Pastagem

 

Reviravolta das incrustadas

Mercado investe em novas tecnologias e busca resgatar confiança do pecuarista

Robson Rodrigues

Conhecidas por revestidas, nucleadas, alveoladas, protegidas, blindadas, peletizadas e customizadas, as sementes incrustadas já existem há milhares de anos. A tecnologia foi desenvolvida pelos chineses para facilitar o cultivo de arroz em áreas com grande concentração de água. No Brasil, a tecnologia passou a ser aplicada em hortaliças, plantas ornamentais, florestais, fumo e, mais recentemente, forrageiras tropicais. Tecnicamente, existe diferença entre incrustação e peletização. Na primeira, preserva-se a forma da semente e aumenta-se o peso de uma a cinco vezes e, na segunda, ela fica redonda e demasiadamente maior.

A tecnologia chegou com muita expectativa à pecuária brasileira, com os primeiros lançamentos ocorrendo há uma década e meia, sem muito sucesso, acabando por minar a confiança do produtor. Parte da situação, apontam alguns pesquisadores, pode ter sido criada pelo uso em maquinário impróprio. A proposta inicial da incrustação era resolver problemas relacionados à plantabilidade, ou seja, facilitar a distribuição das sementes nos discos das plantadeiras, mas a utilização de equipamentos rudimentares adaptados - como betoneiras - resultava em um revestimento que acabava se desprendendo e virando uma poeira que “embuchava” linhas e deixava falhas no solo, ocupadas por plantas daninhas futuramente.

Segundo Gessi Ceccon, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, de Dourados (MS), dependendo do tipo de revestimento e dos métodos de semeadura, a incrustada até funcionava, mas, na maioria das vezes, era pouco eficiente, devido à baixa qualidade no processo de produção. Como se não bastasse, o revestimento utilizado também necessitava de um rígido controle de preservação contra a alta umidade relativa e o calor, que se não respeitados poderiam induzir a germinação precoce ou deteriorar a qualidade da semente.

A maior vilã foi a venda de produtos de baixa qualidade. Inventor da primeira colheitadeira de sementes forrageiras, o pesquisador em tecnologia Edson Morelis Coca defende que a incrustação é uma técnica viável, atualmente, e que a imagem foi desgastada por empresários ou picaretas que se aventuraram com “tecnologias” duvidosas. “Tinha gente que batia a semente junto com cola, fazia ‘bolinhas’ e as colocava no mercado como peletizadas”, relembra.

Além disso, o peso que o revestimento agrega à semente forrageira é um ponto que ainda hoje gera discussão no mercado. “Chega a dobrar o peso da semente”, protesta Murilo Nahas Batista, diretor comercial de uma das empresas do sistema Abrasem, que entende que as leis em torno do produto devem ser revistas pelo Ministério da Agricultura.

Há 15 anos, elas chegavam ao mercado pesando de três a cinco vezes, porque a semente recebia uma camada, comumente, elaborada à base de gesso ou calcário, diminuindo drasticamente a quantidade. Com o avanço da tecnologia, a situação vem melhorando. “Até pouco tempo esse revestimento era muito disforme, sendo possível encontrar diminuições de até 10 vezes na quantidade de semente na mesma unidade de massa. Hoje, com a evolução dos conhecimentos e a tecnologia sendo aplicada, as reduções são menores, beirando cerca de 50%, gerando sementes mais uniformes”, explica Gessi Ceccon.

A principal diferença entre uma pura normal e uma incrustada depende da camada que a envolve. Na legislação do setor, as convencionais devem apresentar um grau de pureza de 60% e que, destas, 60 % germinem, o que significa uma exigência de 36% de valor cultural. O grau de pureza é obtido após pesagens de uma amostra com e depois sem material inerte, que pode ser torrão, palhada e até semente de outras plantas. No caso das revestidas, é feito da mesma forma, só que o material utilizado na incrustação é entendido pelo Ministério da Agricultura como parte da semente. Embora tenha o mesmo valor cultural, possui menos sementes.

Quanto ao processo de revestimento, o pesquisador da Embrapa esclarece que ainda existem disponíveis para venda sementes revestidas tanto escarificadas (levemente polidas) quanto não escarificadas. “As escarificadas tornam-se mais aptas a receber água, o que deteriora a semente, exigindo que a semeadura seja realizada o mais próximo possível da incrustação. No entanto, as sem escarificação não apresentam esse problema e têm a viabilidade preservada por mais tempo”, explica.

NOVAS TECNOLOGIAS

Quando o assunto é tecnologia, o “inventor” Edson Morelis Coca é uma referência em forrageiras. Ele já construiu mais de 3.500 maquinários para o setor, invenções que ajudaram a impulsionar um amplo movimento de mecanização e ajudaram o país a ocupar a liderança mundial na produção e na exportação de sementes forrageiras tropicais. Ele é um defensor assíduo da técnica de incrustação.

Observando o mercado de forrageiras crescer vertiginosamente, Coca passou a atentar ao tratamento da semente. Foi quando começou a revestir sementes de braquiária. Seu objetivo era claro: buscar respostas tecnológicas para corrigir erros cometidos no passado e, dessa forma, melhorar um produto que tem enorme potencial para contribuir com o crescimento da pecuária brasileira.

Gessi Ceccon avalia que o mercado melhorou e a tecnologia está sendo aplicada

A novidade mais recente foi produzida em parceria dele com o pesquisador Alan Rodrigues. Ele acredita que o resultado do trabalho poderá ser uma revolução no mercado de sementes revestidas. Foram cinco anos de pesquisas intensas e mais de 5 mil alterações de fórmula testadas para chegar ao estágio atual da técnica. Vale ressaltar que outras propostas existentes hoje também vêm se destacando e ajudando a incrustação a aumentar sua participação.

Edson Coca acredita na retomada do mercado de sementes incrustadas

Hoje, o incruste permite uma rigorosa proteção, de acordo com o pesquisador. “Ele resiste melhor ao calor e à umidade relativa, garantindo que a germinação ocorra somente quando houver o volume de água necessário, inclusive, no veranico”, garante Coca. Este pode ser outro grande passo, pois foi um dos entraves no passado. O processo permite ainda incluir uma dosagem precisa de fungicidas e inseticidas, ajudando a prevenir pássaros e ataques de cupins e formigas. Mas, não é uma exclusividade das incrustadas, muitas de sementes puras fazem isso.

As novas gerações de sementes forrageiras incrustadas estão mais uniformes e começam a fluir melhor nos discos dos equipamentos, facilitando a regulagem em diferentes tipos de máquinas. Esta característica, somada à menor quantidade de sementes, peculiar às incrustadas, é algo bem visto, especialmente pelos pecuaristas que fazem integração lavoura e pecuária. “As sementes incrustadas têm menor quantidade de sementes por peso, mas considerando a pequena quantidade necessária e a possibilidade de se inserir um controle para insetos, viabilizam o consórcio da braquiária com lavouras de milho resistentes a lagartas”, elucida Gessi.

CUIDADO COM PIRATARIA

Evandro Macedo de Freitas, vicepresidente da Associação para Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto), estima que metade de todas as sementes tropicais é comercializada ilegalmente no Brasil. “Infelizmente, é uma prática muito comum. Existem, inclusive, empresas que já foram autuadas e que continuam vendendo produtos sem licença”, argumenta, desabafando que a pirataria afronta empresas idôneas, que pagam por direito de uso dos materiais protegidos e investem alto em pesquisa, tecnologia e mão de obra especializada.

Segundo ele, os pecuaristas que adquirem tais produtos nunca terão certeza do que estão realmente comprando. “Às vezes, o produtor pensa que está comprando Piatã, mas, na verdade, pode ser Dicas para identificar incrustadas piratas ? Verifique se há resíduos de revestimento no fundo do saco ? Atente se há padrão da semente e uniformidade no tamanho ? Friccione algumas sementes, se sair na mão não presta ? Coloque algumas de molho em água e note se há material inerte ? Há produtos envoltos com cola e banhados em grafite. Quebre! ? Não existe conceito de “produto similar” para incrustadas uma mistura de braquiária”, exemplifica. Para evitar frustrações futuras e perdas de produtividade, alguns cuidados podem ser adotados antes do plantio. A principal recomendação é que se faça uma análise laboratorial para conferir se o produto está dentro dos padrões exigidos. O resultado do teste de viabilidade fica pronto em 24 horas e o de germinação, entre 21 e 28 dias. Custam entre R$ 30 e R$ 50, mas pode ser considerado um investimento baixo ao se reduzir o risco de pragas e baixa germinação.

“Com os resultados em mãos, basta comparar com a descrição do rótulo. Se o resultado for muito inferior, é certo que o produto tem origem duvidosa e uma queixa deve ser feita ao Ministério da Agricultura”, orienta Freitas. Se estiver apenas próximo do estabelecido, o mais prudente é fazer contato com o fornecedor e o fabricante. Gessi complementa que a maior percentual de pureza diminui riscos, mas o importante é que seja feita também a análise de contaminantes “não nematoides” e que as amostras sejam coletadas no fundo da embalagem, pois é onde se depositam as impurezas mais nocivas. “Nas sementes incrustadas idôneas esse problema é muito menor porque, via de regra, são escolhidas as melhores para o revestimento”, avalia o pesquisador.