Leite I

 

Retenção de PLACENTA

Embora seja um problema comum em vacas mais velhas, pode ocorrer também em novilhas

Sabrina Coneglian*

A retenção de placenta é uma das afecções clínicas mais frequentes do periparto, afetando em média 7% do rebanho leiteiro do país. Nas zonas livres de brucelose, após partos aparentemente normais e onde não se observe uma associação a qualquer fator predisponente conhecido, a incidência pode variar entre 3% e 12%. Contudo, situações particulares, como partos anormais (partos múltiplos, abortos e prematuros) e efetivos brucélicos, aparecem associadas a incidências que podem oscilar entre 25% e 61%. Em zonas onde a alimentação é carente em selênio, a incidência de retenção placentária pode atingir os 50%.

Este quadro resulta na ausência de contrações uterinas no momento do trabalho de parto ou de uma lesão na placenta. Além de alguns fatores como estresse, falhas de manejo, doenças metabólicas (hipocalcemia e cetose), bactérias, deficiência de vitamina (A e E) e minerais (iodo e selênio), diminuição ou aumento do período de gestação, distensão excessiva do útero, intoxicações, reações anafiláticas diversas, distúrbios hormonais (deficiência do estrógeno e progesterona), hereditariedade, sexo do feto (maior incidência em bezerros), brucelose, leptospirose e infecções causadas por Campylobacter fetus, Listeria spp e Rinotraqueíte Infecciosa bovina (IBR).

A principal causa constatada é a ausência de expulsão das membranas fetais no seu todo ou em parte em até 12 a 16 horas após ao nascimento do bezerro. Pode evoluir para cólicas, esforços expulsivos recorrentes, putrefação das membranas no útero a partir do 3º ou 5º dia pós-parto, com fluxo vulvar cinzento amarelado, fétido.

Embora seja um problema que acomete, geralmente, vacas mais velhas, pode ocorrer também em novilhas, nas quais pode ser considerado um caso ainda mais grave, pois a probabilidade de complicações subsequentes na vida reprodutiva desse animal aumenta, podendo levar até a futura infertilidade.

Para manter afastado esse problema, o produtor precisa investir em prevenção, afirmou Sabrina Coneglian

Segundo a maioria dos autores, a incidência da afecção é de, aproximadamente, 3,5% nas vacas primíparas e 24,4% ao 9º parto, e cerca de 72% dos casos de retenção se verificam em fêmeas com 5 a 7 anos de idade.

Quando a alimentação no último terço da gestação provoca desvios na relação fisiológica entre o cálcio e o fósforo, aumenta a incidência de retenção da placenta. Assim, quando se aumenta a razão Ca:P de 1,1 para 1,53 no último terço da gestação, consegue-se diminuir a incidência de 35% para 8%. Por outro lado, valores elevados desta razão (acima de 2,5) no mesmo período têm um efeito desfavorável sobre a contração do miométrio na altura do parto, elevando a incidência da afecção.

A retenção de placenta é um problema que pode ser minimizado com a adoção de cuidados relativamente simples no manejo e na alimentação dos bovinos. O período que compreende 60 dias antes do parto e 30 dias depois dele exige da vaca grandes esforços, isso porque ao término da gestação o feto encontra-se no estágio final de sua formação e sua estrutura óssea demanda grande quantidade de minerais. E, após o parto, a vaca precisa recuperar os nutrientes cedidos ao feto para repor reservas e estar o mais rápido possível apta a conceber novamente.

A consequência imediata desta patologia é a queda na produção de leite, e, conforme a gravidade da infecção, ocasionada invariavelmente, os sintomas podem ser: febre, toxemia e redução da ingestão de alimentos. Nos casos mais graves, a infecção pode levar à morte. Outra consequência da retenção de placenta é a demora do animal para recuperar a forma original do útero (involução uterina). Isso tem, como consequências na redução da taxa de prenhez do rebanho, queda no número de cios das vacas, redução na fertilidade das fêmeas e no número de vacas em lactação, aumento do intervalo de partos e gastos maiores com inseminação e medicamentos veterinários. Além disso, a fêmea que não consegue expelir a placenta torna-se fonte de contaminação ao meio ambiente e pode transmitir doenças de origem bacteriana para o restante do rebanho.

Quando o problema se faz presente, o uso de tratamentos hormonais acelera potencialmente o restabelecimento uterino. A indicação consiste na administração de hormônios que ajudem na expulsão das membranas retidas por aumentar as contrações uterinas. Um dos hormônios é a ocitocina, mas o seu uso é limitado, pois sua ação é eficiente de seis a 11 horas após o parto, período que ainda não é considerado retenção de placenta, além deste hormônio provocar, em alguns casos, redução futura de fertilidade.

Atualmente, tem-se recomendado a associação da antibioticoterapia com análogos sintéticos da prostaglandina, devido ao papel desta droga na involução uterina e pelo fato desta causar uma contração tetânica do útero, auxiliando na expulsão do conteúdo líquido do mesmo. Geralmente, utiliza-se uma ou duas aplicações com 24 horas de intervalo simultaneamente à antibioticoterapia.

A eficiência dos tratamentos deve ser mensurada não somente pela cura clínica, mas também pela fertilidade futura dos animais, visto que as condições decorrentes da retenção poderão interferir na vida reprodutiva futura das fêmeas afetadas.

A remoção manual e antibioticoterapia intrauterina são práticas comuns em veterinária para reverter quadros de retenção, mas estudos mais recentes mostram que a manipulação intrauterina diminui os mecanismos de defesa uterina e aumenta a chance de contaminação, portanto, é atualmente contraindicada. O tratamento com antibióticos sistêmicos é o que tem demonstrado maior eficiência no tratamento da metrite subsequente à retenção. Deve ser levado em conta que o uso de antibióticos envolve um período de carência para a venda de leite, mas a vantagem do uso dos mesmos é certamente maior, considerando as possíveis perdas se não for aplicado o tratamento.

Para manter afastado este problema o produtor precisa investir em prevenção, a fim de minimizar os fatores de risco. Em primeiro lugar, é necessário estruturar na propriedade um rigoroso programa sanitário de prevenção e erradicação das principais doenças. Também é preciso adequar a dieta dos animais em gestação, bem como das vacas em produção, com as formulações nutricionais ideais para as respectivas fases. Por último, reduzir de todas as formas possíveis o estresse diário com técnicas de lida gentis e investimento em instalações adequadas.

*Sabrina Coneglian é zootecnista, doutora em Nutrição de Ruminantes e integrante do Departamento de Inovação, Qualidade de Produto e Assistência Técnica da Vale Fertilizantes - [email protected]