Mercado

 

Arroba na contramão

Para preocupação do pecuarista, a recuperação esperada para fins de junho e início de julho não aconteceu e os valores da @, que se mantiveram estáveis por mais de 30 dias úteis em praças como São Paulo e Santa Catarina, continuaram sofrendo poucas alterações e estas, quando ocorreram, foram de queda.

De acordo com o observado em anos anteriores, o mês de junho determina, após o fundo da safra, um vale na oferta de animais terminados, visto que a oferta abundante do primeiro semestre, oriunda do descarte maior de fêmeas e da qualidade remanescente das pastagens, é reduzida (início da seca) e os animais da primeira fase do confinamento ainda não estão prontos. Em consequência disto, o período deveria trazer consigo sinais de melhora e valorização nos valores da @, o que não aconteceu. De fato, já no ano passado o contraste entre safra e entressafra observado foi menos acentuado do que em anos anteriores e, em 2012, este contraste, que já não chamava a atenção, foi praticamente imperceptível, quando não reverso.

Em todas as praças consideradas, houve desvalorização nominal dos valores da @, tanto à vista quanto a prazo, e consequente desaquecimento do mercado de animais de reposição, principalmente para as categorias mais próximas à terminação, que têm seu retorno de investimentos estreitamente atrelado à cotação do boi gordo. A dificuldade de sustentação dos preços da @ se deve, em grande parte, à boa oferta de boiadas e às dificuldades de escoamento de produção, ainda enfrentadas por varejo e atacado. Após o final do mês de julho, de mercado ainda travado, nem a primeira quinzena de julho foi razão

para melhora nos índices. Provavelmente, também o aumento da taxa de desemprego registrado no primeiro semestre tenha colaborado com este comportamento, visto que a população se mostrou mais cautelosa ao ir às compras, optando por alternativas de proteína mais baratas do que a carne bovina. Assim, embora os estoques estejam altos no mercado, as vendas não acompanham a oferta e pode-se, ainda, observar dificuldades no repasse de preços ao consumidor por parte das indústrias que, enquanto isto, para maior preocupação ainda do pecuarista, trabalham com margens confortáveis e com frigoríficos fazendo escalas de abate de acordo com sua vontade (estas têm atendido, em média, de seis a oito dias).

Em contrapartida, enquanto o mercado interno tenta se recuperar e anda na contramão, tanto em relação a valores quanto às tendências históricas de preços, o mercado externo parece prometer boas perspectivas. Recentemente, a Abiec anunciou previsões de até 10% de aumento nas vendas externas totais de carne bovina em 2012 e confiante em um breve e positivo desfecho das negociações com os russos e sua possível retomada de compras do produto brasileiro, afirma que o País tem motivos para voltar, inclusive, a liderar o ranking de exportação no mercado mundial. O crescimento mundial das exportações globais de carne bovina, bem como o desempenho brasileiro, que, aliado à abertura recente de novos mercados, tem sido positivo, pode trazer certo alívio, principalmente, para os produtores, visto que quanto maior é a demanda do mercado externo, mais maleáveis ficam as negociações com a indústria e, consequentemente, os entraves do mercado interno tendem a diminuir. Como fatores que ainda podem ser opostos a esta tendência, além do próprio embargo russo, que apesar das expectativas otimistas da Abiec ainda não foi solucionado, temos uma movimentação morna do mercado de exportação, que vem oscilando até o momento e mantendo os preços do gado no País estáveis, e a economia brasileira que, com o crescimento também abaixo das previsões feitas pelo governo, pode segurar o consumo.

No mundo, nos 21 dias úteis considerados pelo período analisado, que foi de 25 de junho a 23 de julho, houve retração no valor da @ em três dos quatro países analisados. O único país a ter alguma valorização, embora não muito significativa, foi a Austrália. Enquanto isso, Brasil, Argentina e Estados Unidos sofreram quedas, sendo que o último vem enfrentando, antes e durante o período analisado, diversas quedas no mercado do boi gordo, principalmente em consequência da seca e da redução da demanda do consumidor por carne, após ver o produto e alguns de seus métodos de processamento envoltos em escândalos e suspeitas relacionadas à segurança alimentar. Além disto, o país enfrenta a maior redução do rebanho já registrada.

Os valores médios pagos à vista para a @ do boi gordo no Brasil foram de R$ 92,45 em São Paulo; R$ 86,59 em Minas Gerais; R$ 82,71 em Goiás; R$ 86,10 no Mato Grosso do Sul; R$ 83,19 no Mato Grosso; R$ 84,49 no Pará; R$ 92,00 no Paraná; R$ 99,00 em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul, R$ 3,28/kg, sendo que das praças avaliadas este foi o único estado que apresentou algum aumento frente ao período anterior, na metade do período analisado para, depois, terminar também em queda. O gráfico mostra a evolução dos preços da @ pagos a prazo.

A média do deságio pago aos pecuaristas foi de 2,03%. Este valor representa um aumento de 2,87% em relação ao período anterior na diferença média entre os preços pagos pela @ à vista e a prazo, considerandose todos os estados avaliados.

O preço médio do bezerro ficou em R$ 651,13, representando queda de 0,21% em comparação ao período anterior. No período atual, os preços médios pagos pelo bezerro nas praças avaliadas foram de R$ 698,50 em SP; R$ 600,00 em MG; R$ 658,50 em GO; R$ 694,50 no MS; R$ 630,00 no MT; R$ 600,00 no PA; R$ 688,50 no PR e R$ 639,00 no RS. Na categoria desmama, os únicos estados que mantiveram a média de preços constante em relação ao período anterior foram MS e PA, sendo que, em todos os outros considerados na análise, houve queda.

O boi magro apresentou média de preços de R$ 1.107,41 nos estados avaliados, representando ligeira alta em todas as regiões. Esta alta foi de 4,31% com relação ao período anterior analisado e indica que, desta vez, a categoria mais erada teve maior destaque no mercado de reposição.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e o boi gordo se mantiveram constantes, dando sequência à desvalorização geral do preço da @ do animal terminado, já observada no período anterior.

Ante a conjuntura geral do mercado e poucas alterações de comportamento nesta época, quando já deveria se ter sinais de melhora, mas continua sofrendo com a boa oferta de animais também na entressafra, pode-se dizer que, enquanto as pastagens apresentarem qualidade suficiente para que os pecuaristas retenham animais à espera de preços melhores, a tão esperada valorização ficará difícil de ser conseguida. No geral, quando os pastos secam antes, causando redução significativa na oferta após o período de safra e esta redução se estende até o abate dos animais da primeira fase do confinamento, é que ocorre o início da valorização do preço da @ no ano. Devido às condições climáticas atípicas para a época e a irregularidade das chuvas, isso ainda não ocorreu em 2012 e, talvez, a partir do momento em que os pastos começarem a dar sinais de seca, o pecuarista veja alguma valorização nos preços da @, porém, aí, possivelmente compartilhada entre todos os elos da cadeia, o que não é muito animador.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil Boviplan Consultoria