Entrevista do Mês

 

A lenda continua viva na Naviraí

Herdeiro de um dos mais respeitados homens da pecuária brasileira, Cláudio Sabino Carvalho Filho carrega a responsabilidade, ou, como ele mesmo define, o orgulho e a satisfação de perpetuar uma história de muito sucesso e competência na genética produtiva e sustentável. Conheçamos um pouco mais sobre os planos do criador para a Fazenda Santa Marta e a Chácara Naviraí.

Adilson Rodrigues [email protected]

Revista AG - Como você resume a trajetória de Cláudio Sabino?

Cláudio Sabino Carvalho Filho - Meu pai foi um homem ímpar, um verdadeiro ícone. Ele tinha um dom muito especial para gado. Não era simplesmente conhecedor dos animais, conseguia projetá-los no futuro, comparando indivíduos de eras diferentes com muito boa exatidão. Era um fazendeiro nato, conhecia muito de fazenda e possuía muita facilidade para assimilar tecnologias de nutrição, manejo e genética. Com certeza, foi um homem diferente, que será lembrado por muitos, principalmente por seus colaboradores, que, como nós da família, o admiravam muito como ser humano. Só quem conviveu com ele pode mensurar.

Revista AG - Você é herdeiro de um dos homens mais respeitados da pecuária brasileira. Este foi um grande peso que veio para seus ombros?

Sabino Filho - Acho que na vida não temos obrigações de seguir os mesmos passos de uma pessoa, então, não vejo como “peso” ser filho de Cláudio Carvalho e, sim, com orgulho e satisfação muito grande por tê-lo ao meu lado, durante a vida, como parceiro, professor e, o mais importante, pai. Falo muito que meu pai deixou uma das maiores fortunas do mundo para mim e minha irmã: o nome dele, que nunca deixa de me surpreender. Quando falo que sou filho dele, muitas portas do mundo se abrem. Que mais eu poderia querer? Então, espero continuar, da melhor forma possível, a fazer jus ao trabalho que ele conduziu.

Revista AG - Desde criança se envolve no trabalho da fazenda? Considera-se preparado para ser o novo mentor da Navariaí?

Sabino Filho - Sempre fui envolvido com gado e cavalo. Estou preparado para seguir os planos que meu pai e todos do grupo envolvido na Naviraí almejam como metas, o melhoramento animal e o sistema de produção sustentável das fazendas Santa Marta e Chácara Naviraí. Espero ter pelo menos a metade da convicção do meu pai para traçar um bom trabalho em genética. Continuaremos com as raças Nelore, Brahman, Guzerá e Gir Leiteiro.

Revista AG - Hoje, qual o posicionamento destas raças na pecuária brasileira?

Sabino Filho - O Nelore é uma raça maternal bem sedimentada, o Brahman e o Guzerá poderiam ser mais exploradas, principalmente, em cruzamentos, e o Gir Leiteiro está indo para o caminho de fixar em sistemas de produção de leite a pasto.

Revista AG - Nesse contexto, qual o foco da Naviraí a partir de agora?

Sabino Filho - No Nelore, é tentar manter o “Tipo Naviraí”, ou seja, animais com cascos fortes, pernas e coxas largas, antebraço largo, ossatura forte, aprumos posteriores e anteriores buscando a perfeição, conformação harmoniosa, costelas profundas e bem arqueadas, proporção ideal de costelas e membros, porte médio e cabeça com chifres curtos, cara de macho, testa enrugada, chanfro curto e boca grande, além de fertilidade, leite e carcaça. Não adianta ter animais de ótimas DEPs com tipo e conformação não equilibrados. No Guzerá, vamos manter o plantel estável, dando muita ênfase em fertilidade e precocidade. No Brahman, queremos fazer uma grande pressão de seleção sobre a fertilidade. Planejamos reduzir a estação de monta para cerca de 60 a 70 dias. No Gir Leiteiro, nossa seleção mais recente, vamos devagar, pensando também em fertilidade e conformação de úbere, persistência de lactação e aprumos, uma necessidade para explorar animais em pastejo.

Revista AG - Seu pai procurava melhorar os índices de produtividade do rebanho com base na avaliação genética. Como está esse mercado?

Sabino Filho - Cada vez mais, os criadores estão dando maior valor às avaliações, mas ainda falta um pouco de amadurecimento. Tem muita gente achando que só porque o animal é TOP 0,1% ou TOP 1%, ele é um ótimo animal. Esquecem de avaliar a acurácia ou, até mesmo, o próprio fenótipo do animal. Todo comprador de genética tem de conhecer as necessidades do rebanho, que pode ser desempenho, melhor peso de desmama ou maior fertilidade ou até animais menos exigentes em termos nutricionais. Ou seja, precisa avaliar reprodutor ou matriz como um todo dentro do sistema de produção da propriedade.

Revista AG - Ao seu ver o Brasil trilha o caminho certo?

Sabino Filho - Em linhas gerais o Brasil, ou melhor, o produtor brasileiro, é supereficiente. É só comparar nossos índices de produção anteriores, principalmente agrícolas, com os atuais. Agora, nós da cadeia pecuária temos de maximizar nossos índices de produção, pois temos de competir com os outros mercados agrícolas.

Revista AG - O pecuarista já entende que um touro avaliado traz muito mais ganhos que um “boi de boiada”?

Sabino Filho - O único tipo de produtor que não consegue ver diferença é aquele que não tem nenhum tipo de medida da produção. Para esse, a qualidade de um touro superior pouco importa.

Revista AG - Na contramão, percebemos que a pista de julgamento perdeu um pouco de força. A que isso poderia ser atribuído?

Sabino Filho - O julgamento de animais em um sistema de produção muito diferente do que ele vai ser submetido no campo é muito difícil. Temos de pensar como aquele animal, ali na pista, seria no campo. Aí o efeito ambiental pesa demais, bem mais que o genético. Mas, com certeza, a parte fenotípica é superimportante para somar com a genética e fazer um animal eficiente em vários modelos de sistema de produção.

Revista AG - Observa que o valor de comercialização do touro avaliado está mais justo? Já cobre os custos de seleção?

Sabino Filho - O grande problema do custo de produção do touro, especialmente de um sistema de seleção como o da Naviraí, que sai de uma base genética bem elevada pelos anos de seleção, é o nível de descarte. Quando colocamos nossa genética no mercado, tentamos errar o mínimo possível, portanto, descartamos bastante, elevando os custos do sistema. O pai falava que selecionar touro é igual descascar palmito de tronco grande, quando percebemos já estamos no miolo. Com o touro é assim, descartamos no tipo, na DEP, nos que machucam, nos reprovados no andrológico e por aí vai.

Revista AG - A avaliação genética já passa certa credibilidade ao touro, mas acredita que os sumários zebuínos deveriam convergir também para avaliação de carcaça, além do ganho de peso?

Sabino Filho - Creio que já estão convergindo. Vários sumários já têm as avaliações de carcaça, o problema maior é o número de informações, o qual ainda acho pequeno.

Revista AG - O rebanho da Naviraí é avaliado por quais programas de avaliação genética? Quantos animais já foram avaliados?

Sabino Filho - Participamos do programa da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP) e do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos da ABCZ. No Nelore, temos até o momento 16.997 animais avaliados, no Guzerá, 1.431 e no Brahman, 1.801.

Revista AG - Muito se mensura antes de um macho ser destacado para touro na Naviraí. Como é esse processo?

Sabino Filho - Começa no acasalamento dirigido. Possuímos um “Índice Naviraí” para acasalamentos, no qual ponderamos as características que devemos imprimir mais. Logo após, fazemos o acasalamento visual, analisando o fenótipo da vaca para escolha do touro que melhor responda ao nosso índice genético. Depois, dividimos os animais em grupos contemporâneos robustos. Os dados de pesagem e medidas de perímetro escrotal e carcaça por ultrassonografia são enviados para José Aurélio Garcia Bergman, que faz a pré-avaliação destes animais ajustando as medidas para efeitos ambientais. Aos 15 meses, com todas as etapas cumpridas, começamos a destacar os candidatos a touros de central.

Revista AG - Quantos touros provados da propriedade estão em coleta de sêmen nas centrais de inseminação?

Sabino Filho - Hoje, temos 48 touros com sêmen disponível, sendo 37 em coleta nas centrais. De janeiro a junho deste ano, apresentamos crescimento de 62% na comercialização de sêmen, em comparação a 2011. Em todo o ano passado, foram 215.994 doses; em 2010, foram 210.026; em 2008, foram 173.853 e, em 2007, foram 127.421.

Revista AG - O futuro da pecuária caminha para a integração com a lavoura e a floresta. Na Naviraí está é uma realidade há quanto tempo?

Sabino Filho - A integração apresenta um sinergismo intenso e influi diretamente no perfil do pecuarista, que possui um sistema de produção mais lento. Na integração, o criador consegue sentir melhor a eficiência do sistema agrícola e passa a participar de um sistema que tem 100 ou 200 ou até um pouco mais de taxa de desfrute. Podemos plantar soja, milho e braquiária em uma mesma área, no mesmo ano. Fazemos integração lavoura e pecuária na Naviraí há mais de oito anos.

Revista AG - Quais os “consórcios” utilizados e quais seus benefícios para o aproveitamento do potencial da propriedade e produtividade dos animais?

Sabino Filho - Em geral, soja (safra), milho safrinha com braquiária ou soja e braquiária, para pastejo durante toda a seca. Dessa forma, conseguimos uma estacionalidade melhor de comida para os animais, diversificamos o sistema de produção, aumentamos os índices de produtividade por área, aprendemos a flexibilizar tecnologia e não ficamos presos a um único sistema de produção. Podemos flexibilizar a produção e ter mais agricultura em momentos mais positivos, como este, de grãos em alta, e mudar de acordo com o mercado.

Revista AG - A propriedade possui 47 anos de seleção, o mercado pode ter a certeza de contar com a excelente genética Naviraí por mais 47 anos, no mínimo?

Sabino Filho - Estamos preparando a Naviraí para andar por si só. Meu pai vinha fazendo isto inconscientemente, agora, nós temos obrigação de perpetuar esta marca com a mesma consistência, robustez e força.