Mercado

  

Mercado atípico e apático

Após o aparente “fundo de safra” ocorrido entre os meses de abril e maio passados e contrariando as previsões de firmeza, o mercado continua se comportando de forma apática. De acordo com o observado em anos anteriores, o mês de junho já deveria apresentar uma ligeira valorização nos preços, o que ainda não pode ser confirmado neste ano de clima e comportamento atípicos das negociações. Outro fator esperado para esta época do ano e que não tem ocorrido é a lacuna de oferta de animais terminados entre o final da safra e o início do abate de animais confinados. Isto provavelmente tem se devido à remanescente qualidade das pastagens nestas regiões em razão das abundantes chuvas que ainda insistem em cair em grande parte do país. Como consequência, o pecuarista que ainda tem animais nos pastos tende a esperar uma eventual melhora nos preços. Esperada por uns, no entanto, temida por outros que, por ainda não utilizarem confinamento ou suplementação, são obrigados a vender os animais. Isso faz com que a oferta de gado continue suficiente em regiões onde as chuvas não caem com a mesma intensidade e em que o frio antecipado já faz com que as pastagens percam capacidade de suporte e comecem a ficar degradas. Como resultado, os animais tendem a perder peso e a serem desvalorizados.

Em meio às incertezas, o período analisado, de 24 de maio a 22 de junho, apresentou, além deste comportamento atípico em uma época em que os preços já deveriam estar melhores, oferta ainda relativamente boa, embora menor do que a observada nos períodos anteriores e, apesar de melhor demanda de carne por parte do mercado consumidor, o consumo ainda ficou aquém do necessário para melhorar, de fato, os preços da @. A seca que prejudicou os pecuaristas em tempos de safra e as chuvas que agora caem em tempos em que deveríamos ter pastagens já bastante ruins, desorganizou a programação usual do mercado para esta época do ano e junho, que normalmente é o mês de início de valorização da @, ainda teve quedas fortes. Não que em junho não devêssemos ver ainda preços mais baixos de acordo com os índices históricos, mas, também de acordo com eles, as coisas já deveriam estar melhorando neste mês.

O período analisado começou com o atacado trabalhando em queda, após a alta do período anterior. A oferta ainda razoável de animais terminados, as escalas confortáveis e o fraco consumo seguiram pressionando as cotações e a expectativa de aquecimento de início de mês (época em que normalmente o varejo começa a se abastecer para suprir a demanda maior da semana inicial de pagamentos de salários) não foi significativamente atendida.

A oferta mais branda de animais se confirmou, porém, os compradores ainda não ofertam valores maiores para o boi e, apesar da disponibilidade de animais terminados levemente menor em comparação aos períodos anteriores, ainda tem sido suficiente para compor as escalas de abates, que continuam heterogêneas e atendem, em média, 4 a 5 dias úteis. Parcela significativa das indústrias de SP buscam animais no Mato Grosso do Sul e em Goiás, o que contribui para a sustentação dos preços nestas praças e impõe maior pressão no estado paulista, que está há mais de 30 dias com o preço referência da @ estável, em R$ 93,00 à vista e R$ 94,00 a prazo. Apesar da estabilidade no preço de referência da @ em algumas praças, a instabilidade geral do mercado do boi gordo também tem influência negativa sobre o mercado de animais de reposição, que apresenta poucos negócios concretizados e a maioria dos potenciais compradores aguardando o término do período de vacinação contra a febre aftosa para iniciar os negócios.

De acordo com a previsão da FAO para produção mundial de carnes em 2012, esta deve atingir 67,5 milhões de toneladas e, com a Abiec prevendo um aumento de cerca de 20% nas exportações, com receita acima de US$ 6 bilhões, o cenário externo de negociações do Brasil já apresenta expectativa de recuperação. No que diz respeito às exportações brasileiras de carne “in natura”, houve aumento de 20% em maio, com relação ao mês de abril e de 30% com relação ao mesmo período do ano passado. Embora o preço médio da tonelada tenha sofrido queda de 3,3% em relação a abril, o faturamento aumentou graças a um maior volume exportado, que, em relação a 2011, teve aumento de 19%. Além disto, a Abiec tem motivos para estar ainda mais otimista, pois contam, para embasar estes dados, com a recuperação do dólar e a iminente reabertura de mercados na Europa, no Oriente Médio e na America Latina. Para reforçar este otimismo, a renovação do Projeto “Brazilian Beef”, ocorrida em meados de junho, prevê incremento de 16% nos embarques de carne bovina nos próximos dois anos. O projeto visa fortalecer a imagem da carne bovina brasileira no exterior, contribuindo para ampliar a participação no mercado mundial de carne bovina. O novo acordo prevê investimentos de R$ 5,4 milhões, para dar continuidade às ações de promoção e exportação da carne certificada brasileira, e terá ações focadas em mercados consolidados, que merecem atenção devido à grande importância nas exportações, como a Rússia e a União Europeia, além de países onde o Brasil enfrenta forte concorrência, especialmente na África e no Oriente Médio. O embargo russo à carne brasileira, que completou, em junho, um ano de vigência, é um dos desafios que o novo acordo tem pela frente. Desde que o país, maior comprador de carne bovina do mundo, restringiu a importação de 89 plantas frigoríficas do país (entre bovinos e suínos), só Mato Grosso, por exemplo, teve exportações reduzidas a zero para este mercado e prejuízos da ordem de US$ 240 milhões, conforme a Federação das Indústrias do Estado (Fiemt). No entanto, as perdas provocadas pelo embargo ocasionaram também a abertura de novos mercados, antes inexpressivos e agora importantes compradores do produto brasileiro, como os casos do Chile e da Venezuela, que tiveram, de 2011 para cá, aumentos de 12% nas importações de carne bovina brasileira. Apesar desta bem-sucedida recolocação da carne mato-grossense para estes novos mercados, fica, ainda, a expectativa de término ou continuidade do embargo, visto que a rigidez da fiscalização sanitária brasileira atende exigências de compradores importantes, como a União Europeia, e possui padrões acima das médias mundiais. Esta dúvida, porém, só terá alguma definição após nova visita de uma missão russa ao país, programada para a segunda semana de julho.

Os preços da @ ao redor do mundo se recuperaram somente nos Estados Unidos e continuaram em queda na Austrália, no Brasil e na Argentina, sendo que a última se encontra em dificuldade para recuperar sua pecuária. Até o mês de abril, o país, em crise no setor, não tinha atingido nem 50% da Cota Hilton e as previsões não são muito otimistas no que diz respeito ao cumprimento do combinado, já que os acordos iniciam, em julho, o novo calendário.

No Brasil, o preço pago pela @ do boi gordo a prazo sofreu queda na maioria das praças analisadas, em relação ao período anterior.

Os valores médios pagos à vista foram de R$ 93,00 em São Paulo; R$ 86,79 em Minas Gerais; R$ 83,93 em Goiás; R$ 86,74 no Mato Grosso do Sul; R$ 84,25 no Mato Grosso; R$ 85,76 no Pará; R$ 91,71 no Paraná; R$ 99,14 em Santa Catarina e, no Rio Grande do Sul, R$ 3,17/kg. O gráfico mostra a evolução dos preços da @ pagos a prazo.

A média do deságio pago aos pecuaristas foi de 2,09%. Este valor representa um aumento de 10% em relação ao período anterior na diferença média entre os preços pagos pela @ à vista e a prazo, considerando-se todos os estados avaliados.

O preço médio do bezerro atingiu R$ 652,49, representando aumento de 0,38% em comparação ao período anterior. No período atual, os preços médios pagos pelo bezerro nas praças avaliadas foram de R$ 682,38 em SP; R$ 610,00 em MG; R$ 660,00 em GO; R$ 700,00 no MS; R$ 630,00 no MT; R$ 595,00 no PA; R$ 702,50 no PR e R$ 640,00 no RS. Diferentemente do período anterior, a categoria que mais se destacou no mercado de reposição na maioria das praças foi o bezerro.

Já a categoria mais erada, ou seja, o boi magro, apresentou média de preços de R$ 1.124,34, representando ligeira alta na maioria das regiões. Como exceções, tivemos Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, que sofreram queda. Pará e Rio Grande do Sul mantiveram as mesmas médias do período anterior.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e o boi gordo sofreram recuos, comprovando a desvalorização geral do preço da @ do animal terminado. Para a relação desmama/boi gordo, a média do período teve queda de 0,88% em relação ao período passado, fechando em 2,23% e, para a relação boi magro/boi gordo o índice se manteve em 1,29%.

De forma geral, ante as expectativas de boa oferta de animais nos próximos meses, tanto para o mercado interno quanto externo, e câmbio mais favorável, é possível esperar recuperação de preços, mesmo que lenta e gradual. O nível de preços da carne no mercado externo também deve levar a um quadro melhor de exportações e melhores resultados de receita. Se não ocorrerem mais imprevistos climáticos ou de outra natureza, estes fatores poderão contribuir para diminuir a pressão a que o mercado vem sendo submetido desde o início do ano e para uma possível regularização de seu comportamento apático desde então.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil Boviplan Consultoria