Leite II

 

MEGALEITE 2012

Quebra de recordes, crescimento de 30% e debates técnicos de primeira linha

Larissa Vieira

O avanço genético das principais raças leiteiras do país foi a principal atração da 9ª edição da Exposição Brasileira do Agronegócio do Leite (Megaleite), realizada de 1º a 8 de julho, no Parque Fernando Costa, em Uberaba/MG. A feira registrou aumento no faturamento da venda de animais, quebra de recordes e debateu os desafios do setor leiteiro neste ano.

Dois temas centralizaram as discussões na Megaleite 2012: problemas no mercado interno e o uso do hormônio ocitocina para melhorar a produção. Durante a audiência pública externa da Subcomissão do Leite da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, realizada na feira, os produtores questionaram a falta de medidas contra a importação de leite do Uruguai e da Argentina e a redução do preço pago ao produtor pelo litro de leite. O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Mendes Ribeiro Filho, participou da abertura da audiência e se comprometeu a receber uma comitiva de criadores para debater as sugestões apresentadas. “Além de apresentar o alto nível genético das raças leiteiras, a feira foi importante em vários sentidos. Conseguimos fazer com que nossas reivindicações sobre o mercado de lácteos fossem ouvidas pelo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, e pela Subcomissão do Leite. Do ponto de vista econômico, a feira mostrou que o segmento de genética segue firme, apesar de o setor leiteiro sofrer com o alto custo de produção e com o baixo preço do leite”, diz o presidente da Girolando, José Donato Dias Filho.

O 2º Fórum do Zebu Leiteiro também integrou a programação de debates na Megaleite 2012. O uso da ocitocina foi abordado pelos pesquisadores João Alberto Negrão (FZEA/USP-Pirassununga, SP) e Ronaldo Braga Reis (UFMG-Belo Horizonte, MG), pelo produtor e pelo selecionador das raças Gir Leiteiro e Girolando, respectivamente, Maurício Silveira Coelho e Ronaldo Santiago, que é diretor de pecuária da Fazenda Calciolândia, criatório de Gir Leiteiro. O debate foi mediado pela gerente do PMGZ Leite, a zootecnista Mariana Alencar.

Maurício Coelho relatou que na Fazenda Santa Luzia, no município de Passos/ MG, onde são produzidos, em pico de safra, 18 mil litros/dia, a substância é uma ferramenta importante porque reduz o tempo de permanência dos animais na linha de ordenha e tem relação direta com a redução do intervalo entre partos. Ele pontuou que os cuidados sanitários devem ser extremos e explicou como é o protocolo no manejo da fazenda. “Nos temos uma equipe exclusiva para manusear o medicamento, diluir o produto comercial e preparar as doses que vão ser aplicadas nas vacas. O monitoramento é rigoroso. Agulha é individual. O procedimento preserva a sanidade do rebanho porque evita a transmissão de problemas patogênicos”, explica.

Ronaldo Santiago, da Calciolândia, trouxe para a discussão considerações para a ocitocina como um fator negativo na seleção do gado puro. “Nós buscamos no Gir Leiteiro aqueles animais capazes de produzir no sistema de ordenha mecânica sem a necessidade da presença do bezerro. Se aplicamos a ocitocina indiscriminadamente, estimulamos de forma artificial a descida do leite e igualamos as vacas dentro desta condição de seleção, e, por isso, não vamos conseguir identificar essa característica relacionada ao temperamento das matrizes. Além do problema de mascarar os dados importantes para o melhoramento genético, nós somos contra mecanismos invasivos que impõem sofrimento aos animais. Eu comparo o uso contínuo da ocitocina ao sofrimento pelo qual passam, por exemplo, os pacientes de hemodiálise”, disse Santiago.

O professor Ronaldo Braga Reis, da UFMG, conduziu um estudo em 80 animais. Ele afirmou que o uso do hormônio não gerou diferença significativa na produção, mas aumentou a curva de produção das lactações e reduziu o intervalo entre partos. João Alberto Negrão concorda que o hormônio pode representar um risco para projetos seletivos por alterar informações de características, mas ele destaca o medicamento como ferramenta tanto para indução do parto como para melhorar a eficiência dos projetos comerciais e condena o uso indiscriminado em 100% do rebanho.

LEILÕES E DISPUTAS

Os 12 leilões realizados na Mega leite atingiram um faturamento de R$ 9.221.580,00 com a comercialização de bovinos das raças Girolando, Gir Leiteiro e Holandês. Mesmo com um leilão a menos que a edição do ano passado, a mostra registrou um crescimento de 27,6%. Também foram comercializados bovinos em dois shoppings de animais. A Associação Brasileira dos Criadores de Girolando estima que o volume de negócios da feira (incluindo as vendas pelas empresas com estande no evento, leilões e shopping) tenha ficado entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões.

Já nas competições houve a participação de sete raças. Na pista de julgamento da Megaleite, as disputas envolveram mais de mil animais de cinco raças. Girolando, Gir Leiteiro e Pardo-Suíço tiveram exposições nacionais, com as duas primeiras encerrando o ranking. Já a Guzerá estreou um novo sistema de julgamento, voltado apenas para a função leiteira. O Regulamento Geral para Julgamento da Função Leiteira da Raça Guzerá, que acaba de ser implantado pela Associação dos Criadores de Guzerá do Brasil, vigorará até o final do ano em caráter experimental. A versão definitiva será encaminhada à ABCZ e passará a valer a partir da ExpoZebu 2013. A raça ainda contará no próximo ano com o “Ranking Nacional do Guzerá - Leite”. O resultado de cada raça está disponível no site das associações responsáveis.

A Megaleite registrou três recordes nacionais de produção no 23º Torneio Nacional de Girolando. A vaca Botique JM Monte Alverne é a nova recordista nacional após atingir a média de 86,850 quilos de leite e produção total de 260,550 quilos. Outra nova recordista nacional é a novilha BB Milk Emerson Nugget Jaguar FIV, que atingiu média de 59,733 quilos de leite e produção total de 179,200 quilos de leite. O terceiro recorde foi quebrado pela vaca ¾ Girolando Josimar M. Ela obteve média de 78,273 quilos de leite e produção total de 234,820 quilos.

Outras raças que realizaram torneios leiteiros foram Gir Leiteiro, Holandês, Guzerá, Sindi, Indubrasil e Simental. Os torneios das raças participantes tiveram mais de 100 fêmeas concorrendo e os resultados podem ser consultados nos sites das associações responsáveis.

LANÇAMENTOS E HOMENAGENS

A edição 2012 do Sumário de Touros Girolando foi lançada na Megaleite pela Embrapa Gado de Leite e pela Associação Brasileira dos Criadores de Girolando. O sumário, que neste ano será trilíngue para atender o mercado internacional, traz, entre outros dados, sete marcadores moleculares, sendo quatro associados à produção de sólidos no leite (gordura e proteína) e três relacionados a doenças hereditárias. Com isso, os produtores de leite poderão utilizar essas informações para selecionar reprodutores de maior qualidade genética nos rebanhos.

Para José Donato, Megaleite expôs alto nível genético das raças leiteiras

Pouco antes de anunciar a nova versão do Sumário de Touros, a Girolando prestou homenagem a criadores e a profissionais que vêm contribuindo para o desenvolvimento do agronegócio. No Mérito Girolando, categoria “Produtor de leite”, o homenageado foi José Coelho Vitor, titular da Fazenda Santa Luzia e um dos mais tradicionais selecionadores da raça Girolando. Na categoria “Criador”, o Mérito foi para Ellos José Nolli, que é selecionador de gado Holandês na fazenda Cachoeira, em Caeté/MG.

Na categoria “Mulher”, quem recebeu a homenagem foi a criadora Nazareth Dias Pereira. Em Carmo de Minas (MG), ela comanda o Grupo Sertão, que, além da criação de Girolando, conta com mais de 100 anos de tradição na produção e na comercialização de cafés de alta qualidade.

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Mendes Ribeiro Filho, entregou a homenagem para o deputado federal Paulo Piau, que recebeu o Mérito na categoria “Personalidade do Ano”.