Leite

 

SUPLEMENTAÇÃO na dose e no tempo certo

Sabrina Coneglian*

A palavra mais utilizada atualmente quando falamos de produção animal é “eficiência”. Cada vez mais o controle das etapas relacionadas à produção se torna imprescindível.

A eficiência reprodutiva é um dos principais fatores que influenciam a produtividade do rebanho leiteiro. Fatores sanitários, problemas na identificação do cio e, principalmente, fatores nutricionais contribuem para atraso no retorno à atividade ovariana pós-parto, maior período de serviço e de intervalo entre parto, redução no período de lactação e menor produção de bezerros por ano e durante a vida útil. Consequentemente, os custos de produção são elevados pela manutenção de animais com baixa produção no rebanho.

Nutrição e reprodução são dois aspectos que possuem estreitos laços em qualquer sistema de produção. O status nutricional do animal pode afetar o padrão de secreção e atividade dos hormônios que regulam o metabolismo. A alimentação exerce efeitos em todas as etapas relacionadas ao processo reprodutivo. Atua desde a manifestação de cio até desenvolvimento folicular, qualidade dos gametas, taxa de ovulação, ambiente uterino, desenvolvimento do embrião, manutenção da gestação, aporte de nutrientes para o feto e para vaca e diminuição nos problemas pós-parto.

O processo ovulatório é o principal mecanismo influenciado pelo ambiente nutricional. Nas espécies domésticas que possuem várias ovulações por ciclo, o número destas pode variar de acordo com o aspecto nutricional. Este conhecimento é antigo e utilizado como ferramenta de manejo denominado “flushing alimentar” em suínos e ovinos. Este efeito do aporte de energia sobre a taxa de ovulação também ocorre em fêmeas com uma única ovulação por ciclo, como os bovinos.

Há variações na indicação do tempo de duração do flushing por parte dos pesquisadores. Cruz (2002) defende que de três a quatro semanas antes do período de serviço é a duração ideal do flushing. De maneira geral, Russel (1982) recomenda que essa alimentação especial deve começar ao redor de duas a quatro semanas antes da estação e continuar até duas a três semanas depois da estação de monta. Inicialmente, a principal finalidade é de aumentar a taxa de ovulação e, posteriormente, diminuir a mortalidade embrionária. Dessa forma, o resultado final da aplicação dessa prática alimentar será o aumento no número de bezerros nascidos.

As exigências nutricionais de vacas de leite não são constantes ao longo do ciclo produtivo e, portanto, é fundamental conhecermos como isto ocorre, pois é essencial que haja uma estratégia nutricional para todas as etapas do processo.

Período Seco - O período seco dura 60 dias, a fim de possibilitar a regeneração de células, uma boa produção de colostro, assegurar um bom desenvolvimento do feto e, ainda, completar as reservas corporais, caso a vaca tenha secado com o peso abaixo do desejado. É um período de ajuste final para que o animal chegue ao parto em boa condição corporal. Um nível nutricional alto no pré-parto possibilita boa porcentagem de cios até 60 dias da estação de monta, aspecto essencial para redução do intervalo entre partos.

Parto - A não reposição das reservas energéticas, oriunda de uma suplementação de energia insuficiente durante o final da lactação e/ou durante o período seco, irá limitar a produção de leite na lactação seguinte e comprometer a reprodução, atrasando o retorno à atividade ovariana pós-parto, além de desencadear patologias como retenção de placenta, infecção uterina, entre outras.

Início de lactação (30 a 60 dias) - Este é o período mais crítico do ciclo produtivo das vacas em termos de produção e eficiência reprodutiva. Após o parto, em um período muito curto, a vaca deverá estar pronta para uma nova gestação. Assim, uma nutrição inadequada nesta fase leva a menor produção de leite, menor peso do bezerro ao desmame e menor porcentagem de animais apresentando cio. A ração deve conter, além de níveis elevados de energia, uma proporção adequada de proteína capaz de permitir que a vaca atinja um pico da produção de leite condizente com seu potencial genético. Vacas em início de lactação apresentam balanço negativo de energia, mas é importante destacar que a intensidade e a duração deste balanço dependem da condição corporal da vaca no parto, da alimentação pós-parto e da produção de leite.

Cada fase do cliclo produtivo dos animais merece uma atenção especial com a nutrição

Final da lactação - É uma fase na qual boa parte dos animais já está gestante e a produção de leite sofreu uma redução considerável. A reposição de reservas para a nova lactação deve ser iniciada neste período, em que os animais ganham peso com maior facilidade. Deve ficar atento para o fornecimento de uma dieta equilibrada, evitando-se o excesso de acúmulo de gordura.

Atenção especial deve ser dada às novilhas, que ao parirem se tornarão primíparas, a categoria mais problemática do sistema de produção. Ocorre que a vaca de primeira cria possui requerimento nutricional superior ao das fêmeas mais eradas por ainda estar desenvolvendo massa corporal. Além disso, estão mais sujeitas a estresse e problemas de parto e, geralmente, levam desvantagem quando existe competição alimentar. Deve-se destinar a esta categoria animal as melhores pastagens e, se necessário, proceder a suplementação a fim de evitar atraso no estabelecimento da próxima gestação.

FÓSFORO

As mais recentes pesquisas com minerais para bovinos leiteiros têm focado nas exigências para as diferentes fases do ciclo produtivo, para a disponibilidade dos minerais nos diferentes alimentos e na interação entre eles. O fósforo tem recebido um renovado interesse em decorrência de seu potencial efeito sobre o ambiente. Dietas com concentração de fósforo entre 0,38% e 0,42% são adequadas. Entre os microminerais, o selênio e o cobre são os mais estudados, sendo que o selênio tem recebido maior atenção. Um melhor entendimento da transferência maternal de selênio, a disponibilidade deste elemento em diferentes fontes e as concentrações plasmáticas ideais têm sido alvo das pesquisas.

A suplementação de fósforo em gado leiteiro de alta produção tem foco na melhora do desempenho reprodutivo, que consiste em diminuição do intervalo entre partos, diminuição dos serviços por concepção e aumento da proporção de vacas prenhes em relação ao rebanho. Outro ponto em que esta suplementação exerce efeito é na qualidade do leite, principalmente na contagem de células somáticas, diminuindo sua concentração nos leites produzidos por vacas que ingeriram níveis recomendados. Quando falta fósforo na dieta de um bovino, ele desenvolverá apetite depravado (come terra, madeira, ossos, carniça), terá dificuldades para crescer, se reproduzir (a vaca ou novilha simplesmente não entra no cio) e terá sinais de fraqueza óssea: fraturas, dificuldade para andar e pastar. Pode ter manqueira ou passar a maior parte do tempo deitado, além disso, os ossos podem ficar moles ou deformados.

O fósforo desempenha diversas funções vitais no organismo do animal, estando relacionado com secreção de leite, metabolismo energético e de aminoácidos, transporte de ácidos graxos, síntese de fosfolipídios e de proteínas. Como resultado, o fósforo está envolvido no metabolismo celular, no sistema enzimático e no sistema tampão (constituinte da saliva). No organismo do animal, cerca de 80% a 86% de fósforo encontra-se nos ossos e nos dentes, sendo o restante distribuído nos tecidos moles. O fósforo, na forma fosfato, é absorvido no intestino delgado, sendo que o processo de absorção é mediado pela vitamina D. Para as vacas em início de lactação, a elevada demanda por fósforo aumenta a absorção deste elemento no trato digestivo, ao mesmo tempo em que as exigências de cálcio repercutem na maior mobilização de fósforo presente nos ossos. Desta forma, parte das exigências requeridas nesta fase é suprida pelo fósforo mobilizado dos ossos. Em outras palavras, é possível que no início da lactação os níveis de fósforo da dieta não precisem ser tão elevados, tendo um aumento crescente até o pico de lactação (maior demanda por este mineral) e voltando a diminuir junto com decréscimo de produção de leite.

Antes que o fósforo suplementar possa produzir qualquer resposta significativa, é preciso que outros nutrientes deficientes, principalmente proteína e energia, sejam adequadamente fornecidos. Desta forma, as respostas à suplementação fosfórica ocorrem em maior intensidade no período chuvoso, quando a proteína e a energia são elevadas nas pastagens, e não durante a estação seca, quando aqueles nutrientes também passam a ser limitantes no desempenho animal.

Tão importante quanto as características do alimento, o manejo alimentar e o manejo sanitário, a suplementação adequada de minerais, em especial do fósforo, é indispensável para maximizar o desempenho e a longevidade das vacas, levando em consideração que melhorias na saúde dos animais e otimização da reprodução e produção de leite são os principais fatores para rentabilidade nas propriedades leiteiras.

*Dra. em Nutrição de Ruminantes e integrante do Dep. de Inovação, Qualidade de Produto e Assistência Técnica da Vale Fertilizantes - [email protected]