Tour Internacional

 

TIPO VERSUS Resultado

Fernando Furtado Velloso*

Não há como contestar que os EUA são o país mais importante na seleção do Angus no mundo e que o Brasil se abastece direta ou indiretamente desta genética. Usando reprodutores brasileiros, argentinos, australianos ou canandenses, identificaremos influência de genética americana. Desta forma, o selecionador americano se posiciona como real provedor de genética, e nós, brasileiros, argentinos e uruguaios, somos quase que na totalidade usuários e multiplicadores deste produto. Aí reside uma grande diferença em termos de seleção animal e de negócios.

A seleção de reprodutores nos EUA sempre teve força e consistência em programas objetivos e no uso intensivo de dados (índices de rebanho, DEPs, ultrassonografia de carcaça e, mais recentemente, dados de eficiência alimentar e marcadores moleculares). Esta regra segue valendo e é muito positiva, pois assim temos reprodutores que são consequência de critérios técnicos e objetivos, porém, noto que o bom e velho “tipo” passou a ter mais importância e quem demandou isso foi o próprio mercado. Os mais pragmáticos e científicos defendem que o tipo será consequência da seleção por eficiência. Os mais conservadores (mas não menos exitosos) defendem que o tipo deve ser protegido pela mão humana. Parece-me que o meio do caminho e a combinação entre os dois seja a melhor alternativa e alguns criadores lá estão trabalhando nesta linha. No Brasil, identifico excesso de valorização para o tipo e muitos bons animais sendo subutilizados por não possuírem a tal pureza racial.

De forma simplificada, identifiquei como alguns pilares e diferenciais da seleção americana o seguinte: a) clareza de objetivos e continuidade disciplinada nos programas de seleção, b) uso intensivo de touros próprios, c) valorização e mensuração objetiva da eficiência das mães, d) investimento pesado nos pais, e) sistema mais intensivo de produção que acelera os ganhos genéticos, d) informações transparentes, objetivas e disponíveis sobre a genética dos animais aos clientes.

A oferta de novos touros ou animais da moda é cada vez maior e é um fato em qualquer país. O bom selecionador se deixa seduzir pouco por estes modismos e persiste em seu programa de seleção, traçando objetivos de acordo com seus critérios técnicos. Nota-se, claramente, que muitos criadores americanos estão alinhados com este princípio e aí temos uma lição e um diferencial.

O uso de touros próprios (crioulos, como dizemos) é algo que se vê repetidamente em todos os rebanhos visitados. Esta situação que é vista como atraso por alguns selecionadores no Brasil é a demonstração de que o criador acredita no seu programa de seleção e que este busca aumentar a concentração dos genes resultantes de seu trabalho no rebanho. É comum ver nos plantéis americanos o uso de inseminação com um touro e depois o repasse do gado com o mesmo reprodutor. Assim, maximiza-se a produção e acelera-se a obtenção de informações de progênie. Secundariamente (mas não menos importante), fortalece-se o afixo daquela criação e retém-se valor na operação. Atualmente, transferimos muito valor de operações para terceiros (pense nisso).

A base de fêmeas nos rebanhos é outro item fundamental e distinto nos rebanhos. As melhores mães são selecionadas objetivamente pela avaliação genética americana e denominadas Pathfinder. Resumidamente, são fêmeas com, no mínimo, três produtos acima da média da raça para Índice de Peso à desmama (mínimo 105) e com reprodução regular. Assim, são valorizadas fêmeas com eficiência reprodutiva e capacidade leiteira para desmamar um terneiro do lote ponta. Com esta identificação contínua de mães superiores, desde 1978, o norteamericano norteamericano vem construindo um eficiente rebanho de cria. Muitos bons touros em centrais de inseminação (como diversos que vimos nos criadores e na central) têm várias gerações de vacas Pathfinder garantindo a consistência genética de sua linha materna. Estas fêmeas são identificadas no registro genealógico e nos catálogos de leilões com o sinal “#”. Fácil, prático e transparente.

O investimento de altos valores em touros para uso nos rebanhos puros é outro diferencial importante. Deparamonos com vários touros em serviço que foram adquiridos pelo preço de cinco a dez vezes o valor de um bom touro comercial. Esta situação demonstra a real preocupação e atenção que o selecionador americano dá para a genética que usa e, de certa forma, fortalece muito o negócio de seleção por lá. Visitamos rebanhos conduzidos pela próprias famílias e estes sendo a receita principal (ou única) destas pessoas. Logo, o valor elevado de pais de plantel não é um artificialismo de mercado feito por investidores ou novos pecuaristas, mas, sim, a realidade daquele mercado.

Nos EUA, praticamente a totalidade das operações trabalha com pecuária “1 ano”, ou seja, fêmeas que entram em reprodução aos 12 meses e machos vendidos para abate ou reprodução também aos 12 meses ou pouco mais. Esta situação leva a um sistema que exige mais da genética, porém, é quando os ganhos aparecem mais rapidamente, pois o intervalo entre gerações é bem menor que o realizado pelos brasileiros.

A relação dos produtores de genética com clientes é bastante madura e transparente. Os dados técnicos publicados nos catálogos de leilões são bem compreendidos pelos produtores e o posicionamento dos animais ocorre conforme o ranqueamento na raça para tal característica, o que também é um facilitador (ex: TOP 1% para Peso ao Nascer, TOP 5% para Leite, etc). Um exemplo simples e prático que vimos num rebanho em Montana foi a identificação dos touros de venda com duas cores de brinco: amarelos para touros com facilidade de parto e brincos brancos para touros sem facilidade de parto, mas com alto ganho de peso. Dessa forma, oferece-se um serviço simples de orientação ao cliente.

A genética americana é criticada por muitos criadores no Brasil por considerarem que há excesso de alimentação em comparação a nossa realidade e porque os animais são considerados grandes. De fato, em todos os lugares que visitamos o gado estava em boa ou ótima condição corporal e é reservado muito alimento para os períodos de neve ou falta de pastagem. Aí vêm as reflexões: seleção se faz dando condições de desempenho aos animais ou com restrição alimentar? Conseguiremos identificar as diferenças genéticas dando condições de saúde ao gado e onde as vacas produzem leite ou em condições de períodos longos de fome? Em relação ao tamanho do gado (ou frame) também ocorre a crítica de que os animais são demasiados grandes, mas estes são mesmo tão grandes ou crescem porque não sofrem a restrição alimentar sofrida pelos nossos?

A visita ao Schaff Angus Valley (afixo SAV) foi um capítulo à parte da viagem. Este rebanho se tornou, nos últimos anos, o mais importante e influente do Angus. Hoje, inquestionavelmente, esta é a genética mais usada entre os criadores de gado puro e a sua genética tem alcançando muitos países via inseminação ou por touros desta origem. O rebanho de fato impressiona muito quem gosta de bom gado, se encontra muita padronização e tem fêmeas com tipo muito definido da marca: compridas, femininas, volumosas, de bons úberes e aprumos corretos. Em fevereiro de 2012, ocorreu o 109° leilão desta fazenda e foram vendidos 440 touros Angus, com média de 12 mil dólares. Parece que o trabalho está sendo bem feito e reconhecido.

*Fernando Velloso é inspetor Técnico da ABA e participou do CRI Beef Tour pelos estados de Iowa, Montana e Dakota do Sul e do Norte