Escolha do Leitor

 

NELORE HIPERPRECOCE

Carne de qualidade em um ciclo muito mais curto

Cintia Rocha

Bezerros conseguem ganhar no mínimo 30% a mais de peso do que no sistema de creep feeding convencional

O município de Camapuã/MS ostenta oficialmente desde 2008 o status de “Capital Nacional do Bezerro de Qualidade”, título que reconhece os esforços dos criadores da região na busca de animais que apresentem ganho de peso, precocidade, carcaças padronizadas e uma carne com qualidade diferenciada. E se não é fácil falar em gado precoce sem citar Camapuã, também não é uma tarefa simples falar deste trabalho sem citar um de seus principais incentivadores, Rubens Catenacci, ou, simplesmente, o Sr. Rubinho, como é chamado carinhosamente.

Criador da raça Nelore desde 1984, o titular da Fazenda 3R conta que começou na pecuária em Itararé/SP, mudando-se pouco tempo depois para Camapuã, onde intensificou sua atividade e presidiu, durante quatro anos, a associação local de criadores (Acricam). “Fui eleito presidente da entidade em 1998 e já naquela época Camapuã ficou conhecida como a Capital do Bezerro de Qualidade”, conta ele, que, com bastante convicção, aponta o Leilão do Fazendeiro como um dos maiores protagonistas dessa história.

“Camapuã é um modelo por conta desse remate e de todo o trabalho feito em função do mesmo. Ele impulsionou os criadores na busca por resultados a fim de ganharem o campeonato que premia os melhores lotes. Para se ter uma dimensão desse trabalho, basta considerarmos que em 2002 o peso médio dos bezerros foi de 202 kg e em dez anos aumentou para 386 kg, números que comprovam a eficiência alcançada. Eu mesmo desenvolvi meu manejo e alimentação em função deste leilão”, diz Catenacci.

O manejo citado consiste na ida de bezerros, aos 90 dias de nascidos, para um sistema de mamada controlada, quando, pela manhã, por um período de cinco horas, são apartados das mães e colocados em uma manga (cercado). “Aqui são forçados a comer um trato específico de suplementação, com 21% de proteína. No sistema de 'creeprotacionado' (batizado pela Fazenda 3R), os bezerros conseguem ganhar no mínimo 30% a mais de peso do que no sistema de creep feeding convencional”, ressalta Rogério Rosalin, administrador da Fazenda 3R, lembrando que, nas outras 19 horas do dia, os animais voltam ao pasto com a mãe.

No sistema, é feito um manejo rotacionado com dez piquetes divididos em 15 hectares, sendo três dias de pastejo e 27 de descanso. “A evolução da pecuária moderna estará atrelada a essa técnica. É um manejo que amansa extremamente as vacas, o índice de prenhez aumenta muito e os bezerros ganham peso mais rápido. Financeiramente, compensa. Este é o caminho para pecuária sustentável. Quando se tem genética boa, manejo adequado e alimentação correta, você consegue terminar um bezerro entre dez e doze meses, com uma qualidade de carne imensurável”, aponta o criador.

Em contas rápidas, segundo Rosalin, os bezerros comem 2 kg ao dia durante 150 dias, resultando em um investimento de R$ 300,00 por animal. “A principal vantagem desse projeto é o giro, ou seja, o ciclo curto”, afirma ele.

Para o administrador, é importante ressaltar a necessidade de se ter uma genética que já tem um histórico de produzir animais precoces e que também tenha um padrão de carcaça para alto rendimento. “Aliado a este perfil, precisamos ter um manejo eficiente, que consiga extrair todo o desempenho que essa genética possua, e, para finalizar, uma nutrição eficiente. Em outras palavras, um pasto melhorado e uma suplementação de baixo custo. Provamos que a carne de animais hiperprecoces tem padrão e aceitação e ainda, no que se diz respeito ao financeiro, ainda provamos que podemos acabar com a fase de recria. Para que esperar até dois anos e meio para abater um animal, se podemos acelerar ”, destaca.

ABATE TÉCNICO

Após anos buscando animais com qualidade, principalmente nos quesitos de precocidade e acabamento de carcaça, foi em 2011 que Rubens Catenacci teve a ideia de fazer um abate técnico. Na época, há mais de três anos, ele já realizava avaliações de carcaça através de ultrassonografia, que indicava que a maioria dos bezerros estavam pronto para abate. “Fui desafiado e fiz esse abate técnico. Convidei o sr. Eduardo Pedroso (hoje diretor no JBS) e escolhemos um lote de bezerros aleatoriamente para levar ao frigorífico. Os machos, aos dez meses, atingiram [email protected] e as fêmeas, [email protected], com todo acabamento necessário. Acabou sendo uma surpresa para mim e para todo mundo. E isso é Nelore!”, conta Sr. Rubinho.

Vale lembrar que na Fazenda 3R os animais já aptos ao abate, tecnicamente, têm de apresentar uma espessura de gordura acima de 3mm e um peso acima de [email protected] nas fêmeas e [email protected] nos machos. De acordo com Rosalin, esse abate de animais aos dez meses dentro do Nelore foi um feito inédito e provou que a raça pode ser hiperprecoce. “A carne foi avaliada como padrão gourmet e o rendimento de carcaça alcançou alta porcentagem referente ao padrão que existe”, comenta.

Rosalin ressalta que a repercussão desse abate foi muito grande, mas a Fazenda 3R tem seu trabalho voltado para a produção de bezerros de qualidade, e isso agrega muito na hora da comercialização. Na exposição de Camapuã, foi realizado um leilão de 500 destes bezerros e os mesmos alcançaram média de R$ 1.500,00, a maior deste ano. “Muitos pecuaristas se interessam na técnica, então realizamos um dia de campo na propriedade para mostrar como funciona este manejo. A ideia é fazer um a cada dois anos", informa.

Atualmente, a seleção produz entre 2 mil e 2,5 mil bezerros por ano em três fazendas, localizadas em Camapuã, Figueirão e Alcinópolis. Segundo o administrador Rogério Rosalin, possuem um rebanho de 5 mil animais, sendo 3 mil vacas Nelore comerciais, 500 vacas Nelore PO, 200 receptoras e o restante garrotes e novilhas PO. “O foco da Fazenda 3R é cria. O nosso segundo objetivo é a venda de reprodutores e sêmen Nelore PO”, acrescenta.

Provamos que o Nelore é tão precoce quanto qualquer outra raça, afirma Rubens Catenacci

PROJETO

A Fazenda 3R está elaborando planos para abater bezerros Nelore e precisa de parceiros para ter um número mínimo de animais prontos para fazer uma parceria grande com um frigorífico. “Precisamos ter uma garantia mínima desse tipo de carne para conseguir fechar acordos comerciais. Sozinhos não atenderíamos a demanda e, assim, não temos como brigar no preço a ser pago pela carne de extrema qualidade. Conseguimos provar que o Nelore é tão precoce como qualquer outra raça”.

Na opinião do administrador, o mercado está disposto a pagar melhor por esse tipo de carne, mas é preciso ter escala e um número mínimo de produtores produzindo. “Trata-se de um produto para atender um grupo seleto de clientes que pagam mais por qualidade. Uma carne com padrão gourmet tem aceitação nos quatro cantos do mundo”.

O pecuarista precisa encontrar um equilíbrio no modelo de produção, destaca Coan

“Hoje, o mundo inteiro fala muito em qualidade e nós brasileiros temos condições de oferecê-la. A prova disso está aí! Até então, ninguém tinha conhecimento de que o Nelore tinha essa capacidade”, finaliza Rubinho.

Para uma avaliação geral sobre a produção de animais Nelore hiperprecoces, consultamos Rogério Marchiori Coan, diretor da Coan Consultoria, de Jaboticabal/ SP, que acredita que o Brasil tem genética, tecnologia e nutrição necessária para tanto, só que não acha que seria viável produzir esse animal dentro dos parâmetros normais de abate que o País apresenta. “O custo de produção pode ser elevado, considerando que da desmama ele já seria encaminhado para terminação em confinamento. A questão é que se acaba ficando refém do mercado de insumos. Mas, em condições de preços normais e com planejamento de compra de insumos, seria possível, sim, produzir um animal como esse de peso elevado”, aponta.

Para o consultor, no modelo de produção sustentável, no qual ele considera também a sustentabilidade econômica do pecuarista, cada vez mais será preciso produzir animais com menor ciclo de produção. “Quando você confina, você acaba diminuindo a necessidade de área, que no futuro poderá ser destinada à produção de grãos e outros alimentos. A grande questão é que quando se reduz muito o ciclo, se acaba automaticamente aumentando o custo por arroba (@) produzida, mas cresce também a produção de @ por hectare”, destaca Coan.

De acordo com ele, o pecuarista precisa encontrar um equilíbrio no modelo de produção no qual o aumento de custo seja realmente otimizado pelo aumento de produção de @ de modo que se tenha um modelo competitivo, rentável e sustentável a longo prazo. “Lógico que esse animal bebe menos água, demanda menos recursos de forrageira e mão de obra. Então, você tem realmente um animal e um modelo de produção sustentável, do ponto de vista ambiental. A questão é que não é fácil produzi-lo, porque se tem a necessidade de um aporte financeiro maior para a produção, mas quem tem está disposto a produzir e tem o custo de produção na mão consegue atingir bons resultados”,conclui.

Esta reportagem foi escolhida pelo leitor da Revista AG, que votou por meio da Newsletter Agronews. Aproveite agora e escolha entre as três reportagens que estão em votação a que você prefere ver estampada nas páginas de nossa revista. Caso ainda não receba a newsletter, cadastre-se no site www.revistaag.com.br