Do Pasto ao Prato

 

CRIANDO UMA AGENDA POSITIVA PARA A PECUÁRIA DE CORTE

O movimento dos pecuaristas para se discutir a concentração do setor frigorífico, que incluiu manifestações, reuniões e eventos transmitidos pela TV, está começando a surtir efeitos positivos. Os primeiros movimentos de algumas entidades de pecuaristas chamaram a atenção para o assunto. Pode se criticar que pareciam estar “jogando para a torcida”, mas foi importante para um primeiro momento.

Agora, vejo um amadurecimento das conversas e acredito começarmos uma longa jornada. O caminho é esse.

O JBS recebeu no dia 4 de junho uma série de representantes de entidades ligadas à pecuária. O BeefPoint teve acesso ao documento apresentado na reunião e é animador ver a pauta do que foi discutido.

A conversa girou em torno de seis pontos, visando criar uma agenda positiva na relação pecuarista-frigorífico. São elas:

1 - Como acabar com o problema rendimento e peso de carcaça?

2 - Como criar um sistema de tipificação de carcaças?

3 - Como acabar com os calotes dos frigoríficos?

4 - Vale a pena criar um fundo de marketing para a pecuária?

5 - Como abrir novos mercados para a carne brasileira?

6 - Seria válido criar uma agência reguladora da cadeia da carne?

Eu acredito que todos os temas são relevantes, mas de importância diferente, e nem todos precisam necessariamente passar por uma discussão pecuaristafrigorífico. Os três primeiros pontos são os mais relevantes e urgentes, na minha opinião. Acredito que valha mais a pena focar neles e não se perder o foco com muitos temas.

A questão do rendimento e do peso de carcaça é muito séria e antiga. Peso é básico e mostra como a confiança anda desgastada entre esses dois elos da cadeia. Além do peso de carcaça, é fundamental criar um padrão brasileiro de toalete, de limpeza de carcaça. Na viagem do BeefPoint à Austrália em maio deste ano, tomamos conhecimento de que lá existe um padrão nacional. Ou seja, qualquer pessoa tem uma base, uma baliza, para comparar o que está sendo feito. Isso seria muito bom para o setor. Transparência, informação e padronização dão mais confiança e tranquilidade para todos.

Já conversei com o professor Pedro de Felício, da Unicamp, e Alexandre Raffi, do Novilho Precoce MS, publicamente pelo Twitter, sobre o tema. Ambos têm muito interesse em desenvolver esse trabalho. Além disso, tenho certeza que entidades, como a Acrimat, e o professor Roberto Roça, da Unesp, topariam entrar nesse projeto. Pela ata da reunião do JBS com pecuaristas em 4 de junho, a empresa também estaria aberta a participar. Está na hora de darmos o primeiro passo e começarmos a fazer esse trabalho. Temos todo interesse de apoiar e divulgar maciçamente esse projeto, que vai ser um marco para a pecuária de corte nacional.

O segundo ponto, a criação de um sistema de tipificação de carcaças, já foi amplamente discutido. Há muita coisa boa já sendo feita, há muito interesse em fazer, em especial por pecuaristas de ponta. E agora parece haver um interesse claro de um grande frigorífico em ajudar a tocar o projeto.

A tipificação de carcaças vai ajudar a aumentar a transparência. Será possível ver o que é bom e o que não é. Como disse Eduardo Pedroso, do JBS, há poucos dias: “O maior motivador desta agenda é o fato de a demanda por qualidade ser, hoje, maior do que a oferta. Promover o diálogo na cadeia produtiva é a forma mais inteligente de construir e compartilhar resultados. A tipificação é apenas uma métrica para facilitar o diálogo entre pecuarista, indústria e consumidor”.

Como existe demanda por qualidade não atendida, há um estímulo real para a indústria promover a transparência, informar o padrão de gado que deseja comprar e até pagar mais por gado de maior qualidade. Tudo isso para poder atender um mercado que não se consegue suprir hoje. Mais uma vez, é o consumidor que está direcionando a produção pecuária brasileira. O que precisamos fazer é que essa “comunicação” entre consumidor e toda a cadeia seja mais rápida e eficiente. Hoje, é muito longa e demorada, com isso perdemos tempo e oportunidades, enquanto outros setores mais próximos, como o frango, e mais distantes, como o de celulares, são mais rápidos em responder ao consumidor.

O terceiro ponto é o que causou mais trauma nos últimos anos aos pecuaristas. As diversas recuperações judiciais deixaram muita gente na mão. Desde 2009, mostro um slide “Só a Vista” nas minhas palestras. Isso tem causado um certo desconforto em muitas regiões e também tem evitado que algumas empresas contratem minha palestra. Mas eu preciso tratar do tema quando falo sobre mercado do boi e da carne. Meu argumento é simples: qual empresa séria e organizada vende a prazo sem fazer análise de crédito? A resposta é óbvia: nenhuma. Ou seja, se o pecuarista não tem capacidade de fazer uma excelente análise de crédito do frigorífico quando está vendendo um grande percentual de todo seu faturamento anual, a saída é vender apenas à vista ou a prazo com garantia real de recebimento.

Na reunião, surgiu uma sugestão muito interessante, copiando um sistema americano que existe desde 1921. Todo frigorífico que compra mais de 500 mil dólares em gado por ano é obrigado, por lei, a contribuir para um fundo segurador do pecuarista. Esse dinheiro não pode ser incluído numa recuperação judicial e deve ser direcionado ao pagamento dos produtores. Ou seja, uma lei criou um seguro contra inadimplência. Como todos são obrigados a pagar, e o dinheiro é minimamente bem gerido, o valor cobrado por animal é baixo.

Os outros três pontos deveriam ser discutidos numa próxima etapa. Eu sou um grande entusiasta do marketing institucional da carne bovina. Na minha opinião, os dois grandes problemas atuais são carne com gosto de fígado e abate clandestino.

O primeiro conseguiu gerar um receio muito grande junto aos consumidores de que a carne comprada terá sabor ruim. Gera um descompasso enorme entre expectativa e realidade. A grande busca do marketing é criar perspectivas e superálas. Atualmente, entregamos uma surpresa desagradável ao consumidor.

O segundo ponto fica claro quando você assiste ao vídeo-denúncia do CQC sobre abate clandestino. Ao ver imagens tão negativas, será que a impressão geral sobre pecuária e sobre carne bovina não é afetada? O CQC não criou o problema, apenas trouxe a público o que muitas vezes queremos esquecer que existe.

Carne bovina é um alimento saudável, nobre e delicioso. Os dois problemas citados atacam diretamente todas essas premissas. O problema de marketing da pecuária atual é resolver esses dois pontos primeiro.

A questão da abertura de novos mercados passa por uma atuação mais intensa dos frigoríficos, do MAPA e do Itamarati nas negociações internacionais. Temos uma regra de rastreabilidade para UE diferente de outros países vizinhos. Em muitos casos, não temos uma imagem de alta credibilidade. Em problemas com a Rússia, a Austrália foi muito mais rápida e eficiente que o Brasil em resolver impasses. Acredito que não é a hora de envolver produtores.

O Brasil tem uma Cota Hilton muito menor do que a Argentina, e nem assim consegue atender. Pelo simples motivo de falta de coordenação entre produtores e frigoríficos.

Por último, a criação de uma agência reguladora, como acontece com a laranja e a cana, seria muito interessante. Todavia, precisamos antes amadurecer mais nossas relações de confiança e governança. Acredito que seria mais prudente focar nos três primeiros pontos, para que saiam do papel o quanto antes.

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)