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Pra quem VENDER?

Pecuaristas pressionam CADE e BNDES contra a concentração de frigoríficos no Mato Grosso

Bruno Santos

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Uma série de ações nos últimos meses vem mobilizando o setor. Pecuaristas cobram que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pare de “financiar” com dinheiro público o monopólio promovido pelos frigoríficos e que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) analise com mais rigor as aquisições feitas pelas indústrias.

O estado do Mato Grosso, detentor do maior rebanho bovino do Brasil, é o que tem a situação mais grave, segundo dados divulgados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA). Quase metade da capacidade frigorífica instalada pertence apenas a uma empresa.

Este é o retrato de uma situação que se agravou nos últimos quatro anos. Em 2008, o JBS respondia por apenas 14% dos abates no Mato Grosso. Número que saltou para 48%, de acordo com informações do IMEA apresentadas pela Acrimat durante o primeiro encontro do Movimento Contra o Monopólio. No Nordeste e no Noroeste do estado, a situação é ainda mais crítica: o grupo detém 100% da capacidade de abate (veja tabela na página seguinte).

O superintendente da Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat), Luciano Vacari, considera que o quadro tornou-se irreversível, devido à proporção que se chegou. Para o dirigente, a única alternativa é que o Governo Federal deixe de ser condescendente com a situação. “Ao depositar todas as fichas para tornar um único grupo o maior frigorífico do mundo, o governo está sendo injusto com as demais indústrias, que poderiam estar funcionando”, avalia o executivo.

O grande motivo do movimento é para que o governo não financie mais esse tipo de estratégia e que o CADE, de agora em diante, fiscalize todas as aquisições e arrendamentos a serem realizados. Vacari cita, como exemplo, a fusão da Sadia e da Perdigão, que resultou na BR Foods. Na ocasião, o órgão interviu e fez ressalvas para validar a negociação.

O grande problema é que só tem um comprador pelo boi e que paga o preço que ele quer, afirmou Luciano Vacari, da Acrimat

Os pecuaristas pedem também uma explicação lógica dos órgãos sobre a política de concessão de crédito do Governo Federal. “Não é justo que alguns peguem dinheiro do BNDES (destinado ao desenvolvimento nacional) para comprar plantas na Argentina e no Uruguai, criar bancos, confinamentos e fechar plantas no Brasil”, argumenta o superintendente da Acrimat. Já o presidente da Acrimat, José João Bernardes, destaca, também, que não é só o produtor que perde com a cartelização. “O monopólio dos abates não atinge apenas o produtor rural, que fica refém das indústrias, mas também o consumidor, que fica sem opções de compra. É inadmissível e vamos desencadear uma série de ações para evitar que isso continue”, disse.

PANORAMA DO MT

Mato Grosso detém o maior rebanho bovino do Brasil, com 29 milhões de cabeças, e também concentra a maior parte do problema. O estado conta com 39 frigoríficos capazes de abater 38.457 cabeças/dia. Entretanto, apenas 27 operam no momento, com 30.802 cabeças/dia, uma queda de aproximadamente 24%.

O resultado recai diretamente no bolso do pecuarista, que viu o valor da arroba do boi gordo cair 6%, de acordo com as contas de Luciano Vacari. Em Água Boa, situada na região Leste do estado, ainda pior, com cotação sendo achatada em 10%. “Só há um comprador (o JBS) e ele paga o preço que quer pelo boi”, explica.

A média da arroba do boi no Mato Grosso é R$ 85. Em Alta Floresta, a 900 km da capital Cuiabá, a cotação está em RS 86. Já em Juruena, a 20 km de Juína, que, por sua vez, encontra-se a 700 km de Cuiabá, o boi também vale R$ 85. Em Barra do Garças, na divisa com Goiás, a 1 mil km de São Paulo, o valor baixa para R$ 83.

A região nordeste do Estado tem seis frigoríficos. Destes, três estão fechados e são do mesmo dono. “Ainda tem a questão dos impostos, que, toda a vez que a gente briga e negocia com o governo para reduzir, alguém inviabiliza pelos muitos interesses envolvidos. Boa parte prefere comprar boi em Barra do Garças para abater em São Paulo”, revela Vacari.

A situação chegou a tal ponto que tem produtor repensando o confinamento por falta de opção para abater os animais, confidenciou Vacari.

O superintendente salienta ainda que esse impasse não é problema do pecuarista, mas, sim, de todo mundo, pois o produtor tem de ter uma base para se manter vivo na atividade.

Talvez se existisse uma logística melhor e mais eficiente, o frete pudesse ser mais barato e favorecer o produtor, mas Vacari destaca que o pecuarista não tem controle sobre a condição das estradas. “A melhoria da malha viária não depende do pecuarista. Essa é apenas um dos gargalos da questão. O grande problema é que só tem um comprador de boi que paga o preço que deseja.”

Como soluções para a triste realidade, já foi proposto que os próprios produtores instalassem um frigorífico próprio. Esse tema já esteve muito em pauta nas reuniões da Acrimat. “Nossa associação tem, hoje, uma diretoria executiva que fica em Cuiabá e mais 16 regionais espalhadas pelo estado. Não vamos participar, mas, se algum associado ou alguma regional quiser construir, já combinamos pagar e fornecer a consultoria necessária.”

Vacari reconhece a grandeza do JBS e destaca que até hoje não houve problemas de pagamentos ou rendimentos. “O único erro dele é o operacional de relacionamento com o pecuarista. Se tivéssemos um mecanismo claro e justo de formação de preço no Brasil, esse problema estaria resolvido”, finalizou o superintendente.

HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS

O primeiro encontro do setor produtivo do Movimento Nacional Contra o Monopólio dos Frigoríficos foi realizado pela Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul), no dia 14 de maio deste ano, em Campo Grande/MS. Mais de 1.500 produtores rurais, entidades representativas, políticos e autoridades de todo o Brasil participaram.

Durante o encontro foi elaborada a “Carta de Campo Grande” (entregue à Frente Parlamentar da Agropecuária da Câmara Federal e no Senado), na qual os pecuaristas mostravam grande insatisfação com a concentração frigorífica no estado e cobravam uma investigação sobre os desdobramentos das mesmas. Ainda na ocasião, os pecuaristas se comprometeram a criar um Conselho Nacional de Pecuaria de Corte, para encaminhar as questões da cadeia da carne nas instâncias políticas, administrativas e institucionais pertinentes.

Primeiro encontro do Movimento Nacional Contra o Monopólio dos Frigoríficos, em Campo Grande-MS

Logo após, foram realizadas duas reuniões: uma com o CADE e outra com algumas indústrias frigoríficas em São Paulo/SP.

Em resposta a todas as solicitações feitas pelos pecuaristas, Vinícius Carvalho, presidente do CADE, informou que o órgão irá realizar um estudo detalhado sobre o setor de frigoríficos, que vem registrando um volume considerável de fusões e aquisições nos últimos anos. Após reunião com membros da Frente Parlamentar, Carvalho disse que o segmento de abate de carnes terá um acompanhamento especial por parte da autarquia.

Em um novo episódio, o tema voltou às discussões quando o Canal do Boi reuniu os principais representantes do setor para um debate. Estiveram presentes os presidentes da Acrissul e da Acrimat - Francisco Maia e José João Bernardes - e o presidente do Grupo JBS, Wesley Batista, que foi evasivo na resposta aos questionamentos.

A Acrimat realizou ainda, em Campo Grande/MT, 2° Encontro Nacional da Pecuária de Corte, que reuniu as entidades representativas de toda a cadeia produtiva da carne. Pela primeira vez, pecuaristas, industriais e varejistas sentaram para tratar dos problemas e das ameaças do setor e buscar soluções e oportunidades para todos. O evento contou com a participação de mais de 300 pessoas, com debates calorosos. No término do evento, o presidente da Acrimat, José João Bernardes, anunciou que “o 3º Encontro da Cadeia da Pecuária de Corte” será realizado no mês de agosto em Presidente Prudente, no interior de São Paulo.

COMUNICADO

Procurados por nossa reportagem, o JBS comunicou, através de sua assessoria de imprensa, que o frigorífico tem uma participação nacional de mercado de apenas 17%. Assim, não reconhecem o cartel. Ainda informou que a empresa criou recentemente uma área de relação com o pecuarista para estar mais próximo dos produtores e eliminar qualquer tipo de ruído que possa existir na relação com os fornecedores de matériaprima. Entretanto, a média nacional camufla os resultados onde a concentração é um problema.

Sobre os rumores que o JBS estaria arrendando plantas e fechando, a assessoria informa que não é verdade e que de todos os frigoríficos que a JBS comprou ou arrendou esse ano nenhum foi fechado. Todos eles estão operando com uma capacidade superior a 80%.