Do Pasto ao Prato

DEVEMOS TER ORGULHO DOS NOSSOS CONFINAMENTOS?

Em 2008, fui convidado a palestrar no Congresso Mundial da Carne, na África do Sul, sobre as perspectivas da pecuária de corte brasileira. Apresentei um breve resumo do que estava acontecendo por aqui, inclusive, o crescimento dos confinamentos brasileiros, mostrando dados da nossa pesquisa Top 50 BeefPoint. Expliquei que o percentual de animais confinados, frente ao total abatido, era pequeno, mas relevante.

Após a palestra, fui criticado por alguns brasileiros presentes no evento. Eu não deveria falar de confinamento, quando nossos concorrentes, como a Irlanda, só mostravam fotos de animais a pasto, foi um dos comentários que recebi. Aquilo me intrigou um pouco, pois era difícil negar a importância dos confinamentos, já naquela época, e também acreditava que era complicado “tampar o sol com a peneira”.

Neste ano, mais uma vez durante o Congresso Mundial da Carne, dessa vez na França, ouvi um palestrante brasileiro comentar das vantagens da nossa pecuária, incluindo que só tínhamos animais a pasto e não usávamos grãos (que poderiam ser usados na alimentação humana) em confinamentos de gado de corte. No dia, pelo Twitter, brinquei: 4 milhões de animais confinados não é pouca coisa.

Apesar disso, acredito que há bastante gente que compartilha da visão de que devemos falar que nosso boi é de capim e ponto final.

Eu continuo acreditando que cada vez mais estamos na era da transparência. Os gringos, pelo menos os informados, sabem que temos confinamentos. Será que isso é motivo de vergonha ou de orgulho para nós?

O confinamento cresce no Brasil. Veja, por exemplo, a quantidade de eventos sobre confinamento que aconteceu em 2011 e 2012. Outros temas, tão ou mais relevantes pouco são discutidos. O BeefPoint foi o único a realizar dois workshops sobre pecuária de cria, o primeiro em 2009 e o segundo neste ano. A engorda a pasto nunca teve um evento exclusivo. Vamos realizar o primeiro do Brasil em outubro. Mas sobre confinamentos, tivemos inúmeros. E, nos que participei, todos contaram com grande público.

Ou seja, o tema confinamento é relevante e as pessoas querem se informar. Querem aprender e fazer melhor. E isso é muito bom. Confinamento é curto prazo, é risco maior, é tecnologia. Precisamos aprimorar conhecimentos para ter resultado financeiro e a cada ano surgem novidades em nutrição, aditivos, gestão, etc.

Quando olhamos os melhores confinamentos do exterior e comparamos com os nossos melhores, vemos que estamos muito bem. Essa foi uma das conclusões do nosso grupo de viagem à Austrália, em maio. Visitamos um ótimo confinamento no estado de Queensland, com capacidade para 32 mil cabeças. Quando comparamos com o que há de melhor por aqui, percebemos que estamos muitíssimo bem. Somos tão bons ou melhores que eles.

O Brasil tem feito um ótimo trabalho, até porque temos muita gente competente estudando, pensando e visitando ótimos confinamentos fora do Brasil para aprender e aplicar aqui. No workshop sobre confinamento que realizamos em abril, minha conclusão foi de que confinamento no Brasil é uma junção de tecnologia com empreendedorismo. E essa junção tem funcionado muito bem, pois alia dinamismo e velocidade com conhecimento.

Outro ponto é que o confinamento é uma ótima ferramenta para se produzir boi a pasto. Temos uma grande vantagem frente a muitos outros países. Estamos numa região tropical, com amplas pastagens e chuvas abundantes. No entanto, quanto mais eficientes formos em usar nossos pastos, mais claro fica que temos sazonalidade de produção. Pasto produz muito mais nas águas do que na seca. Mesmo em pastos irrigados, pois é uma questão de água, temperatura e horas de sol por dia. Ou seja, se só usarmos pasto sem nenhum tipo de confinamento ou suplementação, estaremos travados pelo potencial produtivo da seca e não pelo potencial das águas.

Além disso, o pasto é excelente para recria e menos eficiente na fase final da terminação. Onde temos um boi em acabamento, podemos colocar dois bezerros-garrotes, cada um ganhando mais peso por dia. Até por isso, muita gente diz que o confinamento é uma excelente estratégia dentro do sistema de produção, não uma técnica isolada. Quando você integra pastagens bem manejadas com confinamento, a eficiência aumenta.

Vale lembrar também que a agricultura está crescendo no Brasil e, com isso, os subprodutos. Quanto mais perto o confinamento estiver de comida barata, mais eficiente será. Em SP, a polpa cítrica é muito utilizada. Em outros estados, há muitos subprodutos da soja, milho, sorgo e até algodão. A integração lavourapecuária não precisa ocorrer na mesma área, para ser benéfica. Se seu vizinho faz agricultura, suas chances de comprar bons ingredientes para o confinamento aumentam.

O confinamento também é uma forma de aumentar o peso de carcaça. Com isso, teremos mais quilos de carne por animal abatido, mais quilos de carne produzidos por vaca. Mais quilos de carne por hectare.

Ainda devemos lembrar que o Brasil termina 90% do gado a pasto. E que o sistema de produção brasileiro é baseado muito mais do que 90% a pasto, pois 100% (ou quase) da cria acontece a pasto. Mas não devemos criar falsas dicotomias.

Um dos aprendizados que trouxe de Austrália foi ver uma mesma empresa produzindo carne de Wagyu com mais de 400 dias de confinamento, carne de Angus com 100 dias de confinamento e carne de gado a pasto. Diferentes opções, para diferentes mercados e demandas do consumidor. Qual é o melhor? Não há resposta. Atenda seu consumidor da maneira que ele deseja.

Ao mesmo tempo, podemos (e devemos) vender melhor nosso gado criado a pasto. Há oportunidades para isso e devemos explorar mais a fundo. Faz-se pouco. E também nos enganamos achando que só o Brasil tem boi a pasto. Tenho uma coleção de materiais promocionais de carne bovina dos mais diversos países. Uma infinidade de países, dos mais diversos continentes, fala que tem boi a pasto. Ou seja, não estamos sozinhos nesse mercado.

Minha conclusão é que devemos ter orgulho do nosso sistema a pasto, das vantagens que pecuária tropical do Brasil oferece, ao mesmo tempo que temos orgulho dos nossos confinamentos. Não é preciso ignorar, fingir que não existe ou negar um sistema para elogiar o outro. Até porque não adianta esconder uma verdade que está fácil de ser observada. É a minha opinião, mas quero escutar a sua. Envie seu comentário.

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)