Sobrevoando

 

Melhoramento II

Toninho Carancho

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O gado brasileiro passa fome. Pelo menos a grande maioria, e pelo menos em algum período da vida. E fome das grandes.

Vamos analisar alguns números empíricos para embasar as frases acima.

Peguei como amostragem alguns pesos de animais nas exposições pecuárias espalhadas pelo Brasil. Tanto de zebuínos como de taurinos. Não faço distinção nenhuma. Para esta amostragem não difere se os animais são Nelore, Guzerá, Brahman, Gir, Angus, Hereford, Simental, Charolês ou de qualquer outra raça. Neste caso, o comportamento é exatamente o mesmo para todas as raças. Inclusive, as sintéticas e compostas, que não citei.

Nestes pesos das exposições, podemos notar realmente o potencial genético de ganho de peso do gado. Animais com mais de 400kg aos 9 meses. Outros com mais de 500/600kg com um ano de idade. Uma maravilha. Realmente impressionante. Salvo, é claro, algum engano na data de nascimento, o que pode acontecer, afinal ninguém é perfeito.

Mesmo descontado algum engano na idade, podemos reparar que praticamente em todas as raças encontraremos animais superando os 400kg com um ano de idade, tanto machos quanto fêmeas. Ótimo!

Agora, vamos para o campo, encontrar com os primos pobres (e muitas vezes também os irmãos) do gado de exposição.

E o que encontramos? Normalmente, o gado de campo está pesando a metade ou menos do que seus irmãos/primos ricos. Na desmama pesam algo como 160kg. Depois encaram a seca ou inverno e, ao completarem um ano, pesam mais ou menos o mesmo do que na desmama. Parece brincadeira, mas não é. Cinco ou seis meses após a desmama, boa parte dos bezerros pesam menos do que na desmama. Outros empatam e alguns superam um pouco este número.

Na exposição com um ano – 400kg. No campo com um ano – 200kg.

E onde está a diferença? Na genética? Com certeza não. Eles são primos. Ou ainda, irmãos.

Será, então, o manejo sanitário? Imagino também que não, apesar de que pode afetar um pouco. Chuto, para não deixar como zero, uma influência de 10%.

A grande diferença está na comida. Com certeza, 90% ou mais desta diferença de peso está na alimentação.

Mas parece que a comida não tem o mesmo glamour do que a genética. Todos sabemos que elas devem andar juntas, mas, neste caso, a genética é a prima rica e a comida, o patinho feio.

É legal falar de genética. Há muitas coisas novas e muito boas acontecendo. É moderno, up to date, descolado, enfim, tudo de bom falar de e sobre genética. Marcadores, DNAs e tudo mais.

Já falar de comida é meio chato. Sem graça. Não é nobre. Mas o nosso problema está na comida, na alimentação.

Se resolvermos, ou pelo menos diminuirmos a fome, aumentaremos muito todos os índices da pecuária.

Temos de falar mais em adubação de pastagens, introdução de novos capins e leguminosas, suplementação a campo, manejo dos pastos, lotação.

Nosso gado tem potencial genético para render muito mais. O melhoramento da qualidade e da quantidade de comida precisa acompanhar o melhoramento genético.

Hoje, o gado brasileiro é uma Mercedes andando em estrada de terra esburacada. Não precisamos trocar a Mercedes e sim melhorar a estrada.