Caprinovinocultura

 

Carne caprina MERCADO EM ASCENSÃO

A iniciativa de produtores e empreendedores vem ajudando na organização da cadeia e no aumento da oferta de carne no país

Denise Saueressig

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O caminho a percorrer ainda é longo, mas as expectativas são otimistas para o desenvolvimento do mercado da carne caprina no Brasil. Iniciativas de produtores e empreendedores vêm ajudando a organizar a cadeia para ampliar o fornecimento do produto e conquistar um maior número de consumidores.

O diferencial dos últimos anos vem da carne de qualidade, a partir de animais jovens e terminados adequadamente, destaca a veterinária Hellen Almeida, pesquisadora da Embrapa Caprinos e Ovinos. “A oferta de um produto adequado colabora para derrubar alguns tabus alimentares relacionados ao ‘gosto de bode’ que impediu a popularização do consumo por nichos mais amplos do mercado durante muito tempo”, argumenta.

Mesmo que o crescimento ainda seja tímido para o grande mercado consumidor, entre os clientes assíduos, a procura vem aumentando justamente pela melhoria da qualidade. “Esse público fiel é formado principalmente pelos consumidores ligados às gastronomias regionais, como a nordestina, a portuguesa e a árabe”, detalha a pesquisadora.

No Nordeste, onde estão os maiores rebanhos do país, tradicionalmente a criação é uma atividade de subsistência, caracterizada pelo pequeno produtor, com plantel inferior a 15 cabeças. “Aos poucos, esses criadores vêm recebendo estímulo, principalmente de programas governamentais, para aumentar seus rebanhos e rever suas formas de manejo. Crescem também os produtores com caráter mais comercial, predominantemente em áreas onde há o incentivo de associações e cooperativas de produtores ou a atuação de grandes frigoríficos, como já pode ser observado, por exemplo, em municípios da Bahia, na região de Feira de Santana”, cita Hellen. Nas demais regiões do país, a caprinocultura vem conquistando espaço em propriedades voltadas ao melhoramento genético e em empreendimentos que comercializam a carne a grandes supermercados e a restaurantes mais sofisticados.

Criador de caprinos desde 1995, o médico e empreendedor Wallace Scott Junior vislumbra um grande potencial para a atividade, mas reconhece que ainda é preciso muito mais organização e regulamentação para a cadeia produtiva. “De uma forma geral, a cabra e a ovelha não recebem a atenção que merecem no Brasil e que percebemos que existe em países da Europa, por exemplo. Muitos não sabem que são animais que têm retorno financeiro muito mais rápido em comparação com os bovinos”, salienta.

Na opinião do produtor, que também é presidente da Associação Paulista dos Criadores de Caprinos (Capripaulo), um dos principais gargalos é a falta de assistência técnica no campo, que encarece o suporte e o manejo para os produtores e atrasa o desenvolvimento do setor.

Na Granja Suassumé, em Piedade/ SP, Scott mantém um rebanho de 70 matrizes e dois reprodutores puros da raça Boer. O criador trabalha com a venda de animais a produtores comerciais e recebe demandas dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Norte. Cada exemplar é comercializado por valores que variam entre R$ 700 e R$ 1,5 mil. Este ano o mercado mostra sinais de aquecimento, segundo o produtor. “No mês de março, em uma semana, vendi 16 machos”, recorda. Além de seguir aprimorando a genética do rebanho para firmar credibilidade no mercado, o objetivo do criador, nos próximos anos, é ampliar a produção para atender a procura crescente por caprinos.

CRESCIMENTO ACELERADO

Em 2005, quando terminou a faculdade, o veterinário Gustavo Domingues planejava trabalhar com assistência a caprinocultores e, em meio às novas funções, percebeu que havia espaço no mercado paulista para investir na atividade comercialmente. Assim, ele investiu no próprio rebanho e, em 2007, criou a empresa CapriVales.

No início, Domingues comprava cabritos jovens de terceiros, principalmente de criadores do Paraná. A engorda e o abate eram feitos em São Paulo. Em 2009 foi lançada a marca Apris, com a ideia de elitizar os cortes e o posicionamento da marca e da empresa. “Até meados de 2011, eu comprava caprinos de terceiros e providenciava a engorda, o abate e a distribuição. Depois, com a intenção de desenvolver tecnologia e diminuir os custos de produção, comprei uma fazenda e comecei meu próprio rebanho, mas também continuo com a compra de animais de terceiros”, conta o veterinário, que é diretor comercial e sócio-proprietário da CapriVales e da Apris – Cabrito Carne Premium.

Hoje, a sede da Apris fica em São Paulo/SP e a fazenda CapriVales, em Bandeirantes, no Mato Grosso do Sul. O rebanho é formado por cerca de 1,2 mil fêmeas e 20 reprodutores. A projeção é ampliar o plantel para 5 mil matrizes até 2015. “Trabalhamos com cruza comercial da raça Boer, considerada a melhor para o corte e o consumo por ter até 78% mais carne do que cabritos de outras raças em cada quilo de carcaça”, explica Domingues.

O abate dos animais também é realizado no Mato Grosso do Sul, pelo frigorífico Piveta Assunção Strut. Mensalmente, são produzidas três toneladas de carne que chegam a supermercados e restaurantes em sete diferentes cortes. A empresa atende clientes nos estados de São Paulo, Bahia, Espírito Santo e Paraná. “O próximo passo é conquistar mercados no Rio de Janeiro, em Curitiba, no Recife e em Belo Horizonte. Em um ano, a meta é atender todo o território nacional, principalmente as grandes capitais. Também pretendemos investir em novos produtos, como linguiças resfriadas, hambúrgueres e cortes temperados”, revela o diretor da CapriVales.

Defensor da caprinocultura, Domingues acha que a atividade recebe pouca atenção por parte de grandes empresas e investidores, o que dificulta o desenvolvimento da cadeia e a redução dos custos. “Para evoluir, precisamos de investimentos, principalmente em genética, e envolvimento das grandes indústrias de medicamentos e de nutrição animal para baixar custos e ampliar a eficácia dos insumos”, observa.

RETORNO FINANCEIRO

Segundo dados de 2009, do levantamento Produção da Pecuária Municipal do IBGE, o Brasil conta com um rebanho de mais de 9 milhões de cabeças de caprinos. A Bahia reúne o maior plantel, com mais de 2 milhões de cabeças, seguida por Pernambuco e Piauí.

Por se tratar de uma cadeia que ainda apresenta certa fragilidade, o preço flutua bastante com as variações de demanda e oferta. Atualmente, na maioria dos municípios produtores, o criador recebe entre R$ 4 e R$ 5 pelo quilo de peso vivo. Frigoríficos que remuneram pela carcaça já processada pagam preços que variam de R$ 7 a R$ 10 no quilo da carcaça resfriada.

A pesquisadora Hellen Almeida, da Embrapa, afirma que a atividade é rentável, tendo em vista que muitos produtores têm custos bastante reduzidos, devido ao caráter desta produção e por utilizá-la como criação complementar, por exemplo, à bovinocultura. “Em criações mais tecnificadas e comerciais, apesar de rentável, ainda é necessário avançar bastante em técnicas de manejo e administração dos rebanhos para uma renda interessante para o produtor que desejar manter-se apenas com esta atividade”, assinala.

Em supermercados, o corte da carne varia entre R$ 16 e R$ 28 o quilo (costela e pernil, respectivamente). “Já em restaurantes, por tratar-se de um produto ligado à alta gastronomia ou à culinária regional, a agregação de valor chega a alcançar 500% do valor pago pelo quilo da carne. No Ceará, é possível comprar, em restaurantes, pernis de 1,5 quilo por valores entre R$ 35 e R$ 60”, acrescenta Hellen.

Pesquisadora Hellen Almeida: qualidade na oferta colabora para derrubar tabus relacionados à carne caprina

APELO NUTRICIONAL

O grande desafio da cadeia da caprinocultura, na opinião da pesquisadora da Embrapa, é o combate à informalidade, que responde pela maioria dos abates realizados no país. “O direcionamento adequado a estabelecimentos inspecionados, não apenas garante a segurança alimentar, como também permite que o mercado receba os melhores produtos, como, por exemplo, os cabritos nascidos em rebanhos leiteiros, não aproveitados no manejo. Na indústria, fêmeas de descarte e de animais em idade avançada são aproveitados através de tecnologias de processamento que não apenas aumentam o leque de produtos do mercado, como linguiça, hambúrguer e presunto, como também evitam a formação de novos tabus entre consumidores em potencial”, justifica.

Derrubar mitos também é um grande desafio para a atividade, e a missão só será possível com ações de marketing e com a valorização da qualidade do produto final que chega à mesa do consumidor. “A carne caprina tem um apelo formidável do ponto de vista nutricional e já é ‘figura fácil’ na alta gastronomia. O desafio principal, agora, é conquistar a dona de casa”, sustenta Hellen.

Granja Suassumé, em Piedade/SP, fornece animais puros da raça Boer para criadores de diferentes estados

Na opinião dela, a carne caprina tem um perfil que pode ser explorado por um mercado voltado para alimentos que apresentam características funcionais. “E esta é uma fatia de consumidores que não economiza para atender suas necessidades. É interessante que as associações de produtores prestem atenção a este nicho e invistam na promoção deste produto altamente promissor”, conclui.

O veterinário Gustavo Domingues, sócio-proprietário da CapriVales, ressalta os diferenciais da carne de cabrito, além da maciez e do sabor. “É um alimento com baixo teor de gordura, baixa taxa de colesterol e rico em cálcio e proteína. Também tem presença de ômega 3 e ômega 6, que desempenham um papel anti-inflamatório e estão diretamente ligados à resistência imunológica”, enumera.