Avaliação Genética

 

Se é bom, precisa ser CONFIÁVEL

Antes o touro valia o quanto pesava, agora também vale o quanto "transmite"

Adilson Rodrigues

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Especialmente, nos últimos 15 anos, a avaliação genética apresentou uma guinada. O touro que continha no catálogo de vendas a “assustadora” régua de DEPs – as diferenças esperadas na progênie –, vistas com certo desdém até a década de 90, não apresentava qualquer sobrepreço. O animal valia aquilo que pesava, acompanhado de uma morfologia que agradasse aos olhos. Não que hoje a regra tenha sofrido grandes alterações, pois, segundo leiloeiros, o reprodutor precisa ter uma reserva corporal para “queimar” no início da monta. O fato é que 2012 culmina com o maior amadurecimento do pecuarista brasileiro quanto à qualidade genética desses animais. Hoje, já não é raro o comprador conferir junto ao pisteiro, in loco ou pelo telefone, as DEPs do animal de interesse.

Indo um pouco mais além, o comprador de touros já paga mais pelo animal avaliado geneticamente, apostando nas arrobas extras que estes poderão render no abate dos seus filhos. A Estância Bahia, que comercializa 10 mil touros por ano, dos quais 80% provêm de rebanhos avaliados, registra uma valorização mínima de 10% para o reprodutor avaliado. “Antes não existia muito essa preocupação. Ao longo dos últimos anos, o valor diferenciado é crescente para os touros com avaliação genética, chegando entre 10% e 20%”, destaca o proprietário Maurício Tonhá. Companheiro de profissão e à frente da Central Leilões, Lourenço Campo é mais ácido e afirma que a diferença entre o reprodutor com DEPs e aquele de genética duvidosa é de 100% em favor do primeiro. “Dos 8 mil touros que comercializamos por ano, acredito que 70% já sejam de genética melhoradora”, calcula.

Campo destaca que não só no tatersal os animais avaliados são apreciados, “nas centrais de inseminação eles respondem por 80% da comercialização de sêmen”. Em relação ao preço que um animal desses pode custar, depende de muitas variáveis, mas ele arrisca dizer que a média, em 2011, girou em torno de R$ 7.500. Para Tonhá, o preço está muito sujeito ao perfil de trabalho do selecionador, pois existem, dentro das próprias avaliações, diferenças grandes. Este, aliás é um ponto muito importante, pois há sumários que podem favorecer o maior ganho de peso ou a melhor carcaça. “Tem gente que faz média de R$ 5 mil e outros que fazem média de R$ 10 mil. Os criadores que fazem R$ 10 mil são aqueles mais maduros. Quem tem 30 ou 40 touros em central não é brinquedo não”, brinca.

De acordo com o empresário da Estância Bahia, a tendência é um sólido e contínuo crescimento do mercado. “A avaliação genética mensura tudo o que se espera do animal, ou seja, tem-se condições científicas de criar uma expectativa de resultado econômico positivo de acordo com aqueles números fornecidos. Apenas reafirmo que existem diferenças nos trabalhos realizados por cada um dos criadores e programas”, destaca. Hoje, as DEPs ultrapassaram os limites dos sumários. Ilustram os catálogos de leilões e foram parar nos telefones dos pisteiros e na boca dos leiloeiros durante os remates virtuais, transmitidos pelas televisões especializadas. Tornaramse diferenciais comerciais importantes e, porque não dizer, de “marketing”. “A régua de DEPs de um touro é a sua receita, a sua bula”, resume Campo.

Cuidados na interpretação

Como muito atrativo tornou-se o mercado de genética avaliada, o que pode parecer a salvação do plantel pode se tornar perigoso, quando mal utilizado. É preciso muito critério no momento de interpretar as informações e muitas vezes pode ser vantajoso recorrer à ajuda de um especialista de confiança ou instituto de pesquisa, ganhando tempo na seleção e acertando na escolha dos reprodutores. Existem três tipos de DEPs até o momento, a de pedigree, a interina e a de progênie (confira no box). A mais confiável é esta última, cujos filhos do progenitor são nascidos e tiveram a performance acompanhada. O problema é que nem sempre o touro está vivo ou com sêmen disponível para venda. Por isso, é muito comum o uso da DEP interina, na qual se conhece a genealogia dos pais do animal que está sendo avaliado e se tem em mãos seu atual desempenho. Agora, como usá-los de forma segura no rebanho pode ser conferido na página 58 desta edição, em “Seleção”, que trata apenas desse assunto.

Segundo Roberto Vilhena, o erro mais comum ocorre na interpretação da acurácia

“Acredito que havendo interesse e desejo do interessado, qualquer pessoa poderá interpretar um sumário, desde que tenha estudado as características nele contidas e conheça os dados de que necessita”, acredita o zootecnista Roberto Vilhena, que também é jurado efetivo. Segundo ele, o erro mais comum entre os criadores acontece em relação à acurácia. “Ela indica a intensidade de utilização deste animal no rebanho e não se deve utilizar o animal ou não”, explica. Também existem os casos em que o pecuarista se concentra na boa DEP, mas não na sua acurácia – todas as DEPs e topes são acompanhadas de uma. A acurácia indica o grau de confiança da característica avaliada e quanto mais alto seu valor, menor a chance de que ela sofra grandes alterações, com a inserção de novas informações na base (rebanho) avaliada.

Maurício Tonhá considera desejável o equilíbrio entre peso do reprodutor e sua capacidade de transmitir características desejáveis

A acurácia é apresentada de 0 a 1 – 0.75 significa que há 75% de chance de se ter o que se espera e 0.25, 25%. O sumário da Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP), que dirige os programas nacionais de melhoramento de quatro raças zebuínas, por exemplo, orienta para que ela seja tratada como um guia da intensidade do uso dos animais escolhidos para reprodução. Além desta orientação, a associação fornece outro indicador, denominado “Possível Mudança” (PM), que mede o quanto uma DEP poderá mudar para mais ou para menos com a inserção de novos dados no programa. “A PM depende diretamente da acurácia e da variância genética da característica. Assim, quanto maior o número de informações adicionadas ao animal, de uma avaliação para outra, maior será a acurácia e menor a PM”, orienta o zootecnista e também jurado William Koury.

Outro ponto muito discutido hoje é a banalização do conceito do TOP, índice que ranqueia o touro dentro da base genética avaliada para uma característica individual, como peso ao sobreano, ou no índice geral do sumário (MGT no ANCP e iABCZ no PMGZ). Se é TOP 0,1%, significa que é o melhor em mil, e, se, 1%, é o mais bem posicionado entre os 100 primeiros colocados. “Nem sempre o touro TOP 0,1% é o melhor para todos os rebanhos, mas acredito que seja melhorador na maioria deles”, ressalta Roberto Vilhena. Para quem nunca utilizou touros avaliados no rebanho, um TOP 20% no índice geral do sumário já seria capaz de promover grande melhoramento no plantel. Entretanto, existem, também, as situações nas quais o reprodutor pode possuir um TOP fantástico no índice geral do sumário – tomemos o MGT (Mérito Genético Total, da ANCP) como exemplo –, mas não ter um TOP interessante para alguma característica importante que o rebanho do pecuarista necessite.

Vejamos um reprodutor com DEP de área de olho de lombo (AOL) com acurácia de 22% e TOP 40%, e o mesmo apresenta um índice geral do programa com acurácia 58% e TOP 2%. “Analisando esses números, verificamos o seguinte: o touro já possui um número considerável de filhos avaliados (acurácia 58%) e está entre os melhores touros do programa (TOP 2%), mas na característica de AOL é menos desejado (TOP 40%) e seu número de medições ainda é pequeno (acurácia 22%)”, exemplifica Vilhena. Lembrando que AOL está correlacionada diretamente com o rendimento de carcaça, atributo de extrema importância para quem faz recria e ciclo completo.

Mais uma vez cabe enfatizar que existem sumários, principalmente nas raças zebuínas, com foco no ganho de peso, necessitando atenção em características como intervalo entre partos, maternal, perímetro escrotal, AOL e DEP ACAB (acabamento de carcaça/ espessura de gordura). “Foi devido a fatores técnicos práticos do dia a dia. Com a capacitação de técnicos e auxílio de programas de computação, aparelhos de ultrassonografia, facilidade na transmissão de dados e melhor disponibilidade de dados zootécnicos nas fazendas, evoluímos para as DEPs de carcaça, onde podemos verificar in vivo características como área de olho de lombo, espessura de gordura, marmoreio, entre outras de grande interesse”, esclarece Vilhena.

Algo que tem ajudado muito a suprir esta lacuna é avaliar de forma mais cuidadosa as características morfológicas e somá-las às DEPs do reprodutor desejado. São elas Estrutura Corporal, (E), Precocidade (P) e Musculosidade (M). Estrutura corporal remete ao tamanho do touro; a precocidade é analisada pela relação entre profundidade de costelas e altura de membros, considerando ainda a prega da virilha. Maior profundidade de costelas e virilha mais baixa apontam para o biótipo mais precoce em acabamento e sexual; e musculosidade é obtida por escores baseados na distribuição, volume e comprimento dos músculos. São mais desejados animais com maiores DEPs. EPM devem ser avaliados em conjunto. O “desenho” das progênies dos reprodutores desejados colabora para identificar biótipos ideais para desempenho a pasto ou em cocheira.

Atualmente, o animal ainda vale o quanto pesa, mas o que está mudando, de fato, é que as qualidades que ele pode, comprovadamente, transmitir já fazem diferença no momento da escolha de um bom touro. Para Tonhá, um touro de 400kg, outro de 600kg ou de 800kg têm valores distintos, mas não distante podem ter a mesma avaliação genética.

Se comparado a uma genética duvidosa, o valor de um touro avaliado é 100% superior, destaca Lourenço Campo

“O touro mais gordo tende a ser mais valorizado porque está mais preparado e pronto para enfrentar os desafios da estação de monta. O animal precisa ter uma reserva de duas ou três arrobas. Diferente da matriz, que ganha peso para emprenhar, o macho tem de chegar pesado para o serviço”, acredita Tonhá, que ao mesmo tempo considera desejável o equilíbrio entre peso do reprodutor e sua capacidade de transmitir características desejáveis aos filhos.

Algumas dicas para interpretar DEPs

DEP de pedigree: calculada a partir de informações de genealogia do animal (pedigree). A acurácia desta DEP é baixa e altera com o acréscimo de informações de desempenho individual e/ou de progênies. Embriões, animais jovens sem desempenho fenotípico e a maioria dos produtos de FIV e TE, sem progênies, têm as DEPs estimadas desta forma.

DEP interina: calculada pelas informações de genealogia e desempenho do animal. A acurácia desta DEP é baixa e muda com o acréscimo de informações de desempenho das progênies do animal. Animais jovens com desempenho dentro dos grupos de contemporâneos têm DEP interina.

DEP de progênie: calculada com todas as informações disponíveis, principalmente, pelo desempenho das progênies. Informações genealógicas e/ou de desempenho próprio do animal são utilizadas para seu cálculo. Quanto maior o número de progênies avaliadas e mais ampla sua distribuição nos diferentes grupos de contemporâneos e de rebanhos, maior a acurácia desta estimativa.

Acurácia: indica o quanto um reprodutor pode ou não ter seu uso intensificado.

Régua de DEPs: termo utilizado para sugerir que o touro apresenta bons números de DEP em todas as características avaliadas e, portanto, trata-se de um bom reprodutor, geneticamente. Veja exemplo abaixo.

Escolhendo DEPs principais nos diferentes ciclos de produção: cria – fertilidade e peso à desmama; recria – ganho após a desmama e peso ao sobreano; e engorda – peso aos 450 dias e qualidade de carcaça (AOL, EGS, P8 e marmoreio).