Seleção

 

UTILIZANDO TOUROS JOVENS com segurança

Leonardo Souza*

Em recente palestra no Dia de Campo da Fazenda Capivara, em Piacatu/SP, sobre a contribuição de touros geneticamente avaliados para o aumento da produtividade, o Prof. José Bento Sterman Ferraz, da USP-Pirassununga/ SP, apresentou uma lista de touros que são utilizados com bastante intensidade em inseminação artificial no Brasil. A lista chama a atenção pela grande maioria de touros com mais de 10 anos de idade. Um deles com 22 anos! Ele alertou para o seguinte ponto: pelo perfil de venda de sêmen no Brasil, será que não estamos conseguindo produzir touros jovens com genética superior? Onde anda o melhoramento genético pregado por pecuaristas e programas de avaliação genética?

A utilização de genética “antiga” é fruto de vários fatores e tem explicações das mais variadas. Não cabe discutir estas explicações, mas esclarecer a importância de se utilizar touros jovens no rebanho. Para tanto, é preciso definir que tipo de genética estamos buscando para o rebanho.

Um pré-requisito é saber se o sistema de produção em que o touro prospectado foi selecionado é similar ao sistema de produção da fazenda em que ele será utilizado. Reprodutores selecionados a pasto terão melhores desempenhos em fazendas extensivas. Touros selecionados para serem campeões de pista, serão melhores para fazendas semelhantes. No 2º Workshop sobre Genômica, realizado em Araçatuba no início de 2012, foi apresentado um gráfico mostrando que existe diferença genômica entre touros selecionados para cada sistema de produção. Também não cabe crítica, mas vale alertar para a diferença entre eles. Cada pecuarista tem um objetivo para o seu negócio.

Entretanto, vamos focar na genética para os pecuaristas cujo objetivo é produzir o melhor boi gordo, a melhor carcaça ao frigorífico. Por que melhor carcaça? Porque, no final, quem paga as contas é o peso de “carcaça quente” saudável - sem cabeça, couro, cupim, vísceras e patas.

E o que é a melhor carcaça para o pecuarista? Aquela que dá maior lucro. É aí que entra a genética, que, combinada ao sistema de produção (o manejo, a sanidade, a nutrição e o ambiente em que o animal é criado), irá determinar a lucratividade. E não dá pra falar de lucro sem falar de terra. Portanto, a melhor carcaça é aquela que, no final das contas, permite ao pecuarista atingir o maior lucro por hectare. Pois, se este lucro não for o suficiente para atender as expectativas, ele pode explorar a terra com outra atividade.

Assim, o melhoramento genético deve ser orientado com o seguinte objetivo: identificar e multiplicar os animais que proporcionarão a melhor carcaça, resultando em maior lucro por hectare no sistema de produção adotado.

Se além disso, caracterizarmos o sistema de produção como sendo a pasto, podemos, então, definir a melhor carcaça. É uma carcaça com peso máximo de 23 @ (assim definida pelos frigoríficos), produzida com o menor custo (R$/@), na menor área de terra e no menor tempo possíveis. É isso que determina o melhor resultado por hectare/ano na pecuária de corte.

E, como esta carcaça é resultado do processamento de um animal vivo, deve-se concentrar nas características que aumentem a quantidade de quilos de carcaça por hectare e que, por outro lado, diminuam os custos de produção.

E quais seriam estas características? Para ser bem objetivos, são cinco:

Fertilidade = produzir um bezerro por ano;

Precocidade sexual = produzir o primeiro bezerro aos dois anos de idade;

Ganho de peso = alcançar o máximo de peso no menor tempo;

Rendimento de carcaça = alcançar o máximo peso de carcaça com o menor peso vivo;

Eficiência alimentar = alcançar o máximo peso de carcaça com o menor custo.

Note que o objetivo maior é a lucratividade para a fazenda. Não dá para fazer melhoramento genético por partes. A genética apropriada é selecionada por pecuaristas com foco nas cinco metas propostas. E a base para selecioná-las é identificar

os melhores animais para cada uma delas e multiplicá-los. E, do outro lado, eliminar os piores. E como identificar? Criando sistemas de medições para cada uma das metas.

E como saber se um touro jovem tem todas estas qualidades genéticas?

A melhor carcaça é aquela que permite ao pecuarista atingir o maior lucro por hectare, destaca Leonardo Souza

Quando falamos em fertilidade e precocidade sexual, temos medidas diretas e indiretas. As diretas são do próprio animal. O perímetro escrotal aos 14 meses é uma ótima referência, tanto para fertilidade como para precocidade sexual. Quanto maior for o testículo nesta idade, maior a probabilidade deste touro já estar produzindo sêmen de qualidade e, portanto, maior a probabilidade de suas filhas também receberem genes para precocidade sexual e fertilidade. Podemos, ainda, verificar se os hormônios masculinos estão equilibrados, observando a presença de características sexuais secundárias, como coloração mais escura no pescoço, cabeça com conformação masculina, desenvolvimento muscular e libido. Além disso, o histórico reprodutivo do pai e da mãe e de outros parentes do touro é referência indireta para avaliar o potencial reprodutivo do touro jovem. Que deve ainda ser comprovado com um criterioso exame andrológico.

Quando falamos em ganho de peso, a balança é a ferramenta para identificar os melhores tourinhos. Como na medição de perímetro escrotal e qualquer outra avaliação dos animais, é importante que todos eles estejam na mesma condição de criação. É o conceito de grupo de contemporâneos. O objetivo é identificar, dentro de uma fazenda, os animais nascidos no mesmo período, criados no mesmo pasto, que apresentaram o maior ganho de peso, em determinado período. Garantindo que a diferença entre os animais não seja ocasionada por diferenças no ambiente de criação.

Para rendimento de carcaça, a melhor avaliação no touro jovem é a avaliação por ultrassom, que, executada por técnico capacitado, medindo a cobertura de gordura e a área de olho de lombo, adicionadas ao peso do animal, permite estimar o rendimento de carcaça do touro. Quanto maior o rendimento, maior o peso da carcaça.

Quando falamos em eficiência alimentar, salientamos que não adianta um touro ser um excelente ganhador de peso se tiver que comer muito para alcançar tal desempenho. Na verdade, esta é a única característica que atuamos diretamente para reduzir custos. Para identificar os touros mais eficientes, é necessário medir o ganho de peso e o alimento consumido pelo animal durante determinado período. Os animais com maior ganho de peso e menor consumo de alimentos serão os que produzirão a arroba mais barata.

E, para finalizar o processo de seleção, todas estas medidas devem ser tratadas estatisticamente para transformá- las em valores genéticos. O resultado são as DEPs - Diferenças Esperadas na Progênie. Elas classificam os animais para cada uma das características avaliadas e são uma previsão do potencial genético do animal. E, como toda previsão, elas estão sujeitas a variações. E é aí que temos o problema quando falamos em touros jovens.

CRITÉRIO PARA TOUROS E JOVENS

Touros jovens têm DEPs sujeitas a grandes variações, uma vez que não possuem filhos que comprovem o que foi previsto para cada uma das suas características. São touros com baixa “Acurácia”. E é ela que qualifica as previsões. Ela varia de 0 a 1. Touros jovens apresentam acurácias baixas (menor que 0,25) e touros adultos com vários filhos apresentam acurácias altas (maior que 0,85). Outra maneira de “ver” a acurácia é traduzila para o termo “possível mudança”. Para exemplicar, comparamos dois touros com a mesma DEP para peso aos 15 meses de 11 kg. O touro A é um touro jovem com baixa acurácia (0,25) e o touro B é um touro adulto com alta acurácia (0,85). Apesar de terem a mesma DEP de 11 kg, ela poderá variar (possível mudança) no touro A de 0,17 kg a 21,83 kg. E no touro B, que já possui muitos filhos, ou seja, está “provado” positivamente, a DEP poderá variar de 8,83 kg a 13,17 kg (Figura 1). E aí nos deparamos com um dilema! Vamos deixar de utilizar um touro jovem que tem um potencial de incrementar 21,83 kg no sobreano e que, na pior das hipóteses, pode produzir animais iguais à média da população em que ele foi avaliado? No touro B teremos certeza de melhora, mas esta fica restrita a quase a metade do potencial previsto para o touro A.

Para nos arriscarmos com o touro jovem (A), os pré-requisitos foram descritos anteriormente. Ou seja, se o sistema de produção do selecionador é parecido com o do usuário da genética e, mais importante, se o sistema de avaliação for rigoroso, confiável e alinhado com o objetivo do produtor usuário, teremos informações que tornam a decisão pela utilização do touro jovem menos “arriscada”.

Mas, para tomarmos esta decisão, com ainda mais segurança, o ideal é procurarmos touros jovens com DEPs que sejam maiores que a dos touros provados.

E, destes touros jovens, utilizar pouca quantidade de sêmen, mas de vários touros muito bem avaliados. Desta forma, conseguimos diluir ainda mais o risco de utilização desta genética. Na verdade, desta maneira, potencializamos a probabilidade de maiores ganhos genéticos para o rebanho.

E o touro com alta acurácia? Ele deve ser utilizado estrategicamente, em casos em que precisamos ter certeza do resultado. O melhor exemplo é a utilização de touros com DEP negativa para peso ao nascimento para utilização em novilhas de 14 meses. É necessário evitar problemas de parto nesta categoria.

Para concluir, o melhor selecionador produz os melhores touros jovens = melhores bois gordos = melhores carcaças = fazenda mais lucrativa.

*Leonardo Souza é diretor da Qualitas Agronegócios, responsável pelo Programa Nelore Qualitas de Melhoramento Genético.