Caindo na Braquiária

Manejo caprichado no MS

Estragou o macarrão colocando essa pimenta malagueta no prato!

- Zadra, não vai conseguir comer!!! - ouvi ao fundo. Titubiei, mas aquele odor não me enganava....

O cheiro que o pote de pimenta malagueta exalava era o perfume que se transforma em sabor para o amante de uma boa pimenta curtida no azeite. A iguaria acompanharia um maravilhoso macarrão ao molho vermelho e linguiça.

Iniciamos nossa semana de viagem pelo Sul do MS, em Naviraí, na Fazenda de Claudio Viero, entusiasta do Senepol. Parte da fazenda está arrendada para cana, e Claudio pretende, no futuro, manter um nível de lotação alto, com o uso da rotação de pastagens no verão e suplementação no inverno.

Naviraí, possuindo solo latossolo roxo, foi invadida pela usina de cana, contando, no entanto, com um rebanho efetivo de 250.000 cabeças, na maioria corte. Grandes pecuaristas, que ali fincaram raízes, buscaram, pela proximidade, áreas no Chaco Paraguaio, região que já atraiu os brasileiros pelas terras baratas. Ali a dificuldade é o escoamento da produção de bois para abate, já que são pouquíssimos abatedouros atuantes no Paraguai e por vezes localizados a mais de 800 km das fazendas. Neste ano, Claudio inseminará com Angus boa parte da vacada, a fim de produzir o meio-sangue precoce tão procurado hoje.

Já em Nova Andradina passamos o dia na fazenda administrada pelo Lindolfo, exímio profissional, que há três anos fazia o ciclo completo com 10.000 matrizes e decidiu dar mais peso para a recria e a engorda. Atualmente, são apenas 2.000 matrizes Nelore e cruzadas. Nessa ótima fazenda são 142 centros de manejo, com cocho de sal, bebedouro artificial e cochos para suplementação dos lotes no inverno. O sistema de pastejo rotacionado em cada centro desses conta com 4 a 8 divisões de pasto, mantendo, no verão, em torno de 600 kg de lotação por ha e 380 kg no inverno. É administrada ração de baixo consumo (2 kg/dia) logo depois da castração, em maio, quando os machos atingem de 350 a 380 kg, até que sejam abatidos em novembro.

Para 2013, a fazenda implantará o confinamento. Como cita Lindolfo, “com o confinamento, consigo manter o mesmo número de cabeças nas pastagens, no entanto, diminuindo a lotação das mesmas, pois retiro do pasto, em julho, bois de 420 kg e substituo por bezerros desmamados com 230 kg. Com essa prática, mantenho minhas pastagens na seca com a carga mínima sem prejudicar seu desenvolvimento no futuro”.

Já em Bataguassu, na fazenda administrada pelo zootecnista Zé Eduardo, me deparei com um rebanho de Nelore com carcaça moderna, tamanho mediano, profundo e com altíssima produtividade. A cabeceira das 2.000 vacas que participam do programa são inseminadas com “Nelore prova” e o fundo com Angus, além de contar com mais 600 vacas meio-sangue Angus. As quais vêm sendo inseminadas com Bonsmara e surpreendentes. Foi na boca da noite que me maravilhei com primíparas precoces paridas de um lado da cerca e as secundiparas precoces paridas do outro, que emprenharam muito cedo, aos 500 kg.

Ciceroneado por Neto, Sra. Rose e Jr, já em Santa Rita do Pardo, conheci o sistema pecuário dos Cavalli, tradicional família daquelas terras abertas pelo seu patriarca, que deixou gado e amor pelo corte. Zé Renato, Gustavo, Lucas e Rafaela já são a próxima geração que desfruta e melhora o rebanho. Na fazenda do Neto Cavalli, vem sendo implementando o sistema de cerca elétrica, com hastes de plástico de alta dureza, maleáveis e que já servem como isoladores. Já Sra. Rose, proprietária de outro quarto (1/4 do grupo Cavalli), delegou a direção aos filhos Gustavo e Zé Renato, que transformaram aquelas terras fracas em verdadeiros oásis verdes em pleno julho, abrigando vacas de ótimo porte e bezerros meio-sangue Angus muito pesados.

E, fechando a ótima semana de visitas, foi cortando os eucaliptais que ultimamente tem tentado imolar a pecuária da região de Três Lagoas que cheguei à fazenda administrada pela Cristiane, propriedade especializada em cria, mantendo um rebanho matrizeiro de 7.000 animais, onde a rotina monástica do sistema de engorda não se vê ali. Fiquei muito impressionado com o melhoramento genético ocorrido nesse rebanho, produzindo novilhas Nelore de reposição nas melhores vacas e bezerros cruzados Angus naquelas de pior avaliação genética. No esquema reprodutivo da fazenda tocada pela Cristiane não há estação de monta, onde todas novilhas entram em reprodução com 14 meses. Aquelas que não emprenham são inseminadas com 24 meses de idade. Caso as primíparas chamadas de precoces (emprenhadas aos 14 meses de idade) não reconceberem, na próxima estação serão destinadas ao abate.

Ao final da noite, foi na chácara do Claudio, após repetir a maravilhosa pimenta malagueta acompanhada pelo macarrão, que mais uma vez me certifiquei que tenho de acreditar na pecuária eficiente.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]