactação do solo agrícola; as palhadas das culturas e forrageiras aliadas ao esterco animal aumentam o material orgânico e estimulam a vida no solo. Também é quebrado o ciclo de doenças e pragas. Cria-se um uso maior para máquinas e equipamentos e abrem-se novas oportunidades de renda. Tudo com o solo sendo preservado.

Mais especificamente para os pastos, como explica o pesquisador, estes se beneficiam de um solo melhor trabalhado com o aproveitamento da adubação residual da lavoura. Uma pastagem que se segue à lavoura, como enfatiza Almeida, “vem em boa quantidade e qualidade, com um valor nutritivo melhor em termos de proteína bruta (PB) e digestibilidade”.

O sistema de alternância das atividades e os tempos são variáveis, sendo que na Embrapa Gado de Corte estão sendo testados dois princípios, o primeiro deles com quatro anos de lavoura seguido por quatro de pasto. O segundo, que tem se mostrado economicamente mais viável, como informa Almeida, é o plantio da soja seguida de uma safrinha de milho, que é semeado junto com o capim. Após a colheita do grão, de 30-40 dias, o pasto poderá ser utilizado junto com a palhada do milho. A partir daí serão mais três anos de pasto até se retornar com a soja.

RECUPERAÇÃO E RENOVAÇÃO

Quando o pecuarista implanta a espécie correta de capim, realiza um manejo cujo nível de degradação do pasto não é elevado e não o estimula a adotar a rotação de atividades (ILP). Almeida diz que a opção pode ser recuperação do pasto através de algumas estratégias. Dentre elas, aponta a retirada de animais para descanso da área e correção do solo com calcário e adubações.

O uso da lavoura pelo pecuarista, que quebrará o ciclo do capim instalado, só se justifica quando se parte para a renovação da área por esta apresentar um estado elevado de degradação ou quando se deseja trocar a espécie existente, explica o pesquisador. Com a prática, é possível amortizar os gastos e até obter receita com os grãos obtidos.

Mas a opção pela lavoura nessa circunstância, como na rotação, deverá considerar outros aspectos importantes, como clima e características do solo propícias à atividade, bem como se dispor de maquinário e contar com mercado para a cultura que será instalada. Caso a opção seja pelo milho, como frequentemente acontece pela facilidade e pelo maior conhecimento prévio, o próprio pecuarista pode usá-lo na criação. A busca de agricultores para se estabelecer parcerias pode ser uma boa e interessante alternativa, facilitando questões como a disponibilidade de equipamentos e maquinário.

Roberto Giolo, da Embrapa Gado de Corte, explica que o máximo dos benefícios é atingido com a rotação

Em áreas com restrição à lavoura, é possível adotar-se um sistema silvipastoril protegendo com cerca as mudas no período de estabelecimento. Almeida recomenda que, de qualquer forma, o pecuarista busque o auxílio de um técnico para auxiliálo nas decisões e no bom planejamento.

Na adoção da ILP, Almeida sugere, tanto considerando a prática da rotação como na reforma, que se faça em 20% da área, para que o produtor vá se acostumando e que o sistema comece a rodar. Também salienta que quando houver condições, que sempre se deve buscar implantar gramíneas mais produtivas à que existia antes, pois o solo estará mais trabalhado. Nesse sentido, sugere a possível implantação, por exemplo, da Brachiaria brizantha, cultivares Marandu, Xaraés ou Piatã, e, em se tratando do gênero Panicum, das cultivares Tanzânia e Mombaça. Para a cultura que irá se fixar tanto faz o capim, mas a pureza das sementes é fundamental para que não haja introdução de invasoras que possam prejudicar a lavoura.

No caso da reforma, o pesquisador diz que normalmente se faz o plantio convencional, pois se busca trabalhar mais a área em termos de revolvimento do solo, descompactação e correção, o que não ocorre com o plantio direto (PD), este sim utilizado quando se faz a ILP em rotação. Quando das operações com o solo no plantio convencional, deve-se aproveitar para a instalação de terraços em curva de nível para combater a erosão, caso eles ainda não existam.

Há basicamente duas opções para a reforma com lavoura pensando-se em culturas de verão. A primeira é a realização inicial do plantio do grão, no caso uma soja precoce, que será colhida seguindo- se a semeação do capim, que poderá ser utilizado de 60 a 70 dias após. Já a segunda alternativa “é o plantio simultâneo do grão e do capim, o que é mais interessante pela facilidade do trabalho ser realizado numa só operação e o pasto poderá ser usado mais rápido, pois se desenvolve junto com a cultura”, comenta Almeida. Durante a colheita do milho nesse sistema, existe algum dano ao capim, mas este se recuperará, em 30-40 dias poderá ser pastejado aproveitandose também a palhada remanescente nesta época crítica do ano.

No plantio simultâneo, por vezes se espalha a semente do capim a lanço junto com a semeação do milho ou do sorgo. No entanto, diz que essa prática acarreta numa distribuição muito irregular das sementes da forrageira e assim não a sugere. Outra opção é o plantio do capim nas entrelinhas do grão, utilizando caixas auxiliares da mesma plantadeira e, finalmente, tem-se a possibilidade de se plantar na mesma linha do milho ou do sorgo a semente forrageira, que é colocada junto com o adubo e a uma profundidade maior. Com esta última prática, Almeida explica que a forrageira demorará um pouco mais para crescer, dando tempo para a cultura se estabelecer antes.

Para Antony Sewell, é necessário verificar mercado, maquinário, topografia, solo e clima antes de adotar ILP

A questão da competição é um aspecto que merece atenção no plantio nas entrelinhas, como salienta o pesquisador, pois poderá ser necessária a aplicação de um herbicida em subdosagem para o controle do pasto, evitando que comprometa a produtividade do grão.

O manejo de pragas e doenças na cultura, segundo o pesquisador, é realizado seguindo as recomendações usuais. Normalmente, diz que os problemas são menores, pois a área estava ocupada antes com outra espécie vegetal.

Depois de todo o trabalho, é fundamental que o pecuarista mantenha um bom manejo do pasto, faça as adubações de reposição para manter a área produtiva e sem acelerar a degradação.

PARCERIA E CRÉDITO FAVORECIDO

A consultoria Boviplan, de Piracicaba/ SP, que atua em todo o Brasil e também no exterior, tem trabalhado muito com propriedades de pecuária de corte. O engenheiro-agrônomo Antony Sewell, sócio da consultoria, conta que costumam sugerir a adoção da ILP, mas que sempre é necessário verificar as condições de mercado, maquinário, topografia, solo e clima antes de adotá-la.

Caso sua utilização seja interessante, mas o pecuarista não tenha perfil ou condições de implantar a lavoura, diz que a busca de parcerias com agricultores é uma boa saída, tanto em termos de rotação como da reforma, e “os agricultores têm visto isso com bons olhos nas diferentes regiões do País”, como tem observado. Ele salienta que é preciso se estabelecer uma boa relação comercial e que o arrendamento da área por dois anos deve ser a opção preferida, com o pecuarista recebendo a área reformada, além de dinheiro.

Ele avalia que “o uso da lavoura não é obrigatório na reforma dos pastos, mas é o melhor caminho, caso se consiga vantagem econômica com o sorgo, o milheto ou o milho, por exemplo, pois tem um custo elevado”, reconhece. Atualmente, diz que a maioria tem optado pelo último produto, em função dos bons preços e pela possibilidade de ser utilizado na própria fazenda como grão ou silagem.

Mateus Arantes, também engenheiroagrônomo que atua na consultoria, reforça a importância de se fazer um diagnóstico verificando o perfil da região e do produtor antes de praticá-la. Ele próprio, pecuarista da região de Três Lagoas/MS, começou a ILP há 12 anos na propriedade do pai e se mostra um adepto convicto, utilizando-a tanto em rotação como em abertura e reforma de áreas de pastagens.

Para aprofundar seus conhecimentos e experimentos, bem como divulgar a técnica entre os produtores, fez parceira com a Embrapa Gado de Corte e o Sindicato Rural local para a instalação na propriedade de uma URT, ou a chamada Unidade de Referência Tecnológica. Nela, foram instalados diferentes sistemas de ILP e ILPF que servem para estudos e dias de campo. Dentre as tecnologias que contribuiu para validar, estão a importância da palhada de braquiária no plantio direto da soja e os ótimos resultados em solos arenosos do uso da leguminosa estilosantes em pastagens recuperadas.

Ele relata que sempre enfatiza aos pecuaristas para que sejam persistentes e que é preciso buscar novos conhecimentos. “A tecnologia já existe, tem dinheiro e é preciso ir atrás”, diz. Mateus cita o Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), do governo federal, que dá incentivos e recursos subsidiados aos produtores rurais que adotem técnicas sustentáveis e que reduzam a emissão dos gases de efeito estufa. Ele próprio considera suas condições interessantes e tem utilizado esses recursos sempre que pode para diferentes atividades da propriedade.

INTEGRAÇÃO DÁ FUTURO

A Fazenda São Mateus, que leva o nome do filho do atual proprietário, Mário Arantes, está com a família há décadas e pelo visto irá continuar assim por muito mais tempo, com crescente produtividade.

Mário recebeu terras situadas na região de Três Lagoas de herança do próprio pai, que praticava uma pecuária extensiva. Começou a intensificá-las na década de 80, dividindo os pastos, e já utilizava lavoura nas reformas através de parcerias, mas não se fazia correção do solo e as adubações eram bem fracas. Foi no ano de 2000 que o agrônomo Mateus passou a implantar a ILP seriamente com a soja, uma novidade por lá.

A propriedade é atualmente dedicada à recria e à engorda pelo sistema de pastejo intensivo e com alguma suplementação, quando necessário, na terminação, sendo remetidas ao abate perto de 1.200 cabeças/ano com 24-30 meses e 18 arrobas. São utilizadas sementes transgênicas de soja e milho e se pratica a chamada agricultura de precisão.

A área total da fazenda é de 1.209 /ha, dos quais 100 ha são de matas; 40 ha, de áreas de preservação permanente; e mais 100 ha, de reserva legal em recuperação através de espécies nativas e seringueiras. A URT da Embrapa está em 25 ha e outros nove hectares ficam para a sede e as demais instalações.

Com a ILP em rotação, Mateus gira cerca de 560 ha, onde se alternam áreas só de pastos com outras de PD de soja em que são colhidas 50 sacas/ha e se obtém o equivalente a [email protected]/ha/ano de carne. O sistema começa por dessecar o capim e fazer o PD da soja, que depois de colhida tem a área semeada de capim. Após 90 dias, é liberada para o pastejo, ficando assim por 18 meses.

Mateus conta que a partir deste ano irá mudar a forma como roda e aduba esta área, passando a praticar 24 meses de lavoura e cerca de 18 meses de pasto. Ele conta que o novo sistema irá permitir que aumente a lotação nas águas, hoje em 4UA/ha para 6 UA/ha, mantendo o mesmo volume de gado numa área menor, conseguindo liberar terra para a soja com aumento no faturamento.

Basicamente, começará por dessecar o capim e semear a soja em PD. Colhida a soja, entra com o milho safrinha consorciado ao capim, que serão adubados, enquanto que a soja ficará com esta adubação residual. Colhido o milho, em junho e julho, irá liberar a área para pastejo dos animais até outubro, quando o ciclo se reinicia com o dessecamento do pasto para receber a soja por mais um ciclo antes de ficar só com pastos novamente. Atualmente, o capim fica com a adubação residual da soja.

Em outros 375 ha da fazenda adota o chamado Sistema Santa Fé de renovação de pastos. Após as tarefas normais de terraceamento, preparo, correção e adubação do solo, procede ao plantio do milho em dezembro, na estação chuvosa. O capim consorciado vai na mesma linha junto com o adubo numa terceira caixa da semeadeira. O espaçamento que adota é de 45 cm entre linhas, o que permite que o milho se estabeleça com mais vigor antes do capim. A Brachiaria brizantha, cultivar Marandu, que ocupa a fazenda, está sendo substituída pela Piatã nas renovações.

O milho é colhido em abril e maio, quando solta na área até outubro uma garrotada em recria que vai aproveitar o bom pasto e a palhada que ficou, obtendo a produção de [email protected]/ha de carne, além das 125 sacas de milho. O seu custo total está em R$ 2.177,35/ha, obtendo R$ 3.430,00/ ha de receita com o milho e o ganho de peso dos garrotes, o que lhe deixa limpo R$ 1.252,65/ha (veja tabela).

Na média da fazenda, considerando a amortização dos investimentos que realizou, incluindo bom volume de maquinário, Mateus Arantes informa que hoje tem o lucro entre R$ 400 a R$ 500/ha, mas que deverá dobrar quando a propriedade estiver ajustada totalmente. Ele costuma dizer que “não dá para ficar parado”.

CUIDADO NA MEDIDA CERTA

Um dos pontos cruciais para o bom manejo e manutenção das pastagens é saber o momento adequado de entrada e saída dos animais do piquete, o que nem sempre é tarefa fácil. Com isso, evita-se que ele seja utilizado em demasia, acelerando a degradação com o comprometimento do solo e do ganho de peso, ou ainda que o capim cresça acima do desejado, passando do ponto indicado de consumo. Através desses cuidados, aliados à reposição de nutrientes, se garante a qualidade nutricional e a boa capacidade de suporte por muito mais tempo.

Foi com o intuito de fornecer uma ferramenta prática e simples para auxiliar nesse controle que pesquisadores desenvolveram a chamada “régua de manejo”, lançada oficialmente durante as comemorações dos 35 anos da Embrapa Gado de Corte, em maio.

Dotada de uma série de graduações e considerando vários tipos de capins, indica com a cor verde a altura certa para a entrada dos animais e com a cor vermelha a hora da saída. Foram estabelecidas medidas específicas para as seguintes forrageiras: Brachiaria humidicola comum; B. decumbens, cultivar Basilisk; B. brizantha, cultivares Marandu, Xaraés e BRS-Piatã; além de três cultivares do gênero Panicum, P. maximum X P. infestus, cultivar Massai; P. maximum, cultivares Tanzânia-1 e Mombaça. As informações são passíveis de serem utilizadas em sistemas de pastejo contínuo ou rotacionado.

Até a apresentação pública, foram quatro anos de estudos e levantamentos realizados pelos pesquisadores da Embrapa Haroldo Pires de Queiroz (Gado de Corte) e José Alexandre Agiova da Costa (Caprinos e Ovinos). Uma das dificuldades encontradas foi justamente reunir e ponderar a gama de informações distintas sobre as alturas corretas das várias gramíneas, cada uma com suas peculiaridades.

A régua de manejo se encontra em processo de licenciamento e em breve uma empresa estará encarregada da comercialização.